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barreira intestinal

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  • CALDO DE OSSOS, COLÁGENO E SAÚDE INTESTINAL: UMA REVISÃO DA LITERATURA COM FOCO EM MEDICINA VETERINÁRIA

    CALDO DE OSSOS, COLÁGENO E SAÚDE INTESTINAL: UMA REVISÃO DA LITERATURA COM FOCO EM MEDICINA VETERINÁRIA

    Estudo sobre a aplicação de aminoácidos derivados do colágeno na integridade da barreira intestinal

    17 de julho de 2026


     

    CALDO DE OSSOS, COLÁGENO E SAÚDE INTESTINAL: UMA REVISÃO DA LITERATURA COM FOCO EM MEDICINA VETERINÁRIA

    Autor: Dr. Cláudio Amichetti Júnior Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal

     

    RESUMO O caldo de ossos é um alimento ancestral que tem despertado renovado interesse científico devido à sua densidade nutricional, especialmente como fonte de colágeno e aminoácidos bioativos. Este estudo revisa a literatura atual sobre o papel do caldo de ossos e seus derivados na manutenção da integridade da barreira intestinal, com foco em aplicações na medicina veterinária. A barreira intestinal desempenha um papel crucial na saúde de cães e gatos, e sua disfunção está associada a enteropatias crônicas, disbiose e síndrome do intestino permeável. O colágeno, proteína predominante no caldo de ossos, fornece aminoácidos essenciais como glicina, prolina e hidroxiprolina, fundamentais para a síntese de colágeno endógeno e reparação tecidual. Evidências em modelos animais indicam que a ingestão de caldo de ossos e peptídeos de colágeno pode modular a microbiota intestinal, reduzir a inflamação e fortalecer as junções apertadas (tight junctions). Na nutrologia veterinária, o caldo de ossos surge como uma estratégia coadjuvante promissora para o manejo de distúrbios gastrointestinais e suporte nutricional. Conclui-se que, embora os mecanismos moleculares estejam sendo elucidados em modelos murinos, há um potencial terapêutico significativo para a espécie canina e felina, demandando novos ensaios clínicos específicos.

     

    Palavras-chave: Caldo de ossos; Colágeno; Barreira intestinal; Aminoácidos; Medicina veterinária; Nutrologia veterinária.

     

    ABSTRACT Bone broth is an ancestral food that has gained renewed scientific interest due to its nutritional density, particularly as a source of collagen and bioactive amino acids. This study reviews current literature on the role of bone broth and its derivatives in maintaining intestinal barrier integrity, focusing on veterinary medicine applications. The intestinal barrier plays a critical role in the health of dogs and cats, and its dysfunction is linked to chronic enteropathies, dysbiosis, and leaky gut syndrome. Collagen, the predominant protein in bone broth, provides essential amino acids such as glycine, proline, and hydroxyproline, which are fundamental for endogenous collagen synthesis and tissue repair. Evidence from animal models indicates that bone broth and collagen peptides can modulate gut microbiota, reduce inflammation, and strengthen tight junctions. In veterinary nutrition, bone broth emerges as a promising adjunctive strategy for managing gastrointestinal disorders and providing nutritional support. It is concluded that while molecular mechanisms are being elucidated in murine models, there is significant therapeutic potential for canine and feline species, requiring further specific clinical trials.

     

    Keywords: Bone broth; Collagen; Intestinal barrier; Amino acids; Veterinary medicine; Veterinary nutrition.

     

    1. INTRODUÇÃO

    O caldo de ossos é um alimento de uso ancestral, presente na dieta humana há milênios como uma forma eficiente de aproveitar integralmente as carcaças de animais caçados ou criados. Historicamente utilizado em diversas culturas por suas propriedades restauradoras, este alimento tem passado por um processo de validação científica contemporânea. Estudos recentes têm demonstrado que o cozimento prolongado de tecidos conjuntivos e ossos resulta em um extrato rico em colágeno, gelatina e aminoácidos específicos, que desempenham funções biológicas que transcendem a nutrição básica, atuando como agentes terapêuticos na modulação da saúde sistêmica.

     

    A relevância atual do caldo de ossos reside na sua conexão direta com o eixo pele-intestino e a preservação da barreira intestinal. A integridade do epitélio gastrointestinal é fundamental para a homeostase, impedindo a translocação de patógenos e toxinas para a circulação sistêmica. Na medicina veterinária, o reconhecimento de condições como enteropatias crônicas, disbiose e a síndrome do intestino permeável (leaky gut) em cães e gatos tem impulsionado a busca por intervenções nutricionais que auxiliem na reparação da mucosa e na modulação da resposta inflamatória local.

     

    O presente estudo justifica-se pela necessidade de consolidar as evidências científicas sobre o uso do caldo de ossos e seus componentes na saúde intestinal, transpondo achados de modelos experimentais para a prática clínica veterinária. O objetivo desta revisão é analisar a literatura sobre a composição nutricional do caldo de ossos, os mecanismos de ação do colágeno na barreira intestinal e as evidências emergentes que sustentam seu uso na nutrologia de pequenos animais como suporte terapêutico.

     

    2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

    2.1 Colágeno: Estrutura, Síntese e Funções

    O colágeno é a proteína mais abundante no organismo dos mamíferos, representando cerca de 30% do conteúdo proteico total. Sua estrutura é caracterizada por uma tripla hélice única, composta por três cadeias polipeptídicas ricas em aminoácidos específicos. A composição elementar do colágeno apresenta uma predominância marcante de glicina (33%), prolina (12%) e hidroxiprolina (11%), organizados frequentemente na sequência repetitiva Gly-X-Y (SHOULDERS; RAINES, 2009). Esta configuração confere resistência mecânica e estabilidade aos tecidos conjuntivos, sendo essencial para a matriz extracelular, pele, ossos, tendões e, notadamente, para a estrutura de suporte do trato gastrointestinal (RICARD-BLUM, 2011).

     

    A síntese endógena de colágeno é um processo complexo que exige a disponibilidade biológica de seus aminoácidos precursores, além de cofatores essenciais como a vitamina C, cobre e zinco. A hidroxilação da prolina e da lisina, etapa crítica para a estabilidade da tripla hélice, depende diretamente desses micronutrientes. No contexto de doenças crônicas ou estados de convalescença, a demanda metabólica por esses blocos construtores pode exceder a capacidade de síntese do organismo, tornando a suplementação dietética através de fontes biodisponíveis, como o caldo de ossos, uma estratégia fisiologicamente relevante.

     

    2.2 Barreira Intestinal e Saúde Gastrointestinal

    A barreira intestinal é uma estrutura multicamada complexa composta pela microbiota comensal, uma camada de muco protetora, enterócitos e as junções apertadas (tight junctions). Estas últimas são complexos proteicos que incluem claudinas, ocludinas e proteínas de zona de oclusão (ZO-1), responsáveis por selar o espaço paracelular e regular seletivamente a passagem de substâncias (CHELAKKOT et al., 2018). A perda da integridade dessas junções resulta em um aumento da permeabilidade intestinal, permitindo que antígenos luminais desencadeiem respostas imunes exacerbadas e inflamação crônica (CAMILLERI et al., 2012).

     

    Na medicina veterinária, a disfunção da barreira intestinal é um componente central na patogênese de enteropatias crônicas em cães, doença inflamatória intestinal (DII) e alergias alimentares (JERGENS; SIMPSON, 2012). A inflamação persistente altera a expressão das proteínas das junções apertadas, criando um ciclo vicioso de má absorção e sensibilidade antigênica (ANTONI et al., 2014). Portanto, estratégias que visem a restauração da integridade epitelial e a modulação da microbiota são fundamentais para o manejo clínico desses pacientes.

     

    2.3 Caldo de Ossos: Composição Nutricional

    O caldo de ossos é obtido através do cozimento lento e prolongado de ossos, cartilagens e tecidos conjuntivos, geralmente em meio levemente acidificado para facilitar a desmineralização e a extração proteica. Este processo libera uma matriz complexa de nutrientes, incluindo colágeno hidrolisado, gelatina, aminoácidos (glicina, prolina, hidroxiprolina, arginina e glutamina), minerais essenciais e glicosaminoglicanos, como a condroitina e o ácido hialurônico. A revisão conduzida por ALCOCK et al. (2019) confirmou que o caldo de ossos é uma fonte robusta de nutrientes, fornecendo até 92% dos aminoácidos necessários para o suporte dos tecidos conjuntivos densos.

     

    Diferente de suplementos de colágeno isolados, o caldo de ossos oferece um perfil sinérgico de compostos bioativos. A presença de glutamina, por exemplo, é vital para o metabolismo dos enterócitos, enquanto a glicina atua como um precursor da glutationa, o principal antioxidante intracelular. Estudos de biodisponibilidade demonstram que a ingestão de proteínas de colágeno resulta em aumentos significativos nas concentrações plasmáticas de aminoácidos chaves, sustentando a tese de que o caldo de ossos é um veículo eficaz para a entrega desses nutrientes ao organismo (ALCOCK et al., 2019).

     

    3. EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS

    3.1 Estudos com Caldo de Ossos e Derivados em Modelos Animais

    3.1.1 Nanopartículas da Sopa de Osso Suíno na Colite

    Um estudo relevante publicado no periódico Frontiers in Nutrition (2022) investigou o efeito de nanopartículas isoladas de sopa de osso suíno (BSNPs) em camundongos com colite induzida por dextrano sulfato de sódio (DSS). Os pesquisadores observaram que essas nanopartículas possuem atividade antioxidante intrínseca e são capazes de restaurar a barreira intestinal em linhagens celulares Caco-2. Os resultados in vivo demonstraram que a administração das BSNPs melhorou significativamente a diversidade microbiana, aumentando a abundância de gêneros benéficos como Muribaculaceae e Alistipes, enquanto reduziu a presença de patógenos como Helicobacter. Este estudo sugere que os componentes do caldo de ossos atuam não apenas como nutrientes, mas como moduladores da microbiota e da inflamação intestinal.

     
    3.1.2 Gelatina vs Prolil-Hidroxiprolina e Glicina na Colite Experimental

    ZHU et al. (2018) compararam os efeitos da gelatina e de seus principais produtos de degradação, o dipeptídeo prolil-hidroxiprolina e o aminoácido glicina, em um modelo de colite experimental. A pesquisa revelou que tanto a gelatina quanto seus componentes isolados foram capazes de atenuar a inflamação e melhorar a integridade da barreira intestinal. Notavelmente, a prolil-hidroxiprolina apresentou efeitos comparáveis aos da gelatina íntegra, sugerindo que os dipeptídeos contendo prolina e hidroxiprolina são os mediadores ativos responsáveis pelos benefícios gastrointestinais observados após a ingestão de colágeno.

     
    3.1.3 Peptídeos de Colágeno da Pele de Pollock do Alasca na Barreira Intestinal

    Pesquisas publicadas na Marine Drugs (2019) identificaram peptídeos bioativos específicos derivados do colágeno marinho que exercem proteção direta sobre a barreira intestinal. O mecanismo identificado envolve a modulação positiva das proteínas das junções apertadas em células epiteliais. Estes achados reforçam a evidência de que peptídeos específicos de colágeno, presentes em caldos e hidrolisados, possuem a capacidade de melhorar a função de barreira epitelial através da sinalização celular e reforço estrutural das conexões intercelulares.

     

    3.2 Colágeno Hidrolisado e Peptídeos Bioativos

    A digestão e absorção do colágeno têm sido alvo de estudos avançados, como o publicado na Collagen and Leather(2026), que analisou as características de absorção de géis de colágeno. O estudo demonstrou que a degradação gástrica progressiva é essencial para a liberação de peptídeos de baixo peso molecular (<1000 Da), que apresentam maior biodisponibilidade intestinal. A ingestão de colágeno está diretamente correlacionada ao aumento dos níveis séricos de hidroxiprolina, confirmando que os componentes do caldo de ossos são efetivamente absorvidos e disponibilizados para os tecidos-alvo.

     

    3.3 Evidências Emergentes em Medicina Veterinária

    3.3.1 Saúde Intestinal em Cães e Gatos

    Estudos recentes têm explorado a fermentabilidade de substratos de origem animal no trato gastrointestinal de pequenos animais. BUTOWSKI et al. (2024) demonstraram, através de modelos de digestão in vitro com inóculo fecal canino e felino, que substratos derivados de tecidos animais são eficientemente utilizados pela microbiota. Além disso, pesquisas sobre suplementos prebióticos e pós-bióticos em cães saudáveis (2026) indicam que a modulação da barreira intestinal através de nutrientes específicos pode reduzir marcadores de inflamação sistêmica. SALAVATI et al. (2024) reforçam que o uso de bióticos e nutracêuticos é uma tendência crescente e baseada em evidências para o manejo de distúrbios gastrointestinais em animais de companhia.

     
    3.3.2 Aplicações Clínicas na Nutrologia Veterinária

    Na prática clínica, o caldo de ossos tem sido incorporado em dietas caseiras e protocolos de suporte nutricional para cães e gatos em convalescença. Sua alta palatabilidade auxilia na ingestão hídrica e calórica em animais inapetentes. Além do suporte intestinal, o caldo de ossos fornece aminoácidos condroprotetores, como glicina e prolina, que auxiliam na reparação articular em animais com displasia ou artrite. No entanto, a formulação deve considerar o teor de gordura e o equilíbrio mineral para evitar excessos, especialmente em pacientes com pancreatite ou restrições minerais específicas.

     

    4. DISCUSSÃO

    A correlação entre os achados em modelos murinos e a aplicação clínica em cães e gatos sugere que o caldo de ossos atua como um agente multifatorial na saúde intestinal. A glicina, em particular, desempenha um papel subestimado, sendo essencial para a síntese de glutationa, que protege os enterócitos contra o estresse oxidativo, e para a modulação de citocinas inflamatórias. A sinergia entre a prolina e a hidroxiprolina garante a integridade da matriz extracelular que sustenta as vilosidades intestinais, enquanto a glutamina fornece o combustível metabólico necessário para a rápida renovação celular do epitélio.

     

    Embora as evidências sejam promissoras, é necessário cautela ao extrapolar dados de estudos in vitro ou de roedores para a clínica veterinária. A maioria das evidências atuais em cães e gatos provém de estudos sobre componentes isolados (como a glutamina ou colágeno hidrolisado) ou de observações clínicas em nutrologia. Há uma necessidade premente de ensaios clínicos randomizados que utilizem o caldo de ossos como intervenção primária para quantificar seu impacto na permeabilidade intestinal e na composição da microbiota em populações veterinárias específicas.

     

    5. CONCLUSÃO

    O caldo de ossos representa uma fonte natural, segura e altamente biodisponível de aminoácidos e peptídeos essenciais para a manutenção da integridade intestinal. As evidências científicas revisadas demonstram que seus componentes atuam na restauração das junções apertadas, na modulação da microbiota e na redução da inflamação da mucosa. Na medicina veterinária, o caldo de ossos emerge como uma ferramenta valiosa na nutrologia clínica, oferecendo suporte terapêutico para animais com enteropatias crônicas e outras condições associadas à disfunção da barreira intestinal. Futuras pesquisas devem focar na padronização de protocolos de uso e na avaliação clínica direta dos benefícios em cães e gatos.

     

     

    REFERÊNCIAS

    ALCOCK, R. D. et al. Bone Broth as a Rich Source of Nutrients: A Review of the Evidence and a Call for Further Research. ACSM's Health & Fitness Journal, v. 23, n. 1, p. 20-25, 2019.

     

    ALCOCK, R. D. et al. Plasma Amino Acid Concentrations After the Ingestion of Dairy and Collagen Proteins, in Healthy Active Males. Frontiers in Nutrition, v. 6, art. 163, 2019.

     

    ANTONI, L. et al. Intestinal barrier in inflammatory bowel disease. World Journal of Gastroenterology, v. 20, n. 5, p. 1165-1179, 2014.

     

    BUTOWSKI, C. F. et al. In vitro digestion and fermentation of animal-derived fermentable substrates using canine and feline faecal inoculum. Journal of Applied Animal Nutrition, 2024.

     

    CAMILLERI, M. et al. Intestinal barrier function in health and gastrointestinal disease. Neurogastroenterology & Motility, v. 24, n. 6, p. 503-512, 2012.

     

    CHELAKKOT, C.; GHIM, J.; RYU, S. H. Mechanisms regulating intestinal barrier integrity and its pathological implications. Experimental & Molecular Medicine, v. 50, art. 103, 2018.

     

    EFFECT of transglutaminase cross-linking on the in vivo digestion and absorption characteristics of collagen gel. Collagen and Leather, 2026.

     

    EFFECTS of a Novel Prebiotic and Postbiotic Dietary Supplement on Gut Microbiota, Intestinal Barrier Markers, and Inflammation in Healthy Dogs. Veterinary Sciences, v. 13, n. 5, art. 417, 2026.

     

    GUT Health Optimization in Canines and Felines: Exploring the Role of Probiotics and Nutraceuticals. Pets, v. 1, n. 2, art. 11, 2024.

     

    IDENTIFICATION and Structure–Activity Relationship of Intestinal Epithelial Barrier Function Protective Collagen Peptides from Alaska Pollock Skin. Marine Drugs, v. 17, n. 8, art. 450, 2019.

     

    JERGENS, A. E.; SIMPSON, K. W. Inflammatory bowel disease in dogs and cats. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 42, n. 3, 2012.

     

    MARTINEZ-AUGUSTIN, O. et al. Food derived bioactive peptides and intestinal barrier function. International Journal of Molecular Sciences, v. 15, n. 12, p. 22857-22873, 2014.

     

    NANOPARTICLES Isolated From Porcine Bone Soup Ameliorated Dextran Sulfate Sodium-Induced Colitis and Regulated Gut Microbiota in Mice. Frontiers in Nutrition, v. 9, art. 9001899, 2022.

     

    RICARD-BLUM, S. The collagen family. Cold Spring Harbor Perspectives in Biology, v. 3, n. 1, a004978, 2011.

     

    SALAVATI, S. et al. Evidence-based use of biotics in the management of gastrointestinal disorders in dogs and cats. Edinburgh Research Explorer, 2024.

     

    SHOULDERS, M. D.; RAINES, R. T. Collagen structure and stability. Annual Review of Biochemistry, v. 78, p. 929-958, 2009.

     

    SILVA, T. H. et al. Marine origin collagens and its potential applications. Marine Drugs, v. 12, n. 12, p. 5881-5901, 2014.

     

    ZHU, C. et al. Gelatin versus its two major degradation products, prolyl-hydroxyproline and glycine, as supportive therapy in experimental colitis in mice. Food Science & Nutrition, v. 6, n. 4, p. 1023-1031, 2018.

     
     
     
     
     
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  • O Papel da Glutamina na Manutenção da Integridade da Barreira Intestinal em Cães e Gatos: Uma Revisão Crítica da Evidência

    O Papel da Glutamina na Manutenção da Integridade da Barreira Intestinal em Cães e Gatos: Uma Revisão Crítica da Evidência

    Dr.Cláudio Amichetti Júnior¹,² Gabriel Amichetti³

    ¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025, CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos e cães tipo bull, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar. ² Afiliação Institucional Petclube, São Paulo, Brasil ³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD Vila Zelina SP

    Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]

    Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.

    Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal


    Resumo

    A integridade da barreira intestinal é fundamental para a saúde de mamíferos, incluindo cães e gatos. A disfunção dessa barreira, conhecida como "intestino permeável" ou "leaky gut", está implicada na patogênese de diversas doenças gastrointestinais e sistêmicas. A glutamina, um aminoácido condicionalmente essencial, desempenha um papel crucial na manutenção da morfologia e função dos enterócitos, bem como na regulação das junções estreitas. Este artigo revisa o fundamento científico da glutamina na modulação da permeabilidade intestinal e analisa a evidência atual sobre sua aplicação em cães e gatos. Embora estudos experimentais em modelos animais e revisões em humanos demonstrem consistentemente os benefícios da glutamina na integridade da mucosa intestinal, a literatura veterinária específica para cães e gatos, particularmente com medições diretas de permeabilidade intestinal, ainda é limitada. São discutidas as lacunas no conhecimento e a necessidade de pesquisas futuras para embasar a indicação clínica rotineira da glutamina no manejo do "leaky gut" em animais de companhia.

    Palavras-chave: Glutamina, intestino permeável, leaky gut, barreira intestinal, cães, gatos, medicina veterinária.


    1. Introdução

    A saúde gastrointestinal é um pilar essencial para o bem-estar e a homeostase em mamíferos, incluindo os animais de companhia, cães e gatos. A barreira intestinal atua como uma interface seletiva entre o lúmen intestinal e o ambiente interno, permitindo a absorção de nutrientes vitais enquanto impede a translocação de toxinas, antígenos e microrganismos patogênicos para a circulação sistêmica [1,2]. Esta barreira é composta por uma camada única de células epiteliais interconectadas por complexos de junções estreitas (do inglês, tight junctions), que regulam a permeabilidade paracelular [3].

    A disfunção dessa barreira, caracterizada por um aumento da permeabilidade intestinal, comumente referida como "intestino permeável" ou "leaky gut", é uma condição reconhecida na medicina humana e veterinária [4]. Ela está associada a uma vasta gama de patologias, como doenças inflamatórias intestinais, alergias alimentares, síndromes de má absorção, sepse e outras condições sistêmicas, ao permitir que substâncias indesejadas penetrem no organismo e ativem respostas inflamatórias [5,6].

    A glutamina (L-glutamina) é o aminoácido livre mais abundante no plasma e nos tecidos musculares, sendo considerado condicionalmente essencial, especialmente em situações de estresse metabólico ou doença [7]. Para os enterócitos, as células que revestem o intestino, a glutamina não é apenas uma fonte energética preferencial, mas também desempenha um papel crítico na proliferação celular, diferenciação e na manutenção da estrutura e função das junções estreitas [2,3]. Em modelos experimentais, a suplementação de glutamina tem demonstrado potencial para mitigar o aumento da permeabilidade intestinal em condições de estresse metabólico ou lesão [8].

    No cenário da medicina veterinária, a relevância do "leaky gut" em cães e gatos é um tema emergente, particularmente em condições como enteropatias agudas e crônicas, e em períodos de estresse fisiológico ou cirúrgico. No entanto, a translação das evidências obtidas em modelos experimentais e em outras espécies para a prática clínica em animais de companhia ainda requer uma análise aprofundada. Este artigo tem como objetivo consolidar o conhecimento sobre o fundamento científico da glutamina na manutenção da barreira intestinal e realizar uma revisão crítica das evidências disponíveis sobre sua eficácia e aplicabilidade em cães e gatos, visando elucidar seu potencial terapêutico e as limitações do conhecimento atual para a indicação no tratamento do "leaky gut" em animais de companhia.


    2. Fundamento Científico da Glutamina na Integridade da Barreira Intestinal

    A glutamina é um aminoácido multifuncional com papel central na manutenção da homeostase intestinal. É o principal substrato energético para enterócitos, células do sistema imunológico (como linfócitos e macrófagos) e colonócitos, fornecendo a energia necessária para a rápida proliferação e diferenciação celular que caracterizam o epitélio intestinal em constante renovação [2,7].

    A integridade da barreira intestinal depende criticamente da manutenção das junções estreitas, complexos proteicos que selam as células epiteliais adjacentes, regulando o transporte paracelular. A glutamina influencia diretamente a expressão e a montagem de proteínas de junção, como ocludina, claudinas e proteínas ZO (Zonula Occludens), que são componentes essenciais para a função de barreira [3,9]. Estudos experimentais têm demonstrado que a suplementação de glutamina pode estabilizar e até mesmo restaurar a função de barreira intestinal comprometida [8,10]. Em situações de estresse, como jejum prolongado, sepse, inflamação ou quimioterapia, a demanda por glutamina pelos enterócitos aumenta significativamente, levando a um estado de deficiência que pode comprometer a barreira intestinal, resultando em atrofia das vilosidades e aumento da permeabilidade [9]. A suplementação, nesses contextos, busca suprir essa demanda, protegendo a mucosa e suas funções.


    3. Estudos Diretos em Cães

    A pesquisa sobre o uso de glutamina em cães tem focado principalmente em condições de doença gastrointestinal, visando o suporte da função intestinal.

    Um estudo de dissertação avaliou os "Efeitos da suplementação com glutamina e glutamato em cães com enterite hemorrágica" [11]. Embora este estudo tenha observado variáveis hematológicas e bioquímicas em cães suplementados por 14 dias, os detalhes específicos sobre a medição direta da permeabilidade intestinal ("leaky gut") não foram amplamente relatados. No entanto, a melhora em parâmetros associados à saúde geral e ao suporte intestinal sugere um papel benéfico da glutamina na recuperação de enterócitos e na modulação da resposta inflamatória, indiretamente apoiando a integridade intestinal.

    Outro estudo, em cães com gastroenterite hemorrágica causada por parvovirose, investigou a nutrição enteral precoce contendo glutamina [12]. Os resultados não demonstraram um impacto claro na mortalidade dos animais. Contudo, é importante notar que a ausência de um efeito na mortalidade não invalida outros benefícios potenciais da glutamina, como a manutenção da integridade da mucosa ou a redução de complicações secundárias, que podem não ser diretamente refletidos na taxa de sobrevivência em uma doença de alta gravidade como a parvovirose. A interpretação de estudos como este deve considerar a complexidade da patologia e os múltiplos fatores que influenciam o prognóstico, além da dose, formulação e via de administração da glutamina.

    Apesar destes achados promissores, a limitação mais significativa nos estudos em cães é a escassez de avaliações diretas e padronizadas da permeabilidade intestinal (por exemplo, através de testes de proporção de açúcares como lactulose/manitol) para quantificar o efeito da glutamina na condição de "leaky gut" [13]. A maioria dos estudos foca em desfechos clínicos gerais ou marcadores indiretos de inflamação e recuperação.


    4. Estudos em Gatos

    A literatura específica sobre o uso de glutamina e sua relação com o "leaky gut" em gatos é notavelmente escassa. Embora a saúde intestinal felina seja um campo de crescente interesse, a pesquisa tem se concentrado mais em aspectos da microbiota, dietas e doenças inflamatórias crônicas, sem um foco aprofundado na glutamina isoladamente ou em medições diretas de permeabilidade intestinal em felinos [14].

    A ausência de estudos específicos não implica necessariamente que a glutamina seja ineficaz em gatos, mas destaca uma lacuna significativa no conhecimento. As particularidades metabólicas dos felinos, incluindo o metabolismo de aminoácidos, podem influenciar a resposta à suplementação de glutamina, tornando estudos dedicados a esta espécie de suma importância. A extrapolação de dados de cães ou outros modelos animais para gatos deve ser feita com cautela.


    5. Pesquisa Experimental em Modelos Animais

    Embora não sejam diretamente em cães ou gatos, estudos experimentais em outras espécies fornecem uma base mecanicista robusta para o papel da glutamina na integridade intestinal.

    Um estudo em camundongos demonstrou que a suplementação de glutamina foi capaz de reduzir a permeabilidade intestinal induzida experimentalmente e preservar a integridade da mucosa gástrica [8]. Resultados similares foram observados em outros modelos experimentais com roedores, onde a glutamina auxiliou na manutenção e na restauração das proteínas de junção celular, cruciais para uma barreira intestinal saudável [9,10].

    Estes estudos, embora não diretamente aplicáveis à clínica veterinária de pequenos animais sem validação específica, são de fundamental importância. Eles estabelecem a plausibilidade biológica para o mecanismo de ação da glutamina, sugerindo que os benefícios observados em modelos de estresse intestinal podem ser extrapolados, ao menos em princípio, para outras espécies, incluindo cães e gatos, devido à conservação evolutiva dos mecanismos fisiológicos básicos do intestino.


    6. Revisões e Artigos de Fundamento

    Diversas revisões científicas, abrangendo estudos em humanos e modelos animais, reforçam consistentemente a importância da glutamina em condições de estresse intestinal. Estas revisões destacam que a glutamina é vital para:

    • Proliferação e Sobrevivência de Enterócitos: A glutamina estimula o crescimento e a renovação celular, essenciais para a reparação de danos na mucosa intestinal [2,7].
    • Regulação da Função de Barreira: Modula a expressão e a função das proteínas de junção estreita, que são críticas para a permeabilidade seletiva da barreira intestinal em condições de lesão ou estresse [3,9].
    • Suporte Imunológico Local: Atua como substrato energético para células imunes, contribuindo para a modulação da resposta inflamatória local e sistêmica [7].

    A deficiência de glutamina tem sido consistentemente associada à atrofia das vilosidades intestinais e ao aumento da permeabilidade, enquanto a suplementação tem demonstrado capacidade de melhorar essas condições em diversos modelos experimentais [2,9]. Tais achados, embora predominantemente de pesquisas em humanos e roedores, fornecem um forte embasamento teórico para a potencial aplicabilidade em cães e gatos.


    7. Discussão

    A análise da literatura sobre o uso da glutamina para o suporte da integridade intestinal em cães e gatos revela um cenário de grande potencial terapêutico, mas com lacunas significativas na evidência clínica direta. O fundamento científico para a ação da glutamina na manutenção e reparo da barreira intestinal é robusto, sustentado por uma vasta quantidade de estudos in vitro e in vivo em modelos experimentais [8,9,10]. A glutamina é inegavelmente um aminoácido chave para o metabolismo e função dos enterócitos, sendo essencial para a biossíntese de nucleotídeos, proteínas e para a homeostase energética das células intestinais [2,7]. Sua capacidade de modular as junções estreitas e de promover a proliferação celular a torna um candidato ideal para o manejo de condições associadas ao "leaky gut".

    A translação desses achados para a clínica veterinária de cães e gatos, entretanto, ainda se encontra em estágios iniciais. Os estudos em cães com enterite hemorrágica [11] e parvovirose [12] fornecem indícios de benefícios gerais no suporte intestinal e na recuperação. Contudo, a ausência de medições diretas da permeabilidade intestinal em muitos desses estudos representa uma limitação crucial. A melhoria de parâmetros hematológicos, bioquímicos ou clínicos gerais, embora indicativa de um efeito positivo, não permite correlacionar diretamente a suplementação de glutamina com a reversão ou atenuação do "leaky gut" em cães. A complexidade de doenças como a parvovirose, com múltiplas causas de mortalidade e morbidade, também pode mascarar os benefícios específicos da glutamina na integridade da barreira.

    A escassez de literatura em felinos sobre a glutamina e o "leaky gut" é uma lacuna ainda mais proeminente [14]. Dada a prevalência de doenças inflamatórias intestinais e outras gastrenteropatias em gatos, a investigação do papel da glutamina nesta espécie é uma área de pesquisa urgente. As particularidades metabólicas dos felinos, como sua menor capacidade de sintetizar alguns aminoácidos ou a dependência de certas vias metabólicas, podem influenciar a biodisponibilidade e a eficácia da glutamina, exigindo estudos dedicados.

    Apesar das limitações nos estudos clínicos veterinários, a plausibilidade biológica, corroborada por extensas pesquisas em modelos experimentais [8,9,10] e revisões em humanos [2,3,7], sugere fortemente que a glutamina pode ser um adjuvante terapêutico valioso. Em condições de estresse metabólico, como doenças críticas, cirurgias extensas ou jejum prolongado, a demanda endógena por glutamina pode exceder a capacidade de síntese do organismo, caracterizando-a como condicionalmente essencial. Nesses cenários, a suplementação exógena pode ser fundamental para prevenir o comprometimento da barreira intestinal.

    Portanto, enquanto a glutamina é um nutriente promissor para o suporte intestinal em cães e gatos, sua indicação rotineira para o tratamento direto do "leaky gut" ainda carece de validação em ensaios clínicos robustos. A necessidade de pesquisas futuras é evidente. Estas devem incluir:

    1. Estudos clínicos randomizados e controlados em cães e gatos, com avaliação de desfechos clínicos e, crucialmente, de biomarcadores diretos da permeabilidade intestinal (por exemplo, testes de permeabilidade usando dissacarídeos indigeríveis, ou marcadores de junções estreitas nas fezes ou biópsias).
    2. Padronização de doses, formulações e vias de administração para cada espécie, considerando as diferenças metabólicas.
    3. Investigação da eficácia da glutamina em diferentes condições clínicas (e.g., enteropatias inflamatórias, alergias alimentares, insuficiência pancreática exócrina) que podem estar associadas ao "leaky gut".

    8. Conclusão

    A glutamina possui um papel fisiológico bem estabelecido na manutenção da integridade da mucosa intestinal e demonstrou a capacidade de reduzir a permeabilidade intestinal ("leaky gut") em modelos experimentais de estresse e dano. Em cães e gatos, embora existam indicações de benefícios inespecíficos em condições gastrointestinais, as evidências científicas clínicas que avaliam diretamente o impacto da suplementação de glutamina na permeabilidade intestinal são limitadas. Os dados veterinários disponíveis sugerem que a glutamina é um nutriente valioso para o suporte da saúde intestinal; entretanto, um consenso clínico forte para sua indicação rotineira no manejo do "leaky gut" em animais de companhia ainda não foi estabelecido. Pesquisas futuras, com foco em ensaios clínicos controlados e na medição direta de biomarcadores de permeabilidade, são essenciais para solidificar seu papel terapêutico na medicina veterinária.


    Conflito de Interesses

    O autor, Claudio Amichetti Junior, é médico veterinário e engenheiro agrônomo associado ao Petclube. Quaisquer interesses financeiros ou profissionais relacionados ao Petclube ou a produtos de saúde animal discutidos neste manuscrito foram declarados e não influenciaram a integridade ou a objetividade dos resultados apresentados.


    Agradecimentos

    O autor expressa sua gratidão ao Petclube revista científica pelo incentivo à pesquisa e à disseminação do conhecimento em medicina veterinária, e pelo apoio indireto na disponibilização de recursos e informações que contribuíram para a concepção deste trabalho.


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