Revista Científica Medico Veterinária Petclube Cães Gatos - Catarata;

Catarata;

Catarata;

  • Excesso de carboidratos na alimentação de cães e gatos, inflamação metabólica e potenciais implicações na formação de catarata

    Excesso de carboidratos na alimentação de cães e gatos, inflamação metabólica e potenciais implicações na formação de catarata

    Trabalho científico apresentado como artigo de revisão na área de Medicina Veterinária, com ênfase em nutrição de pequenos animais.

    Autores:

    Cláudio Amichetti Júnior¹,²

    Gabriel Amichetti³

    ¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VTMAPA  00129461/2025, CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
    ² [Afiliação Institucional  Petclube, São Paulo, Brasil]
    ³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – [clínica 3RD Vila Zelina SP]

    Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]

    Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.

    Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal


    Resumo

    A catarata é uma das principais causas de perda visual em cães e gatos, apresentando etiologia multifatorial, com destaque para fatores genéticos, inflamatórios e metabólicos. O diabetes mellitus é amplamente reconhecido como um dos principais fatores de risco para catarata, especialmente em cães, sendo a hiperglicemia crônica o principal mecanismo fisiopatológico envolvido. Nas últimas décadas, a alimentação de pets passou a ser predominantemente baseada em dietas industrializadas com elevado teor de carboidratos, o que representa um distanciamento do padrão alimentar evolutivo dessas espécies. Evidências crescentes indicam que o consumo excessivo de carboidratos pode contribuir para obesidade, resistência à insulina, inflamação sistêmica de baixo grau e estresse oxidativo, condições intimamente relacionadas ao desenvolvimento de alterações oculares degenerativas. Embora não existam estudos que comprovem uma relação causal direta entre excesso de carboidratos e catarata em cães e gatos, os mecanismos metabólicos envolvidos sugerem uma associação indireta plausível. Este artigo revisa a literatura disponível sobre metabolismo de carboidratos em pets, inflamação metabólica, diabetes mellitus e catarata, discutindo implicações clínicas e estratégias nutricionais preventivas.

    Palavras-chave: Catarata; Carboidratos; Inflamação metabólica; Diabetes mellitus; Nutrição veterinária.


    Abstract

    Cataract is one of the leading causes of visual impairment in dogs and cats and presents a multifactorial etiology, including genetic, inflammatory, traumatic, senile, and metabolic factors. Among metabolic disorders, diabetes mellitus is widely recognized as a major risk factor, particularly in dogs, in which persistent hyperglycemia frequently leads to rapid lens opacification. In recent decades, the widespread use of industrialized pet foods with high carbohydrate content has represented a significant deviation from the evolutionary nutritional physiology of domestic carnivores, especially cats.

    Excessive and chronic carbohydrate intake has been associated with obesity, insulin resistance, low-grade systemic inflammation, and increased oxidative stress. These metabolic disturbances are closely linked to the pathophysiology of diabetic cataracts and may indirectly contribute to lens degeneration even in the absence of overt diabetes mellitus. Recurrent postprandial hyperglycemia, hyperinsulinemia, microbiota dysbiosis, and inflammatory cytokine release create a systemic environment that compromises metabolic homeostasis and increases oxidative damage to long-lived lens proteins.

    Although there is currently no direct evidence establishing excessive dietary carbohydrates as an isolated cause of cataracts in dogs and cats, the available data support a biologically plausible indirect association mediated by metabolic and inflammatory pathways. Nutritional strategies that emphasize high-quality animal-based proteins, biologically appropriate healthy fats, and minimal inclusion of low–glycemic index carbohydrates may restore metabolic homeostasis, reduce systemic inflammation and oxidative stress, improve insulin sensitivity, and consequently lower the risk of associated pathologies, including cataract development.

    Veterinarians play a critical role in educating pet owners about the metabolic risks associated with inappropriate modern feeding practices and in promoting dietary choices that support long-term metabolic health, ocular integrity, and longevity in domestic carnivores.

    Keywords: Cataract; Carbohydrates; Metabolic inflammation; Insulin resistance; Veterinary nutrition.


    1. Introdução

    A catarata é caracterizada pela opacificação parcial ou total do cristalino, levando à diminuição progressiva da acuidade visual e, em estágios avançados, à cegueira. Em medicina veterinária, trata-se de uma condição frequente, especialmente em cães, podendo ocorrer também em gatos, embora com menor incidência. Sua etiologia é multifatorial, incluindo causas hereditárias, traumáticas, inflamatórias, infecciosas, senis e metabólicas (GELATT; GELATT, 2011).

    Entre os fatores metabólicos, o diabetes mellitus destaca-se como uma das principais causas de catarata, sobretudo em cães. Estima-se que mais de 50% dos cães diabéticos desenvolvam catarata bilateral em curto período após o diagnóstico, em decorrência da hiperglicemia persistente (BEAM et al., 1999). O mecanismo fisiopatológico envolve alterações osmóticas e bioquímicas no cristalino, associadas à via do poliol e à glicação não enzimática de proteínas.

    Paralelamente, observa-se uma mudança significativa no padrão alimentar de cães e gatos nas últimas décadas. A ampla utilização de dietas extrusadas comerciais, frequentemente ricas em carboidratos digestíveis, representa um afastamento da dieta ancestral dessas espécies. Os gatos, carnívoros obrigatórios, apresentam capacidade limitada de adaptação metabólica a dietas ricas em carboidratos, enquanto os cães, embora mais flexíveis, também não evoluíram para utilizar carboidratos como principal fonte energética (ZORAN, 2002; LAFLAMME et al., 2014).

    O consumo excessivo e crônico de carboidratos tem sido associado a ganho de peso, obesidade, resistência à insulina e inflamação sistêmica de baixo grau. Esses processos estão diretamente relacionados ao desenvolvimento do diabetes mellitus e ao aumento do estresse oxidativo, fatores reconhecidamente envolvidos na fisiopatologia da catarata. Em humanos, estudos epidemiológicos demonstram associação entre dietas de alto índice glicêmico e maior risco de catarata relacionada à idade (CHIU et al., 2023).

    Diante desse contexto, torna-se relevante discutir o papel indireto da nutrição rica em carboidratos na saúde ocular de cães e gatos, considerando os mecanismos metabólicos e inflamatórios envolvidos. Este artigo tem como objetivo revisar a literatura científica disponível e discutir a plausibilidade biológica da associação entre excesso de carboidratos na dieta, inflamação metabólica e formação de catarata em pets.


    2. Metabolismo de carboidratos em cães e gatos

    Os gatos apresentam atividade reduzida de enzimas relacionadas ao metabolismo de carboidratos, como a glucocinase hepática, além de uma secreção insulínica menos responsiva a cargas glicídicas elevadas (ZORAN, 2002). Dessa forma, dietas ricas em carboidratos podem resultar em hiperglicemia pós-prandial prolongada.

    Os cães, embora classificados como onívoros oportunistas, mantêm uma fisiologia predominantemente adaptada ao consumo de proteínas e gorduras. O excesso de carboidratos, especialmente os de alto índice glicêmico, pode promover flutuações glicêmicas significativas, favorecendo resistência à insulina ao longo do tempo (LAFERRE, 2011).


    3. Carboidratos, obesidade e inflamação metabólica

    Dietas com alta densidade energética e elevado teor de carboidratos estão associadas ao desenvolvimento de obesidade em cães e gatos. A obesidade é reconhecida como um estado de inflamação crônica de baixo grau, caracterizado pela liberação contínua de citocinas pró-inflamatórias, como TNF-α, IL-6 e IL-1β (GERMAN, 2006).

    Além disso, o excesso de carboidratos pode alterar a microbiota intestinal, promovendo disbiose, aumento da permeabilidade intestinal e endotoxemia metabólica. Esses fatores contribuem para resistência à insulina e aumento do estresse oxidativo sistêmico, criando um ambiente metabólico desfavorável à manutenção da homeostase tecidual.


    4. Diabetes mellitus e catarata

    A catarata diabética é uma das manifestações mais bem documentadas do diabetes mellitus em cães. A hiperglicemia persistente leva à conversão excessiva de glicose em sorbitol dentro das fibras do cristalino, causando acúmulo osmótico, edema celular, ruptura das fibras e opacificação do cristalino (KADOR et al., 1985).

    Além disso, a glicação avançada de proteínas cristalinas compromete sua estrutura e função óptica. O estresse oxidativo associado agrava esse processo, reduzindo a eficiência dos mecanismos antioxidantes endógenos do cristalino.


    5. Excesso de carboidratos e catarata: uma relação indireta

    Embora não existam evidências diretas que comprovem que o excesso de carboidratos cause catarata de forma isolada, a literatura sugere uma associação indireta plausível. Dietas ricas em carboidratos podem favorecer o desenvolvimento de obesidade, resistência à insulina e diabetes mellitus, condições intimamente relacionadas à catarata.

    Além disso, a inflamação sistêmica e o estresse oxidativo decorrentes de desequilíbrios metabólicos podem comprometer a integridade do cristalino ao longo do tempo, mesmo na ausência de diabetes clínico estabelecido.


    6.Discussão

     
    Inadequação Fisiológica e Carga Glicêmica

    A adaptação de cães e gatos ao consumo de carne levou ao desenvolvimento de um trato gastrointestinal curto e de um metabolismo que prioriza a gliconeogênese a partir de aminoácidos e glicerol, com menor capacidade enzimática para a digestão de grandes quantidades de carboidratos. Dietas ricas em carboidratos processados resultam em uma rápida absorção de glicose, levando a picos pós-prandiais de glicemia e insulinemia. Este padrão de sobrecarga glicêmica crônica difere drasticamente do que seria encontrado em uma dieta carnívora natural, que fornece um suprimento energético mais estável e gradual (Amichetti, 2020)

    Carboidratos, Inflamação e Estresse Oxidativo

    A exposição contínua a altos níveis de glicose e insulina é um potente gatilho para processos inflamatórios. A glicose em excesso pode se ligar a proteínas e lipídios em um processo não enzimático conhecido como glicação, formandoProdutos Finais de Glicação Avançada (AGEs). Os AGEs são altamente pró-inflamatórios e pró-oxidantes, ativando receptores específicos (RAGEs) que desencadeiam a expressão de citocinas inflamatórias, como TNF-α, IL-1β e IL-6, por meio de vias como a do fator nuclear kappa B (NF-κB).Paralelamente, o metabolismo oxidativo excessivo da glicose pode gerar espécies reativas de oxigênio (EROs), contribuindo para oestresse oxidativo. A inflamação e o estresse oxidativo são interligados e criam um ciclo vicioso que danifica células e tecidos, comprometendo a integridade funcional de diversos órgãos, incluindo o cristalino ocular.

    Resistência à Insulina e Implicações Sistêmicas

    A resposta insulinêmica crônica, induzida por dietas de alta carga glicêmica, pode levar ao desenvolvimento de resistência à insulina nos tecidos periféricos. As células tornam-se menos responsivas à ação da insulina, exigindo que o pâncreas produza quantidades ainda maiores do hormônio para manter a glicemia em níveis aceitáveis. Este estado de hiperinsulinemia compensatória e resistência à insulina é um precursor conhecido para o diabetes mellitus tipo 2 e é um fator chave na patogênese de uma série de outras doenças metabólicas.

    A resistência à insulina amplifica o estado inflamatório e oxidativo, contribuindo para a dislipidemia, hipertensão e doenças cardiovasculares, exacerbando o ambiente sistêmico desfavorável.

     A Conexão Indireta com a Catarata: Uma Cascata de Eventos

    A catarata, caracterizada pela opacificação do cristalino, é multifatorial. Em carnívoros, especialmente em cães, o diabetes mellitus é um fator de risco primário para a catarata, devido à via do sorbitol. No entanto, mesmo na ausência de diabetes manifesto, o ciclo de carboidratos em excesso, inflamação e resistência à insulina pode promover a catarata através de uma via indireta complexa.

    A Figura 1 ilustra essa cascata:

    Figura 1: Representação esquemática da via indireta entre o consumo excessivo de carboidratos e a progressão da catarata

    [ Ingestão Excessiva de Carboidratos Refinados ]
            ↓
    [ Aumento da Glicemia e Resposta Insulinêmica ]
            ↓
    [ Glicação Avançada (AGEs) & Estresse Oxidativo ]
            ↓
    [ Ativação de Vias Inflamatórias (Ex: NF-κB) ]
            ↓
    [ Produção de Citocinas Pró-inflamatórias Sistêmicas ]
            ↓
    [ Resistência à Insulina (Tecidos Periféricos) ]
            ↓
    [ Alterações Metabólicas Oculares ]
            ↓
    [ Dano às Células do Cristalino & Fibrose ]
            ↓
    Neste modelo, o ambiente sistêmico de inflamação e estresse oxidativo, junto com as disfunções metabólicas decorrentes da resistência à insulina, afeta diretamente as delicadas células do cristalino. Os AGEs podem acumular-se nas proteínas do cristalino, alterando sua estrutura e função. O estresse oxidativo direto no cristalino, somado à resposta inflamatória, compromete os mecanismos antioxidantes naturais do olho, levando à agregação de proteínas e à perda de transparência.

    A resistência à insulina pode também alterar o transporte de nutrientes para o cristalino e o balanço de eletrólitos, criando um ambiente desfavorável para a manutenção de sua homeostase. Assim, o excesso crônico de carboidratos, ao instigar inflamação e resistência à insulina, cria um terreno fértil para a progressão da catarata, mesmo sem os picos hiperglicêmicos extremos vistos no diabetes descompensado.

    Dieta Biologicamente Apropriada como Abordagem Preventiva

    A Tabela 1 oferece uma comparação clara entre a dieta rica em carboidratos e a dieta biologicamente apropriada, destacando os benefícios desta última na mitigação dos riscos discutidos.

     
    Característica Dieta Rica em Carboidratos Dieta Biologicamente Apropriada
    Composição Principal Grãos, amidos, açúcares, carboidratos refinados Proteínas de alta qualidade, gorduras saudáveis, fibras
    Impacto Glicêmico Alto, picos de glicose e insulina Baixo a moderado, controle glicêmico estável
    Resposta Inflamatória Potencialmente pró-inflamatória Anti-inflamatória ou neutra
    Saúde Metabólica Risco de resistência à insulina, obesidade, diabetes Melhora da sensibilidade à insulina, peso saudável
    Qualidade Nutricional Frequentemente baixa densidade de nutrientes essenciais Alta densidade de vitaminas, minerais e antioxidantes
    Impacto na Saciedade Curta, leva a consumo excessivo Longa duração, controle do apetite
     
     
    Tabela 1: Comparativo entre Dieta Rica em Carboidratos e Dieta Biologicamente Apropriada em Contexto Veterinário.
    A transição para uma dieta com maior teor de proteínas de origem animal, gorduras saudáveis e um mínimo de carboidratos com baixo índice glicêmico pode restaurar a homeostase metabólica, reduzir a inflamação sistêmica e o estresse oxidativo, melhorando a sensibilidade à insulina e, consequentemente, diminuindo o risco de patologias associadas, incluindo a catarata.

     


    7. Implicações clínicas para a medicina veterinária

    • Avaliação criteriosa da composição de carboidratos em dietas comerciais

    • Controle de peso corporal e prevenção da obesidade

    • Monitoramento glicêmico em animais predispostos

    • Uso de dietas com menor índice glicêmico

    • Suporte antioxidante e anti-inflamatório como estratégia preventiva


    8.Conclusão

    A prevalência de dietas com alto teor de carboidratos na alimentação de cães e gatos representa um desvio significativo de sua fisiologia evolutiva e está associada a um espectro de disfunções metabólicas. A cadeia de eventos que se inicia com a ingestão excessiva de carboidratos, culmina em inflamação crônica e resistência à insulina, e contribui indiretamente para a progressão da catarata, evidencia a necessidade de uma reavaliação crítica das práticas nutricionais atuais.
    A implementação de dietas biologicamente apropriadas, que mimetizam a composição da presa natural e minimizam a carga glicêmica, surge como uma estratégia fundamental para a prevenção e manejo dessas condições. Médicos-veterinários têm um papel crucial em educar os tutores sobre os riscos associados à nutrição moderna inadequada e em promover escolhas alimentares que suportem a saúde metabólica e a longevidade de seus pacientes. A compreensão profunda desses mecanismos é vital para otimizar o bem-estar e a qualidade de vida dos carnívoros domésticos.

     


    Referências (ABNT)

    BEAM, S. et al. Risk factors for diabetes mellitus in dogs. Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 214, n. 1, p. 46–51, 1999.

    CHIU, C. J. et al. Dietary glycemic index and risk of age-related cataract. American Journal of Clinical Nutrition, 2023.

    GELATT, K. N.; GELATT, J. P. Veterinary ophthalmology. 5. ed. Ames: Wiley-Blackwell, 2011.

    GERMAN, A. J. The growing problem of obesity in dogs and cats. Journal of Nutrition, v. 136, p. 1940S–1946S, 2006.

    KADOR, P. F. et al. The role of the polyol pathway in diabetic cataract formation. Investigative Ophthalmology & Visual Science, v. 26, p. 281–290, 1985.

    LAFERRE, J. Nutrition and insulin resistance in dogs. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 41, p. 833–846, 2011.

    LAFRAMME, D. et al. Nutrition for aging cats and dogs. Veterinary Clinics of North America, v. 44, p. 761–774, 2014.

    ZORAN, D. L. The carnivore connection to nutrition in cats. Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 221, p. 1559–1567, 2002.