Revista Científica Medico Veterinária Instituto Petclube Cães Gatos - Microbiota Intestinal, Disbiose e Uso Racional de Probióticos e Prebióticos na Prática Clínica de Cães e Gatos

Microbiota Intestinal, Disbiose e Uso Racional de Probióticos e Prebióticos na Prática Clínica de Cães e Gatos

Claudio Amichetti Junior — CRMV 75404

Resumo

A microbiota intestinal atua como um órgão metabólico virtual, influenciando a digestão, a defesa imunológica, a destoxificação e a homeostase sistêmica em cães e gatos. A disbiose — o desequilíbrio entre espécies bacterianas protetoras e patogênicas — é cada vez mais reconhecida como um fator de inflamação crônica, doença gastrointestinal e distúrbios metabólicos. Este artigo revisa a justificativa clínica para o uso de prebióticos, probióticos e simbióticos na medicina de pequenos, os critérios de seleção de cepas adequadas e as situações em que a suplementação profilática está indicada.

Introdução

A microbiota intestinal é composta por trilhões de microrganismos cujo genoma coletivo supera amplamente o genoma do hospedeiro. Em humanos, o DNA microbiano representa cerca de 90% do material genético total do corpo, e um paradigma semelhante se aplica aos animais de companhia. A Organização Mundial da Saúde descreveu a microbiota intestinal como um órgão virtual, dadas suas funções fundamentais na digestão, na fermentação de fibras alimentares, na produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC — acetato, propionato, butirato), na defesa da barreira intestinal e na destoxificação.

Na clínica veterinária, a relevância desse ecossistema cresceu substancialmente. O uso indiscriminado de antimicrobianos, a crescente incidência de enteropatias crônicas e o reconhecimento do eixo intestino–cérebro posicionaram a modulação da microbiota como alvo terapêutico tanto em cães como em gatos.

Desenvolvimento

Disbiose e a Barreira Intestinal

A disbiose é um desequilíbrio relativo entre espécies bacterianas protetoras e potencialmente nocivas. Em cães e gatos, os gatilhos comuns incluem terapia antimicrobiana, mudanças dietéticas, estresse, infecções parasitárias (p. ex., supercrescimento de Candida) e o uso crônico de fármacos supressores de acidez gástrica, como os inibidores da bomba de prótons (IBPs). Ao elevar o pH gástrico, os IBPs comprometem a barreira natural que normalmente impede a ascensão de microrganismos patogênicos pelo trato gastrointestinal, predispondo os pacientes a infecções recorrentes e a maior disbiose.

Uma microbiota saudável sustenta a integridade da barreira epitelial, modula a imunidade local e sistêmica e reduz a produção de toxinas pró-inflamatórias. Por outro lado, a disbiose está associada ao aumento da permeabilidade intestinal ("intestino permeável"), à inflamação crônica de baixo grau e, em longo prazo, ao risco metabólico e neoplásico.

Prebióticos: Alimentando as Bactérias Benéficas

Prebióticos são substratos não digeríveis que estimulam seletivamente o crescimento e a atividade de bactérias benéficas. As duas principais classes são a inulina e a oligofrutose, ambas derivadas em grande parte de fibras alimentares. O amido resistente — o amido encontrado em tubérculos como a batata-doce — também serve como substrato para a fermentação benéfica.

Na nutrição de animais de companhia, fontes de fibra como a inclusão moderada de batata-doce e outras fibras prebióticas favorecem a produção de AGCC, que nutrem os colonócitos e contribuem para a saúde da mucosa. É importante destacar que a escolha da fonte de carboidrato importa: ingredientes altamente glicêmicos podem causar picos rápidos de glicose, enquanto as fibras prebióticas proporcionam um perfil de fermentação mais favorável.

Probióticos e Simbióticos: Critérios de Seleção

Probióticos são microrganismos vivos que conferem benefício à saúde quando administrados em quantidades adequadas. Um simbiótico combina um probiótico com um prebiótico, melhorando a sobrevivência e a colonização.

Para eficácia clínica em cães e gatos, um probiótico deve atender a vários critérios:

  • Liberação entérica: o produto deve resistir ao ácido gástrico; caso contrário, os microrganismos são destruídos no estômago antes de atingir o intestino.
  • Contagem viável adequada no momento do consumo (unidades formadoras de colônias — UFC), e não apenas na fabricação.
  • Múltiplas cepas bem caracterizadas, idealmente combinadas com um prebiótico.
  • Evidência específica da cepa de benefício para a espécie-alvo.

No intestino delgado predominam espécies de Lactobacillus, enquanto no intestino grosso são mais abundantes as espécies de Bifidobacterium. Essa distribuição anatômica reforça a necessidade de formulações de liberação entérica e de cepas apropriadas para cada espécie.

Quando Indicar Suplementação Profilática

O uso profilático de prebióticos/probióticos é clinicamente justificado em várias situações:

  • Durante e após terapia antimicrobiana, para restaurar a microbiota e reduzir a diarreia associada a antibióticos.
  • Durante hospitalização, onde a exposição a patógenos resistentes é maior.
  • Em situações de estresse e viagens, quando a resposta imunológica pode estar comprometida.
  • Durante gestação/lactação e em pacientes idosos, nos quais as populações de bifidobactérias declinam com a idade.
  • Em pacientes com enteropatias crônicas e infecções recorrentes, como terapia adjuvante para suportar a função de barreira e reduzir a inflamação.

Considerações Finais

A microbiota intestinal é um ecossistema dinâmico e clinicamente relevante em cães e gatos. O uso racional de antimicrobianos, a adequação de fibras na dieta e o uso criterioso de probióticos, prebióticos e simbióticos bem selecionados representam uma estratégia baseada em evidências para restaurar a homeostase, fortalecer a barreira epitelial e reduzir a inflamação crônica. Como na medicina humana, o futuro da prática de pequenos animais reconhece cada vez mais que "a saúde começa no intestino".

Referências

  • Suchodolski, J. S. (2016). Diagnosis and interpretation of intestinal dysbiosis in dogs and cats. The Veterinary Journal, 215, 221–227.
  • Suchodolski, J. S. (2011). Intestinal microbiota of dogs and cats: a bigger world than we thought. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, 41(2), 261–272.
  • WSAVA Global Nutrition Committee. Guidelines on the use of probiotics in dogs and cats.
  • Turnbaugh, P. J., et al. (2006). An obesity-associated gut microbiome with increased capacity for energy harvest. Nature, 444(7122), 1027–1031.
  • Ley, R. E., et al. (2008). Microbial ecology: human gut microbes associated with obesity. American Journal of Clinical Nutrition, 88(1), 259S–263S.

Claudio Amichetti Junior — CRMV 75404 Pós em Nutrição Animal · Pós em Farmacologia · Pós em Cannabis Medicinal

 

Gut Microbiota, Dysbiosis and the Rational Use of Probiotics and Prebiotics in Canine and Feline Clinical Practice

Claudio Amichetti Junior — CRMV 75404

Abstract

The intestinal microbiota acts as a virtual metabolic organ, influencing digestion, immune defense, detoxification and systemic homeostasis in dogs and cats. Dysbiosis — the imbalance between protective and pathogenic bacterial species — is increasingly recognized as a driver of chronic inflammation, gastrointestinal disease and metabolic disorders. This article reviews the clinical rationale for prebiotics, probiotics and synbiotics in small animal practice, the criteria for selecting appropriate strains, and the situations in which prophylactic supplementation is indicated.

Introduction

The intestinal microbiota is composed of trillions of microorganisms whose collective genome vastly exceeds the host's own. In humans, microbial DNA accounts for approximately 90% of total body genetic material, and a similar paradigm applies to companion animals. The World Health Organization has described the intestinal microbiota as a virtual organ, given its fundamental roles in digestion, fermentation of dietary fiber, production of short-chain fatty acids (SCFAs — acetate, propionate, butyrate), intestinal barrier defense and detoxification.

In clinical veterinary medicine, the relevance of this ecosystem has grown substantially. The indiscriminate use of antimicrobials, the increasing incidence of chronic enteropathies and the recognition of the gut–brain axis have positioned microbiota modulation as a therapeutic target in both canine and feline patients.

Development

The Rolebiosis and the Intestinal Barrier

Dysbiosis is a relative imbalance between protective and potentially harmful bacterial species. In dogs and cats, common triggers include antimicrobial therapy, dietary changes, stress, parasitic infections (e.g., Candidaovergrowth) and chronic use of gastric acid-suppressing drugs such as proton pump inhibitors (PPIs). By raising gastric pH, PPIs compromise the natural barrier that normally prevents pathogenic microorganisms from ascending the gastrointestinal tract, predisposing patients to recurrent infections and further dysbiosis.

A healthy microbiota supports the integrity of the epithelial barrier, modulates local and systemic immunity and reduces the production of pro-inflammatory toxins. Conversely, dysbiosis is associated with increased intestinal permeability ("leaky gut"), chronic low-grade inflammation and, in the long term, metabolic and neoplastic risk.

Prebiotics: Feeding the Beneficial Bacteria

Prebiotics are non-digestible substrates that selectively stimulate the growth and activity of beneficial bacteria. The two main classes are inulin and oligofructose, both derived largely from dietary fiber. Resistant starch — the starch found in tubers such as sweet potato — also serves as a substrate for beneficial fermentation.

In companion animal nutrition, fiber sources such as a moderate inclusion of sweet potato and other prebiotic fibers support SCFA production, which nourishes colonocytes and contributes to mucosal health. Importantly, the choice of carbohydrate source matters: highly glycemic ingredients can cause rapid glucose spikes, whereas prebiotic fibers provide a more favorable fermentation profile.

Probiotics and Synbiotics: Selection Criteria

Probiotics are live microorganisms that confer a health benefit when administered in adequate amounts. A synbiotic combines a probiotic with a prebiotic, enhancing survival and colonization.

For clinical efficacy in dogs and cats, a probiotic must meet several criteria:

  • Enteric release: The product must resist gastric acid; otherwise, the microorganisms are destroyed in the stomach before reaching the intestine.
  • Adequate viable count at the time of consumption (colony-forming units, CFU), not merely at manufacture.
  • Multiple, well-characterized strains, ideally combined with a prebiotic.
  • Strain-specific evidence of benefit for the target species.

In the small intestine, Lactobacillus species predominate, whereas Bifidobacterium species are more abundant in the large intestine. This anatomical distribution reinforces the need for enteric-release formulations and species-appropriate strains.

When to Indicate Prophylactic Supplementation

Prophylactic prebiotic/probiotic use is clinically justified in several situations:

  • During and after antimicrobial therapy, to restore the microbiota and reduce antibiotic-associated diarrhea.
  • During hospitalization, where exposure to resistant pathogens is increased.
  • In stressful situations and travel, where the immune response may be compromised.
  • During pregnancy/lactation and in geriatric patients, in whom bifidobacterial populations decline with age.
  • In patients with chronic enteropathies and recurrent infections, as adjunctive therapy to support barrier function and reduce inflammation.

Final Considerations

The intestinal microbiota is a dynamic, clinically relevant ecosystem in canine and feline patients. Rational antimicrobial stewardship, dietary fiber adequacy and the judicious use of well-selected probiotics, prebiotics and synbiotics represent a science-based strategy to restore homeostasis, strengthen the epithelial barrier and reduce chronic inflammation. As in human medicine, the future of small animal practice increasingly recognizes that "health begins in the gut."

References

  • Suchodolski, J. S. (2016). Diagnosis and interpretation of intestinal dysbiosis in dogs and cats. The Veterinary Journal, 215, 221–227.
  • Suchodolski, J. S. (2011). Intestinal microbiota of dogs and cats: a bigger world than we thought. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, 41(2), 261–272.
  • WSAVA Global Nutrition Committee. Guidelines on the use of probiotics in dogs and cats.
  • Turnbaugh, P. J., et al. (2006). An obesity-associated gut microbiome with increased capacity for energy harvest. Nature, 444(7122), 1027–1031.
  • Ley, R. E., et al. (2008). Microbial ecology: human gut microbes associated with obesity. American Journal of Clinical Nutrition, 88(1), 259S–263S.

Claudio Amichetti Junior — CRMV 75404 Pós em Nutrição Animal · Pós em Farmacologia · Pós em Cannabis Medicinal

 
 
 
 
 
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