Revista Científica Medico Veterinária Petclube Cães Gatos - Biomarcadores Inflamatórios e os Elementos Fisiológicos Envolvidos na Inflamação Sistêmica e Crônica de Baixo Grau

Biomarcadores Inflamatórios e os Elementos Fisiológicos Envolvidos na Inflamação Sistêmica e Crônica de Baixo Grau

Autores:


Dr. Cláudio Amichetti Júnior


CRMV-SP 75.404 VT · MAPA 00129461/2025 · CREA 060149829-SP

Dr. Gabriel Amichetti


CRMV-SP 45.592 VT

Petclube – Science, Genetics and Animal Welfare


São Paulo, Brasil

Resumo

A inflamação é um mecanismo fisiológico essencial para defesa, reparação tecidual e manutenção da homeostase. Entretanto, quando persistente, desregulada ou silenciosa, pode contribuir para o desenvolvimento de doenças metabólicas, cardiovasculares, neurodegenerativas, autoimunes e neoplásicas. O presente artigo revisa os principais biomarcadores inflamatórios e os elementos fisiológicos envolvidos na inflamação sistêmica, incluindo citocinas pró-inflamatórias, proteínas de fase aguda, mediadores oxidativos, alterações imunometabólicas, microbiota intestinal, disfunção mitocondrial e neuroinflamação. São discutidos os mecanismos celulares e moleculares relacionados à ativação imunológica crônica e à inflamação de baixo grau.


1. Introdução

A resposta inflamatória representa um processo biológico complexo coordenado pelo sistema imunológico inato e adaptativo. Seu objetivo fisiológico é eliminar agentes agressores, restaurar tecidos lesionados e preservar a integridade orgânica. Contudo, a persistência de estímulos inflamatórios pode gerar uma condição conhecida como inflamação crônica de baixo grau, associada ao envelhecimento acelerado e à fisiopatologia de múltiplas doenças crônicas.

Nas últimas décadas, diversos biomarcadores têm sido utilizados para avaliar estados inflamatórios sistêmicos e locais. Esses marcadores incluem proteínas plasmáticas, citocinas, quimiocinas, mediadores oxidativos e moléculas de adesão celular.


2. Fisiologia da Inflamação

2.1 Ativação do Sistema Imune Inato

O sistema imune inato constitui a primeira linha de defesa do organismo. Macrófagos, neutrófilos, células dendríticas e mastócitos reconhecem padrões moleculares associados a patógenos (PAMPs) e sinais de dano celular (DAMPs) através de receptores Toll-like (TLRs).

A ativação desses receptores promove:

  • ativação do NF-κB;

  • produção de citocinas pró-inflamatórias;

  • recrutamento leucocitário;

  • ativação endotelial;

  • produção de espécies reativas de oxigênio (ROS).


3. Citocinas Inflamatórias

As citocinas são proteínas sinalizadoras fundamentais na modulação da resposta inflamatória.

3.1 Interleucina-6 (IL-6)

A IL-6 é produzida principalmente por macrófagos, adipócitos e células endoteliais. Atua estimulando a produção hepática de proteínas de fase aguda, especialmente a proteína C reativa.

Funções fisiopatológicas:

  • indução da PCR;

  • ativação linfocitária;

  • resistência insulínica;

  • inflamação vascular;

  • catabolismo muscular.


3.2 TNF-α (Fator de Necrose Tumoral Alfa)

O TNF-α exerce papel central na inflamação sistêmica e metabólica.

Principais efeitos:

  • aumento da permeabilidade vascular;

  • ativação do NF-κB;

  • apoptose celular;

  • resistência à insulina;

  • ativação de macrófagos.


3.3 IL-1β

A IL-1β participa intensamente da febre, dor inflamatória e recrutamento leucocitário.


4. Proteínas de Fase Aguda

4.1 Proteína C Reativa (PCR)

A PCR é produzida no fígado em resposta à IL-6. Constitui um dos biomarcadores inflamatórios mais utilizados na prática clínica.

A PCR ultrassensível (PCR-us) permite detectar inflamação crônica de baixo grau relacionada à aterosclerose e síndrome metabólica.


4.2 Ferritina

Embora seja uma proteína de armazenamento de ferro, a ferritina também se comporta como marcador inflamatório.

Níveis elevados podem refletir:

  • inflamação sistêmica;

  • síndrome metabólica;

  • doenças hepáticas;

  • ativação macrofágica.


4.3 Fibrinogênio

Importante proteína pró-coagulante associada à inflamação vascular e trombose.


5. Inflamação Endotelial e Cardiovascular

A inflamação crônica promove disfunção endotelial através da expressão de moléculas de adesão:

  • ICAM-1;

  • VCAM-1;

  • selectinas.

Essas moléculas facilitam migração leucocitária para a parede vascular, contribuindo para aterogênese.

5.1 LDL Oxidada (OxLDL)

A oxidação lipídica estimula macrófagos e formação de células espumosas, fundamentais na aterosclerose.


6. Inflamação Metabólica

A obesidade visceral promove infiltração macrofágica no tecido adiposo, gerando liberação contínua de citocinas inflamatórias.

Principais alterações:

  • aumento de IL-6;

  • aumento de TNF-α;

  • leptina elevada;

  • adiponectina reduzida;

  • resistência insulínica;

  • hiperinsulinemia.


7. Microbiota Intestinal e Inflamação

O intestino desempenha papel essencial na modulação imunológica sistêmica.

7.1 Disbiose Intestinal

Desequilíbrios da microbiota favorecem:

  • aumento da permeabilidade intestinal;

  • translocação bacteriana;

  • endotoxemia metabólica;

  • ativação inflamatória sistêmica.


7.2 Lipopolissacarídeo (LPS)

O LPS bacteriano ativa receptores TLR4, promovendo:

  • ativação de NF-κB;

  • produção de TNF-α;

  • aumento de IL-6;

  • resistência insulínica.


7.3 Zonulina

A zonulina regula as tight junctions intestinais. Sua elevação está associada à hiperpermeabilidade intestinal.


8. Estresse Oxidativo e Inflamação

A inflamação crônica está intimamente ligada à produção excessiva de espécies reativas de oxigênio.

Principais biomarcadores oxidativos:

  • malondialdeído (MDA);

  • 8-OHdG;

  • glutationa reduzida;

  • superóxido dismutase (SOD);

  • catalase.

O excesso de ROS promove:

  • dano mitocondrial;

  • peroxidação lipídica;

  • dano ao DNA;

  • envelhecimento celular.


9. Neuroinflamação

Citocinas inflamatórias podem atravessar a barreira hematoencefálica ou ativar vias neuroimunes periféricas.

Consequências:

  • ativação microglial;

  • alteração neurotransmissora;

  • estresse oxidativo cerebral;

  • neurodegeneração.

Marcadores associados:

  • IL-6;

  • TNF-α;

  • proteína S100B;

  • neurofilamento leve (NFL).


10. Inflamação Crônica de Baixo Grau

A inflamação subclínica persistente está relacionada a:

  • obesidade;

  • sedentarismo;

  • privação de sono;

  • estresse crônico;

  • dieta ultraprocessada;

  • poluição ambiental;

  • disbiose intestinal.

Essa condição contribui para:

  • diabetes mellitus tipo 2;

  • aterosclerose;

  • doenças autoimunes;

  • câncer;

  • doenças neurodegenerativas.


11. Biomarcadores Inflamatórios Mais Utilizados

Biomarcadores laboratoriais principais

  • PCR ultrassensível;

  • VHS;

  • ferritina;

  • fibrinogênio;

  • IL-6;

  • TNF-α;

  • homocisteína;

  • procalcitonina;

  • calprotectina;

  • OxLDL;

  • zonulina.


12. Considerações Finais

A inflamação constitui um fenômeno fisiológico complexo e multifatorial, profundamente integrado ao metabolismo, sistema nervoso, microbiota intestinal e imunidade. A compreensão dos biomarcadores inflamatórios permite avaliação mais ampla da homeostase orgânica e do risco para doenças crônicas.

A medicina moderna avança para abordagens integrativas e preventivas, considerando alimentação, microbiota intestinal, atividade física, qualidade do sono e equilíbrio neuroimunometabólico como pilares fundamentais na modulação inflamatória sistêmica.


Referências

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