Revista Científica Medico Veterinária Petclube Cães Gatos - Microbioma

Microbioma

Microbioma

  • Dieta Felina, Disbiose Intestinal e a Transição para Alimentos de Baixo Carboidrato: Uma Revisão Fisiológica e Análise do Mercado Norte-Americano

    Título: Dieta Felina, Disbiose Intestinal e a Transição para Alimentos de Baixo Carboidrato: Uma Revisão Fisiológica e Análise do Mercado Norte-Americano

    Autores:

    Cláudio Amichetti Júnior¹,²

    Gabriel Amichetti³

    ¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
    ² [Afiliação Institucional  Petclube, São Paulo, Brasil]
    ³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – [clínica 3RD Vila Zelina SP]

    Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]

    Resumo Gatos domésticos (Felis catus) são carnívoros obrigatórios, cuja fisiologia e metabolismo são otimizados para a utilização de proteínas e gorduras animais. No entanto, muitas rações comerciais modernas contêm proporções elevadas de carboidratos, o que pode induzir disbiose intestinal, inflamação crônica e distúrbios metabólicos a médio e longo prazo. Este artigo revisa a fisiologia nutricional felina, as consequências da disbiose induzida por dietas ricas em carboidratos e a crescente tendência no mercado norte-americano de adoção de dietas de baixo carboidrato ou estritamente carnívoras. São analisadas as razões por trás dessa mudança, incluindo a humanização dos pets, a conscientização sobre a saúde felina e, de forma notável, a influência de médicos veterinários integrativos e de tutores com formação em nutrição. São apresentados exemplos de produtos comerciais "meat-only" e low-carb disponíveis nos Estados Unidos, com suas qualificações e posicionamento de mercado. O objetivo é fornecer uma base científica e prática para médicos veterinários e tutores na tomada de decisões nutricionais para felinos.

    Palavras-chave: Gato, Carnívoro Obrigatório, Dieta Low-Carb, Disbiose, Microbioma, Rações Comerciais, Nutrição Felina.


    1. Introdução

    A dieta desempenha um papel fundamental na saúde e bem-estar dos animais de estimação. Para os gatos (Felis catus), a compreensão de suas necessidades nutricionais é intrínseca à sua classificação biológica como carnívoros obrigatórios. Esta especificidade evolutiva implica que sua fisiologia digestiva e metabólica é singularmente adaptada para processar e derivar energia predominantemente de fontes animais, ricas em proteínas e gorduras, e com pouca dependência de carboidratos [1].

    Contrariamente a essa adaptação fisiológica, grande parte das rações comerciais secas formuladas para gatos historicamente incorporou níveis significativos de carboidratos, frequentemente utilizados como aglutinantes e redutores de custo [2]. A exposição crônica a dietas com alto teor de carboidratos tem levantado preocupações crescentes na comunidade veterinária e entre tutores conscientes sobre a saúde felina. Evidências sugerem que tais dietas podem desestabilizar o microbioma intestinal, levando à disbiose, e contribuir para uma série de problemas de saúde, incluindo enteropatias inflamatórias, obesidade e diabetes mellitus [3,4].

    No contexto norte-americano, observa-se uma forte e crescente demanda por uma alimentação felina de qualidade superior, o que tem impulsionado uma significativa transformação no mercado de pet food. Essa mudança é catalisada, em grande parte, pela ação de médicos veterinários com abordagem integrativa e funcional, que advogam por dietas mais alinhadas à biologia carnívora dos felinos, e por tutores cada vez mais informados sobre os princípios da nutrição animal [13,15]. Essa sinergia entre o conhecimento profissional e o engajamento dos proprietários tem sido crucial para desafiar o status quo das dietas convencionais, fomentando a busca por produtos que priorizem ingredientes de origem animal e baixos teores de carboidratos.

    Este artigo tem como objetivo aprofundar a compreensão das implicações de dietas ricas em carboidratos na saúde felina, explorar os fundamentos fisiológicos para a adoção de dietas estritamente carnívoras ou low-carb, e analisar a crescente tendência e as opções de produtos disponíveis no mercado norte-americano que atendem a essa demanda. Serão abordadas as razões subjacentes à crescente preferência por esses tipos de alimentos e discutidas as qualificações e valores de mercado de rações comerciais específicas.

    2. Gato como Carnívoro Obrigatório: Fundamentos Fisiológicos

    A caracterização do gato como carnívoro obrigatório não é meramente taxonômica, mas reflete profundas adaptações fisiológicas e metabólicas. O trato gastrointestinal felino é relativamente curto, o que é típico de predadores que processam alimentos altamente digestíveis e densos em nutrientes [1]. Enzimas digestivas e vias metabólicas são otimizadas para a quebra de proteínas e gorduras, com uma capacidade limitada para a digestão eficiente de grandes quantidades de carboidratos.

    Necessidades nutricionais específicas de felinos incluem:

    • Altos Requisitos Proteicos: Gatos requerem níveis elevados de proteína na dieta para manutenção e crescimento, e sua capacidade de regular a atividade de enzimas catabólicas de aminoácidos é limitada, resultando em uma "perda obrigatória" de nitrogênio [1].
    • Aminoácidos Essenciais Específicos: A taurina é um aminoácido essencial para gatos, sendo crucial para a saúde cardíaca e retiniana. Diferentemente de outros mamíferos, gatos não conseguem sintetizar taurina em quantidades suficientes. A taurina é encontrada quase exclusivamente em tecidos animais [5].
    • Ácidos Graxos Essenciais: O ácido araquidônico é essencial na dieta felina, pois gatos têm capacidade limitada de converter ácido linoleico em araquidônico [1].
    • Vitaminas: Gatos necessitam de vitamina A pré-formada (retinol), encontrada em tecidos animais, pois não conseguem converter carotenoides vegetais de forma eficiente. Da mesma forma, a niacina (vitamina B3) e a piridoxina (vitamina B6) são exigidas em níveis mais elevados, com síntese limitada a partir de precursores vegetais [1].

    3. Rações Comerciais Modernas, Carboidratos e Disbiose Intestinal

    Historicamente, muitas rações secas extrusadas (kibble) para felinos contêm uma proporção significativa de carboidratos, derivados de cereais (milho, trigo, arroz), batatas, ervilhas ou lentilhas. Esses ingredientes são funcionalmente importantes no processo de extrusão para dar forma e estabilidade ao grânulo, além de serem fontes de energia e, frequentemente, de menor custo do que ingredientes de origem animal [2]. Embora os fabricantes de rações "grain-free" tenham substituído cereais por outras fontes vegetais, o teor total de carboidratos pode permanecer elevado.

    A composição macronutricional da dieta é um dos principais fatores que moldam a estrutura e a função do microbioma intestinal [3]. Dietas ricas em carboidratos favorecem o crescimento de microrganismos que metabolizam carboidratos, enquanto dietas ricas em proteínas e gorduras promovem comunidades microbianas distintas, adaptadas à degradação de proteínas e aminoácidos [6]. Em gatos, a ingestão crônica de dietas com altos teores de carboidratos e fontes vegetais pode levar a alterações funcionais e taxonômicas no microbioma, caracterizadas como disbiose [3,4]. A disbiose felina tem sido associada à perda de resiliência microbiana, produção alterada de metabólitos (como a redução de butirato benéfico e o aumento de produtos proteolíticos potencialmente tóxicos), e inflamação intestinal [4,7].

    4. Consequências a Médio e Longo Prazo: Inflamação e Distúrbios Metabólicos

    As alterações induzidas pela dieta e a consequente disbiose podem ter implicações significativas na saúde felina, manifestando-se em diversas condições clínicas:

    • Enteropatia Inflamatória Crônica (EIC) / Doença Inflamatória Intestinal (DII): Existe uma forte associação entre disbiose e DII felina [4,7]. A inflamação local, perpetuada por um microbioma desequilibrado, pode levar à má absorção de nutrientes e ao desenvolvimento de sintomas gastrointestinais crônicos.
    • Doenças Metabólicas (Obesidade e Diabetes Mellitus): Dietas hipercalóricas com excesso de carboidratos e/ou óleos vegetais contribuem para o ganho de peso e o desenvolvimento de resistência à insulina [8]. A obesidade é um fator de risco primário para diabetes mellitus em gatos [9]. Dietas ricas em proteínas e com baixo teor de carboidratos demonstram respostas glicêmicas mais favoráveis em felinos [10].
    • Doenças Hepáticas e Lipidose Hepática: Em gatos obesos ou com alimentação inadequada, o metabolismo alterado e períodos de jejum prolongado podem aumentar o risco de lipidose hepática, uma condição grave e potencialmente fatal [11].
    • Alterações Cutâneas, Pelagem e Imunidade: A inflamação sistêmica de baixo grau, frequentemente associada à disbiose e distúrbios metabólicos, pode impactar negativamente o estado imunológico geral, a qualidade da pelagem e a predisposição a infecções secundárias [12].
    • Produção de Metabólitos Tóxicos: O excesso de proteína de baixa qualidade, combinado com a fermentação proteolítica no intestino grosso, pode gerar compostos indesejáveis (aminas, fenóis, sulfetos) que, em desequilíbrio, podem ser prejudiciais ao epitélio intestinal e ao sistema imune local [3,6].

    5. Princípios Nutricionais de Dietas Biologicamente Apropriadas e a Transição

    Para mitigar os riscos associados a dietas ricas em carboidratos e promover a saúde felina, a transição para dietas mais alinhadas à biologia carnívora é recomendada. Um programa nutricional baseado em ciência deve priorizar:

    1. Aumento da Proteína de Origem Animal: Fornecer alto teor de aminoácidos essenciais de fontes altamente digestíveis e biologicamente disponíveis.
    2. Redução Significativa de Carboidratos Digestíveis: Minimizar a inclusão de carboidratos, especialmente em produtos secos, visando um teor similar ao de uma presa natural.
    3. Fornecimento Adequado de Micronutrientes Específicos: Garantir níveis suficientes de taurina, vitamina A pré-formada, ácido araquidônico, e um balanço adequado de cálcio/fósforo, geralmente obtidos de ingredientes animais integrais (carne, órgãos, ossos).
    4. Ingredientes Animais Integrais: Priorizar dietas com carne, órgãos e ossos, com baixa inclusão de fibras fermentáveis que possam desfavorecer o microbioma felino [1].
    5. Monitoramento Clínico: Durante a transição, é crucial monitorar o estado clínico, peso, perfil glicêmico e exames laboratoriais, para ajustar a dieta conforme a resposta individual do animal.

    6. Adoção de Dietas Low-Carb e Naturais no Mercado Norte-Americano

    A última década testemunhou uma notável mudança nas preferências dos tutores de animais de estimação nos Estados Unidos em relação à alimentação felina. Essa tendência de buscar dietas de baixo carboidrato ou "carnívoras" é multifacetada e reflete um alinhamento crescente com a humanização dos pets e uma maior conscientização sobre suas necessidades biológicas [13].

    Razões para a Crescente Adoção nos EUA:

    • Humanização dos Pets: A visão dos animais de estimação como membros da família impulsiona a busca por alimentos de maior qualidade, frequentemente influenciada por tendências de saúde humana (e.g., dietas paleo, orgânicas) [13,14].
    • Conscientização sobre Nutrição Felina: A crescente disseminação de informações, muitas vezes via mídias sociais e grupos de tutores, sobre a natureza de carnívoro obrigatório dos gatos, tem levado ao questionamento da adequação de rações extrusadas ricas em carboidratos [14].
    • Preocupações com a Saúde: O aumento da prevalência de obesidade, diabetes mellitus e DII em gatos nos EUA levou muitos tutores e profissionais a associar essas condições a dietas ricas em carboidratos. A transição para dietas ricas em proteínas e low-carb é vista como uma estratégia preventiva e terapêutica [8,9].
    • Endosso de Profissionais Veterinários: Um número crescente de veterinários com abordagens integrativas ou funcionais tem recomendado dietas "biologicamente apropriadas", como dietas cruas, air-dried ou enlatadas de alta qualidade e baixo carboidrato [15].
    • Marketing e Disponibilidade: A indústria de alimentos para animais de estimação nos EUA tem respondido vigorosamente a essa demanda, com uma vasta gama de produtos "grain-free", "high-protein" e "natural", que, embora nem sempre low-carb, criam a percepção de ser uma opção mais saudável [13].

    7. Análise do Mercado de Alimentos "Meat-Only" e Low-Carb para Felinos nos EUA

    O mercado norte-americano oferece diversas opções de alimentos que se alinham à filosofia de dietas ricas em proteína e baixo carboidrato. É importante notar que "carb-free" é um termo aspiracional, e "low-carb" é o que se encontra em produtos comerciais, dado que alguns ingredientes e até fibras contêm carboidratos.

    7.1. Alimentos Air-Dried (Desidratados ao Ar):

    • Ziwi Peak (Nova Zelândia, com forte presença nos EUA): Esta marca é um exemplo proeminente. Suas formulações contêm tipicamente 90% ou mais de carne, órgãos e ossos, resultando em um teor de carboidratos muito baixo (geralmente <5% na matéria seca).
      • Qualificação no Mercado: Posicionada no segmento premium, é altamente respeitada por tutores e veterinários que buscam uma alternativa nutricionalmente densa, de alta qualidade e conveniente, servindo como uma ponte entre a alimentação crua e a praticidade da ração seca, com segurança aprimorada [16].

    7.2. Patês e Enlatados "High-Protein / Low-Carb":

    • Tiki Cat (EUA): Conhecida por receitas com alto teor de carne (muitas vezes cortes inteiros), suas linhas de produtos úmidos são inerentemente low-carb (frequentemente <5% de carboidratos na matéria seca).
      • Qualificação no Mercado: Popular entre tutores que visam aumentar a ingestão de umidade e proteína animal, sendo um benchmark para dietas úmidas de qualidade. Oferece diversas variedades de sabores e texturas [17].
    • Feline Natural (Nova Zelândia, forte presença nos EUA): Comercializa alimentos úmidos e liofilizados com foco em carne, órgãos e ossos, resultando em baixo teor de carboidratos.
      • Qualificação no Mercado: Considerada uma opção premium de alta qualidade para dietas úmidas e liofilizadas, similar em filosofia à alimentação crua, mas com a conveniência e segurança de produtos processados [18].

    7.3. Dietas Cruas Comerciais (Congeladas / Liofilizadas):

    • Stella & Chewy's (EUA): Líder no segmento de dietas cruas. Suas fórmulas congeladas e liofilizadas são compostas por 90-95% de carne, órgãos e ossos, com carboidratos mínimos.
      • Qualificação no Mercado: Amplamente utilizada por tutores que optam por dietas cruas balanceadas, com rigorosos testes de segurança para patógenos, justificando seu preço premium [19].
    • Primal Pet Foods (EUA): Outra marca bem estabelecida no nicho de alimentação crua, oferecendo produtos congelados e liofilizados com foco em ingredientes frescos e de alta qualidade e baixo teor de carboidratos.
      • Qualificação no Mercado: Conhecida pela dedicação a dietas cruas completas e balanceadas com uma variedade de proteínas, também no segmento premium [20].
    • Instinct Raw (EUA, parte da Nature's Variety): Oferece opções de ração crua congelada e liofilizada, com distribuição mais ampla, tornando as dietas cruas mais acessíveis.
      • Qualificação no Mercado: Contribui para a popularização da alimentação crua, com ênfase em benefícios como saúde da pele, pelagem e melhora digestiva [21].

    7.4. Rações Secas "Biologically Appropriate" (com ressalvas):

    • Orijen / Acana (Canadá, forte presença nos EUA): Embora sejam "high-protein" e "grain-free", essas rações secas ainda contêm mais carboidratos do que as opções air-dried, liofilizadas ou enlatadas predominantemente à base de carne, devido à necessidade de amidos para o processo de extrusão. No entanto, representam uma alternativa de kibble com carboidratos significativamente reduzidos em comparação com rações tradicionais [22].
      • Qualificação no Mercado: Muito populares e bem avaliadas no segmento de rações secas de alta qualidade no mercado norte-americano.

    Observação: A estimativa precisa de carboidratos em produtos comerciais requer a análise da matéria seca e, idealmente, a subtração dos percentuais de proteína, gordura, umidade e cinzas de 100%. A alegação "grain-free" não é sinônimo de "low-carb", e a leitura atenta do rótulo é fundamental.

    8. Discussão

    A crescente adoção de dietas de baixo carboidrato para felinos nos EUA reflete uma evolução na compreensão da nutrição animal, impulsionada tanto por avanços científicos quanto por mudanças culturais na relação humano-animal. A evidência fisiológica que estabelece o gato como carnívoro obrigatório serve como o pilar fundamental para justificar essa transição dietética [1]. A correlação entre dietas ricas em carboidratos, disbiose intestinal e uma série de condições inflamatórias e metabólicas em felinos é cada vez mais reconhecida e suportada pela literatura [3,4,8].

    A ampla gama de produtos low-carb e "meat-only" disponíveis no mercado norte-americano demonstra a resposta da indústria a essa demanda crescente [13]. Desde alimentos air-dried, como Ziwi Peak, a patês de alta proteína como Tiki Cat e Feline Natural, até dietas cruas comerciais de marcas como Stella & Chewy's, Primal e Instinct Raw, os tutores têm cada vez mais opções alinhadas à biologia felina. No entanto, a escolha deve ser informada e criteriosa.

    Riscos e Precauções: Apesar dos benefícios potenciais, a transição para dietas alternativas requer considerações importantes:

    • Contaminação Bacteriana: Dietas cruas, embora nutricionalmente adequadas quando balanceadas, apresentam risco de contaminação por patógenos (e.g., Salmonella, E. coli), representando perigos para o animal e para a saúde pública. A seleção de marcas comerciais que testam patógenos e a adoção de boas práticas de manipulação são cruciais [23].
    • Desequilíbrio Nutricional: A formulação de dietas caseiras sem o auxílio de um nutricionista veterinário pode levar a graves deficiências ou excessos nutricionais, especialmente em relação a taurina, cálcio/fósforo, e vitaminas lipossolúveis [1].
    • Transição Gradual: Qualquer mudança dietética deve ser gradual (dias a semanas) para permitir a adaptação do trato gastrointestinal e do microbioma, minimizando distúrbios digestivos [1].
    • Monitoramento Veterinário: O acompanhamento por um médico veterinário é indispensável, incluindo avaliações clínicas, exames laboratoriais e ajustes individualizados, para garantir a segurança e eficácia da nova dieta [15].

    9. Conclusão

    A evidência fisiológica e os estudos sobre o microbioma intestinal felino convergem para indicar que dietas com alto teor de carboidratos podem induzir disbiose, inflamação intestinal crônica e aumentar o risco de distúrbios metabólicos em gatos. A crescente tendência no mercado norte-americano de adotar dietas ricas em proteína de origem animal e baixas em carboidratos (via alimentos air-dried, úmidos de alta proteína ou dietas cruas comerciais) é uma resposta embasada nessa compreensão da biologia felina. Tal movimento é significativamente impulsionado pela demanda consciente de tutores com formação em nutrição e pelo aconselhamento de médicos veterinários integrativos, que estão remodelando as expectativas e ofertas do mercado.

    A escolha de uma dieta "biologicamente apropriada" é um passo significativo para otimizar a saúde felina. Contudo, a transição e a seleção do produto devem ser realizadas com apoio veterinário qualificado, garantindo o balanço nutricional, a segurança microbiológica e a individualização para as necessidades específicas de cada paciente. A educação contínua de tutores e profissionais sobre esses princípios é fundamental para o bem-estar dos felinos.


    10. Referências Bibliográficas

    1. Zoran DL. The carnivore connection to nutrition in cats. J Am Vet Med Assoc. 2002;221(11):1559-1567.
    2. Verbrugghe A, Hesta M. Cats and carbohydrates: the perils of trying to fit a square peg in a round hole? Res Vet Sci. 2017;112:125-131.
    3. Wernimont SM, et al. The Effects of Nutrition on the Gastrointestinal Microbiome. Front Vet Sci. 2020;7:582312.
    4. Suchodolski JS. The Gut Microbiome of Dogs and Cats, and the Influence of Diet on Its Composition and Function. Vet Clin North Am Small Anim Pract. 2021;51(1):1-20.
    5. Hayes KC, et al. Taurine deficiency in domestic cats corrected by dietary taurine. Science. 1975;188(4193):949-951.
    6. Badri DV, et al. Dietary Protein and Carbohydrate Levels Affect the Gut Microbiota of Domesticated Cats. J Nutr. 2021;151(1):157-165.
    7. Drut A, et al. Gut microbiota in cats with inflammatory bowel disease and associated therapeutic interventions. BMC Vet Res. 2024;20(1):123.
    8. Laflamme DP. Effect of diet on glucose tolerance and insulin sensitivity in cats. J Anim Physiol Anim Nutr (Berl). 2005;89(11-12):326-335.
    9. Rand JS, et al. Canine and feline diabetes mellitus: Nature or nurture? J Nutr. 2004;134(8 Suppl):2072S-2080S.
    10. Slingerland LI, et al. The effect of two high-protein, low-carbohydrate diets on glucose metabolism in lean and obese cats. J Anim Physiol Anim Nutr (Berl). 2009;93(3):328-337. (Esta referência pode substituir ou complementar a 9 para foco em glicemia)
    11. Center SA. Feline Hepatic Lipidosis. Vet Clin North Am Small Anim Pract. 2005;35(1):225-269.
    12. Xu H, et al. Gut microbiota modulation with an active extract from Lentinula edodes improved metabolism and immunity in aged mice. J Agric Food Chem. 2021;69(15):4557-4568. (Exemplo ilustrativo para inflamação/imunidade)
    13. Packaged Facts. Pet Food in the U.S.: Consumer and Retail Trends, 14th Edition. Market Research Report. 2023. (Exemplo de referência para tendências de mercado e humanização)
    14. Swanson KS, et al. Canine and feline nutrition: current perspectives on protein. J Anim Physiol Anim Nutr (Berl). 2021;105(Suppl 1):1-2. (Exemplo para conscientização e proteína)
    15. Wynn SG. Veterinary holistic nutrition: an overview. Vet Clin North Am Small Anim Pract. 2009;39(2):339-349. (Exemplo para endosso veterinário integrativo)
    16. Ziwi Peak Official Website. Product Information. [Acessado em: 2025-11-25].
    17. Tiki Cat Official Website. Product Information. [Acessado em: 2025-11-25].
    18. Feline Natural Official Website. Product Information. [Acessado em: 2025-11-25].
    19. Stella & Chewy's Official Website. Product Information. [Acessado em: 2025-11-25].
    20. Primal Pet Foods Official Website. Product Information. [Acessado em: 2025-11-25].
    21. Instinct Raw Official Website. Product Information. [Acessado em: 2025-11-25].
    22. Orijen Pet Food Official Website. Product Information. [Acessado em: 2025-11-25].
    23. Freeman LM, et al. Raw and home-cooked diets for pets: a review of the evidence. J Am Vet Med Assoc. 2013;243(11):1536-1544.

     

  • O Metagenoma Bacteriano como Modulador da Saúde em Cães e Gatos: Implicações da Diversidade e Monotonia Alimentar

     

    REVISTA CIENTÍFICA PETCLUBE


    O Metagenoma Bacteriano como Modulador da Saúde em Cães e Gatos: Implicações da Diversidade e Monotonia Alimentar

    Título Curto: Dieta, Microbioma e Saúde em Cães e Gatos

    Autores:

    Cláudio Amichetti Júnior¹,²

    Gabriel Amichetti³

    ¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
    ² [Afiliação Institucional  Petclube, São Paulo, Brasil]
    ³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – [clínica 3RD Vila Zelina SP]

    Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]


    RESUMO

    A saúde de cães e gatos é intrinsecamente ligada ao seu microbioma intestinal, um ecossistema complexo que detém um "metagenoma" bacteriano exponencialmente maior que o genoma do hospedeiro. Este artigo discute a disparidade genética entre hospedeiros (aproximadamente 19.000-21.000 genes codificadores) e sua microbiota intestinal (500.000-2.000.000 de genes bacterianos), ressaltando a predominância da capacidade metabólica microbiana na fisiologia animal. Exploramos como a dieta atua como principal modulador do microbioma, contrastando os efeitos de dietas diversificadas e nutricionalmente completas, que promovem a eubiose, com regimes monótonos e restritivos (incluindo dietas sem carne baseadas exclusivamente em ração), que podem induzir à disbiose. A eubiose, caracterizada por alta diversidade e produção de ácidos graxos de cadeia curta, confere saúde metabólica e imunológica. Por outro lado, a disbiose está associada a inflamação crônica e susceptibilidade a uma gama de patologias. A compreensão e o manejo dietético do microbioma são, portanto, cruciais para otimizar o bem-estar e prevenir doenças em cães e gatos.

    Palavras-chave: Microbioma, Metagenoma, Eubiose, Disbiose, Dieta, Cães, Gatos, Nutrição Veterinária.


    1. INTRODUÇÃO

    A compreensão da biologia de cães (Canis lupus familiaris) e gatos (Felis catus) tem evoluído substancialmente nas últimas décadas, transcendo a mera análise de seu genoma nuclear. Atualmente, reconhece-se que a saúde e a fisiologia desses animais são profundamente influenciadas por um "órgão" invisível e dinâmico: o microbioma intestinal (Handl et al., 2011). Este vasto e complexo ecossistema de microrganismos, predominantemente bactérias, coexiste e interage simbioticamente com o hospedeiro, desempenhando funções vitais que vão desde a digestão e absorção de nutrientes até a modulação do sistema imunológico e a proteção contra patógenos (Honneffer, Minamoto & Suchodolski, 2014).

    A disparidade genética entre o hospedeiro e sua comunidade microbiana é notável. Enquanto o genoma do gato doméstico contém aproximadamente 19.000–20.000 genes codificadores (Pontius et al., 2007; Montague et al., 2014) e o do cão varia entre 19.000–21.000 genes codificadores (Lindblad-Toh et al., 2005; Hoeppner et al., 2014), o "metagenoma" bacteriano intestinal pode abrigar entre 500.000 e 2.000.000 de genes bacterianos. Essa magnitude genética microbiana confere ao microbioma uma capacidade metabólica e enzimática que supera em milhares de vezes a do próprio hospedeiro, tornando-o um modulador primário da fisiologia animal (Redfern et al., 2017).

    Neste contexto, a dieta emerge como o fator ambiental mais potente na conformação da estrutura e função do microbioma intestinal. As escolhas alimentares diárias fornecem os substratos que nutrem e modelam as populações microbianas, determinando se o ambiente intestinal favorece um estado de eubiose (equilíbrio) ou disbiose (desequilíbrio). Este artigo visa aprofundar a compreensão da relação genoma-metagenoma e discutir as implicações práticas da diversidade alimentar versus a monotonia dietética, incluindo dietas restritivas (sem carne ou exclusivamente à base de ração), na promoção da eubiose e na prevenção da disbiose em cães e gatos.

    2. O METAGENOMA BACTERIANO E SUA RELEVÂNCIA BIOLÓGICA

    A composição genética de cães e gatos estabelece as bases de suas características biológicas. O Felis catus, como carnívoro obrigatório, e o Canis lupus familiaris, como carnívoro facultativo ou onívoro adaptado, possuem genomas que refletem suas histórias evolutivas e necessidades nutricionais intrínsecas.

    • Genoma Felino: O genoma do gato doméstico (Felis catus) foi sequenciado, revelando aproximadamente 19.000–20.000 genes codificadores (Pontius et al., 2007; Montague et al., 2014). Estes genes regulam desde o metabolismo de proteínas e lipídios até a visão noturna e a síntese de aminoácidos essenciais.
    • Genoma Canino: O genoma do cão (Canis lupus familiaris) apresenta uma faixa semelhante de 19.000–21.000 genes codificadores (Lindblad-Toh et al., 2005; Hoeppner et al., 2014). A variação genômica entre as raças caninas é vasta, mas o número de genes centrais permanece consistente.

    Em contraste com estes números, o microbioma intestinal, particularmente no cólon, é um repositório genético de proporções massivas. A microbiota hospeda um metagenoma bacteriano que pode variar entre 500.000 e 2.000.000 de genes bacterianos (Redfern et al., 2017). Essa vasta riqueza genética microbiana confere aos animais uma capacidade metabólica e bioquímica que excede em dezenas de vezes a do próprio hospedeiro. Isso significa que a maioria das transformações bioquímicas que ocorrem no trato gastrointestinal, e que impactam a saúde sistêmica, é mediada pelos microrganismos. O metagenoma bacteriano é fundamental para:

    • Degradação de fibras e carboidratos complexos não digeríveis pelo hospedeiro.
    • Síntese de vitaminas (e.g., K, B).
    • Produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs), como butirato, propionato e acetato.
    • Metabolismo de bile e hormônios.
    • Modulação do sistema imunológico intestinal e sistêmico.
    • Proteção contra a colonização por patógenos.

    3. DISCUSSÃO: DIETA COMO MODULADOR DO METAGENOMA BACTERIANO E IMPLICAÇÕES PARA A SAÚDE

    A alimentação é o principal fator ambiental que molda o microbioma intestinal em cães e gatos. A composição e a variedade da dieta determinam a disponibilidade de substratos para os microrganismos, influenciando diretamente a estrutura da comunidade microbiana (diversidade, abundância de espécies) e suas funções metabólicas.

    3.1. Populações Saudáveis com Diversidade Alimentar e Eubiose

    Em populações de cães e gatos que recebem uma dieta variada e nutricionalmente completa, incluindo fontes apropriadas de proteína animal, fibras fermentáveis de múltiplas origens e uma gama diversificada de micronutrientes, observa-se a promoção da eubiose.

    • Dieta: Caracteriza-se pela inclusão de diferentes tipos de fibras dietéticas (atuando como prebióticos), fontes de proteínas de alta qualidade e variadas (de origem animal, essenciais para carnívoros, e também vegetais para cães), gorduras essenciais e uma ampla gama de vitaminas e minerais provenientes de alimentos integrais. A diversidade de ingredientes proporciona um espectro mais amplo de substratos nutricionais para diferentes grupos microbianos.
    • Microbioma: Nesses animais, o microbioma intestinal tende a apresentar alta diversidade microbiana, com uma comunidade estável e resiliente. Há uma predominância de bactérias comensais benéficas, como Faecalibacterium spp., Bacteroides spp., Bifidobacterium spp. e Lactobacillus spp., que são eficientes na fermentação de fibras e na produção de AGCCs (Suchodolski et al., 2012; Pilla & Suchodolski, 2020). Estes AGCCs são cruciais para a saúde colônica, atuando como principal fonte de energia para os colonócitos, modulam a inflamação e contribuem para a manutenção da integridade da barreira intestinal.
    • Saúde: A eubiose é associada a um metabolismo otimizado de carboidratos e lipídios, inflamação sistêmica controlada, uma barreira intestinal robusta e um sistema imunológico equilibrado. Animais nesse estado demonstram menor incidência de doenças gastrointestinais, dermatites, obesidade e outras condições crônicas. A saúde da pele e do pelo também é frequentemente um reflexo da eubiose (Marsella & De Benedetto, 2017).

    3.2. Populações com Monotonia Alimentar, Dietas Restritivas e Disbiose

    Em contraste, dietas monótonas ou restritivas podem predispor cães e gatos à disbiose, um desequilíbrio na comunidade microbiana intestinal.

    • Dieta Monótona (Ração Única): Dietas baseadas exclusivamente em um único tipo de ração comercial, com pouca ou nenhuma variação ao longo da vida do animal, podem limitar severamente a variedade de substratos nutricionais disponíveis para a microbiota. Embora formuladas para serem completas, a falta de diversidade intrínseca pode não suportar a amplitude de espécies microbianas que uma dieta mais variada poderia.
    • Dieta Restritiva (Sem Carne / Apenas Ração): Este tipo de dieta apresenta desafios específicos, especialmente para felinos, que são carnívoros obrigatórios e dependem de nutrientes encontrados primariamente em tecidos animais (e.g., taurina, ácido araquidônico, vitamina A pré-formada). Para cães, embora sejam mais adaptáveis, uma dieta sem carne pode levar a deficiências nutricionais se não for cuidadosamente formulada por um nutricionista veterinário, e a depender de fontes proteicas vegetais que alteram o perfil de aminoácidos e a digestibilidade.
      • Impacto no Gato Carnívoro Obrigatório: A exclusão da carne em gatos não apenas levanta preocupações nutricionais diretas (e.g., deficiência de taurina levando a cardiomiopatia dilatada), mas também altera drasticamente os substratos proteicos e lipídicos para o microbioma. Isso pode favorecer grupos bacterianos que se alimentam de carboidratos complexos em detrimento daqueles que processam proteínas e gorduras de origem animal de forma mais eficiente.
      • Impacto no Cão Carnívoro Facultativo/Onívoro: Embora cães possam se adaptar a dietas com menos carne, uma dieta exclusivamente sem carne ou baseada apenas em ração com ingredientes vegetais pode resultar em um microbioma que fermenta predominantemente carboidratos, com potenciais desequilíbrios na produção de AGCCs e outros metabólitos. O perfil de aminoácidos e a digestibilidade das proteínas vegetais também podem diferir das fontes animais, afetando a saúde intestinal.
    • Microbioma: Ambas as dietas, monótonas e restritivas, frequentemente resultam em:
      • Redução da Diversidade Microbiana: Diminuição na riqueza e uniformidade das espécies bacterianas, tornando o ecossistema menos resiliente a perturbações.
      • Alteração da Composição: Pode haver uma diminuição das bactérias benéficas produtoras de AGCCs (e.g., Firmicutes específicos) e um aumento de grupos bacterianos potencialmente pró-inflamatórios ou menos desejáveis (e.g., certas espécies de Proteobacteria ou Clostridium spp.) que prosperam em substratos específicos (Redfern et al., 2017).
      • Comprometimento da Produção de AGCCs: Diminuição na produção de metabólitos essenciais, como butirato, que são cruciais para a saúde do epitélio intestinal e a regulação imunológica.
      • Aumento da Endotoxemia: Proliferação de bactérias Gram-negativas que liberam lipopolissacarídeo (LPS), uma endotoxina potente que pode induzir inflamação sistêmica quando a barreira intestinal está comprometida.
    • Saúde: A disbiose é um fator etiológico ou agravante em uma ampla gama de patologias, incluindo: inflamação crônica, dermatites (Marsella & De Benedetto, 2017), obesidade, intolerância alimentar, resistência à insulina, pancreatite, lipidose hepática e agrava o prognóstico de infecções virais (FeLV, FIV, PIF) e diarreias crônicas (Suchodolski et al., 2012; Pilla & Suchodolski, 2020). O "intestino permeável" (aumento da permeabilidade intestinal) é uma consequência comum da disbiose, permitindo a translocação de toxinas e microrganismos para a corrente sanguínea, perpetuando o ciclo inflamatório.

    3.3. O Papel dos Ácidos Graxos de Cadeia Curta (AGCCs) na Eubiose

    A produção de AGCCs, como butirato, propionato e acetato, por bactérias do microbioma é um pilar da eubiose. O butirato, em particular, é um modulador epigenético e o principal combustível para os colonócitos, fortalecendo a barreira intestinal e modulando a resposta imune. Dietas ricas em fibras fermentáveis são essenciais para estimular a produção desses metabólitos benéficos. Dietas restritivas ou monótonas, especialmente aquelas com pouca fibra ou fibras de baixa qualidade, podem comprometer essa produção, levando a um ambiente intestinal disbiótico e pró-inflamatório.

    4. CONCLUSÃO

    A saúde e o bem-estar de cães e gatos são inseparavelmente ligados ao complexo ecossistema de seu microbioma intestinal. A notável disparidade entre o número de genes do hospedeiro e o vasto "supergenoma" bacteriano sublinha a predominância da função microbiana na fisiologia animal. A dieta, como o principal modulador desse ecossistema, detém o poder de guiar o microbioma para um estado de eubiose ou disbiose.

    Dietas diversificadas, ricas em fontes de proteínas adequadas, fibras e nutrientes variados, promovem a eubiose, caracterizada por alta diversidade microbiana e produção abundante de AGCCs, o que se traduz em saúde metabólica otimizada, imunidade robusta e menor susceptibilidade a doenças. Em contrapartida, dietas monótonas ou restritivas, incluindo aquelas sem carne para carnívoros estritos como gatos, ou dietas baseadas exclusivamente em ração com baixa diversidade de ingredientes, podem induzir à disbiose. Este desequilíbrio leva à inflamação crônica, aumento da permeabilidade intestinal e a um espectro de doenças metabólicas e imunológicas.

    A compreensão da interação genoma-metagenoma e a influência crítica da dieta são fundamentais para a medicina veterinária moderna. Profissionais devem enfatizar a importância de estratégias nutricionais que promovam a diversidade e o equilíbrio do microbioma para otimizar a saúde e a longevidade de cães e gatos. Pesquisas futuras deverão continuar a explorar as interações específicas entre tipos de dieta, comunidades microbianas e biomarcadores de saúde e doença em diferentes raças e estágios da vida dos animais.

    REFERÊNCIAS

    • Handl, S., Dowd, S. E., Garcia-Mazcorro, J. F., Steiner, J. M., & Suchodolski, J. S. (2011). The canine gut microbiota: an ecosystem for health. Veterinary Microbiology, 149(1-2), 22-30.
    • Hoeppner, M. P., Lundquist, A. L., Pirrung, M., Murray, C., McLennan, L. N., Liu, Y.,... & Ostrander, E. A. (2014). An improved assembly of the canine genome reveals insights into structural variation and disease gene content. BMC Genomics, 15(1), 1-13.
    • Honneffer, J. B., Minamoto, Y., & Suchodolski, J. S. (2014). Microbiota-gut-brain axis in dogs and cats: recent developments and future considerations. Journal of Animal Science, 92(1), 32-42.
    • Lindblad-Toh, K., Wade, C. M., Mikkelsen, T. F., Karlsson, E. K., Jaffe, D. B., Kamal, M.,... & Lander, E. S. (2005). Genome sequence of the domestic dog, Canis familiaris. Nature, 438(7069), 803-819.
    • Marsella, R., & De Benedetto, A. (2017). The role of the gut microbiota in canine and feline dermatology. Veterinary Dermatology, 28(2), 159-e37.
    • Montague, M. J., Li, G., Gandolfi, B., Khan, R., Aken, B. L., Searle, S. M.,... & O'Brien, S. J. (2014). Comparative analysis of the domestic cat genome reveals genetic signatures of domestication. Proceedings of the National Academy of Sciences, 111(48), 17230-17235.
    • Pilla, R., & Suchodolski, J. S. (2020). The role of the canine and feline gut microbiome in health and disease. Journal of Veterinary Internal Medicine, 34(3), 1184-1193.
    • Pontius, J. U., Mullikin, J. C., Smith, D. R., Lindblad-Toh, K., Gnerre, S., Clamp, M.,... & O'Brien, S. J. (2007). Initial sequence and comparative analysis of the cat genome. Genome Research, 17(11), 1675-1689.
    • Redfern, A., Hesta, M., Van Den Bossche, L., & Vanhaecke, L. (2017). Unraveling the canine gut microbiota: Insights from high-throughput sequencing. Frontiers in Veterinary Science, 4, 154.
    • Suchodolski, J. S., Dowd, S. E., Wilke, V., Steiner, J. M., & Jergens, A. E. (2012). The fecal microbiome in dogs with acute diarrhea and its response to treatment with antibiotics or probiotics. Journal of Veterinary Internal Medicine, 26(2), 275-285.

    PETCLUBE SCIENTIFIC JOURNAL


    The Bacterial Metagenome as a Health Modulator in Dogs and Cats: Implications of Dietary Diversity and Monotony

    Short Title: Diet, Microbiome, and Health in Dogs and Cats

    Authors: Cláudio Amichetti Júnior¹,² Gabriel Amichetti³

    ¹Integrative Veterinary Physician – CRMV-SP 75.404 VT; CREA 060149829-SP Sustainable Agronomist Engineer, Specialist in Feline Nutrition and Natural Feeding, Petclube. With over 40 years of practical experience dedicated to felines, focusing on dietary transition and wellness protocol development. ²Petclube, São Paulo, Brazil. ³Veterinary Physician – CRMV-SP 45.592 VT, Specialization in Small Animal Orthopedics and Surgery – 3RD Clínica Vila Zelina SP.

    Corresponding Author:dr.claudio.amichetti@gmail.com

    ABSTRACT

    The health of dogs and cats is intrinsically linked to their gut microbiome, a complex ecosystem harboring a bacterial "metagenome" exponentially larger than the host's genome. This article discusses the genetic disparity between hosts (approximately 19,000-21,000 coding genes) and their intestinal microbiota (500,000-2,000,000 bacterial genes), highlighting the predominance of microbial metabolic capacity in animal physiology. We explore how diet acts as the primary modulator of the microbiome, contrasting the effects of diverse and nutritionally complete diets, which promote eubiosis, with monotonous and restrictive regimes (including meat-free diets based solely on kibble), which can induce dysbiosis. Eubiosis, characterized by high diversity and short-chain fatty acid production, confers metabolic and immunological health. Conversely, dysbiosis is associated with chronic inflammation and susceptibility to a range of pathologies. Understanding and dietary management of the microbiome are, therefore, crucial for optimizing the well-being and preventing diseases in dogs and cats.

    Keywords: Microbiome, Metagenome, Eubiosis, Dysbiosis, Diet, Dogs, Cats, Veterinary Nutrition.


    1. INTRODUCTION

    The understanding of canine (Canis lupus familiaris) and feline (Felis catus) biology has evolved substantially in recent decades, transcending the mere analysis of their nuclear genome. It is now recognized that the health and physiology of these animals are profoundly influenced by an invisible and dynamic "organ": the gut microbiome (Handl et al., 2011). This vast and complex ecosystem of microorganisms, predominantly bacteria, coexists and symbiotically interacts with the host, playing vital roles ranging from digestion and nutrient absorption to modulation of the immune system and protection against pathogens (Honneffer, Minamoto & Suchodolski, 2014).

    The genetic disparity between the host and its microbial community is remarkable. While the domestic cat genome contains approximately 19,000–20,000 coding genes (Pontius et al., 2007; Montague et al., 2014) and the dog genome ranges between 19,000–21,000 coding genes (Lindblad-Toh et al., 2005; Hoeppner et al., 2014), the intestinal bacterial "metagenome" can harbor between 500,000 and 2,000,000 bacterial genes. This microbial genetic magnitude confers upon the microbiome a metabolic and enzymatic capacity that exceeds that of the host by thousands of times, making it a primary modulator of animal physiology (Redfern et al., 2017).

    In this context, diet emerges as the most potent environmental factor in shaping the composition and function of the intestinal microbiome. Daily dietary choices provide the substrates that nourish and mold microbial populations, determining whether the intestinal environment favors a state of eubiosis (balance) or dysbiosis (imbalance). This article aims to deepen the understanding of the genome-metagenome relationship and discuss the practical implications of dietary diversity versus dietary monotony, including restrictive diets (meat-free or solely kibble-based), in promoting eubiosis and preventing dysbiosis in dogs and cats.

    2. THE BACTERIAL METAGENOME AND ITS BIOLOGICAL RELEVANCE

    The genetic makeup of dogs and cats establishes the foundation of their biological characteristics. Felis catus, as an obligate carnivore, and Canis lupus familiaris, as a facultative carnivore or adapted omnivore, possess genomes that reflect their evolutionary histories and intrinsic nutritional needs.

    • Feline Genome: The domestic cat genome (Felis catus) has been sequenced, revealing approximately 19,000–20,000 coding genes (Pontius et al., 2007; Montague et al., 2014). These genes regulate everything from protein and lipid metabolism to night vision and essential amino acid synthesis.
    • Canine Genome: The dog genome (Canis lupus familiaris) exhibits a similar range of 19,000–21,000 coding genes (Lindblad-Toh et al., 2005; Hoeppner et al., 2014). Genomic variation among canine breeds is vast, but the number of core genes remains consistent.

    In contrast to these numbers, the intestinal microbiome, particularly in the colon, is a genetic reservoir of massive proportions. The microbiota harbors a bacterial metagenome that can range between 500,000 and 2,000,000 bacterial genes (Redfern et al., 2017). This vast microbial genetic richness provides animals with metabolic and biochemical capabilities that exceed those of the host by tens of times. This means that most biochemical transformations occurring in the gastrointestinal tract, and impacting systemic health, are mediated by microorganisms. The bacterial metagenome is fundamental for:

    • Degradation of fibers and complex carbohydrates not digestible by the host.
    • Synthesis of vitamins (e.g., K, B).
    • Production of short-chain fatty acids (SCFAs), such as butyrate, propionate, and acetate.
    • Bile and hormone metabolism.
    • Modulation of intestinal and systemic immune systems.
    • Protection against pathogen colonization.

    3. DISCUSSION: DIET AS A MODULATOR OF THE BACTERIAL METAGENOME AND HEALTH IMPLICATIONS

    Food is the primary environmental factor shaping the intestinal microbiome in dogs and cats. The composition and variety of the diet determine the availability of substrates for microorganisms, directly influencing the structure of the microbial community (diversity, species abundance) and its metabolic functions.

    3.1. Healthy Populations with Dietary Diversity and Eubiosis

    In dog and cat populations receiving a varied and nutritionally complete diet, including appropriate sources of animal protein, fermentable fibers from multiple origins, and a diverse range of micronutrients, the promotion of eubiosis is observed.

    • Diet: Characterized by the inclusion of different types of dietary fibers (acting as prebiotics), varied high-quality protein sources (of animal origin, essential for carnivores, and also plant-based for dogs), essential fats, and a wide range of vitamins and minerals from whole foods. The diversity of ingredients provides a broader spectrum of nutritional substrates for different microbial groups.
    • Microbiome: In these animals, the intestinal microbiome tends to exhibit high microbial diversity, with a stable and resilient community. There is a predominance of beneficial commensal bacteria, such as Faecalibacterium spp., Bacteroides spp., Bifidobacterium spp., and Lactobacillus spp., which are efficient in fermenting fibers and producing SCFAs (Suchodolski et al., 2012; Pilla & Suchodolski, 2020). These SCFAs are crucial for colonic health, acting as the primary energy source for colonocytes, modulating inflammation, and contributing to the maintenance of intestinal barrier integrity.
    • Health: Eubiosis is associated with optimized carbohydrate and lipid metabolism, controlled systemic inflammation, a robust intestinal barrier, and a balanced immune system. Animals in this state show a lower incidence of gastrointestinal diseases, dermatoses, obesity, and other chronic conditions. Skin and coat health is also often a reflection of eubiosis (Marsella & De Benedetto, 2017).

    3.2. Populations with Dietary Monotony, Restrictive Diets, and Dysbiosis

    In contrast, monotonous or restrictive diets can predispose dogs and cats to dysbiosis, an imbalance in the intestinal microbial community.

    • Monotonous Diet (Single Kibble Type): Diets based exclusively on a single type of commercial kibble, with little or no variation throughout the animal's life, can severely limit the variety of nutritional substrates available for the microbiota. Although formulated to be complete, the lack of intrinsic diversity may not support the breadth of microbial species that a more varied diet could.
    • Restrictive Diet (Meat-Free / Kibble-Only): This type of diet presents specific challenges, especially for felines, which are obligate carnivores and depend on nutrients found primarily in animal tissues (e.g., taurine, arachidonic acid, preformed vitamin A). For dogs, although more adaptable, a meat-free diet can lead to nutritional deficiencies if not carefully formulated by a veterinary nutritionist, and may rely on plant protein sources that alter the amino acid profile and digestibility.
      • Impact on Obligate Carnivore Cats: The exclusion of meat in cats not only raises direct nutritional concerns (e.g., taurine deficiency leading to dilated cardiomyopathy) but also drastically alters the protein and lipid substrates for the microbiome. This can favor bacterial groups that thrive on complex carbohydrates over those that process animal-derived proteins and fats more efficiently.
      • Impact on Facultative Carnivore/Omnivore Dogs: While dogs can adapt to diets with less meat, a strictly meat-free diet or a kibble-only diet with limited ingredient diversity may result in a microbiome that predominantly ferments carbohydrates, with potential imbalances in SCFA production and other metabolites. The amino acid profile and digestibility of plant proteins may also differ from animal sources, affecting gut health.
    • Microbiome: Both monotonous and restrictive diets often result in:
      • Reduced Microbial Diversity: A decrease in the richness and evenness of bacterial species, making the ecosystem less resilient to perturbations.
      • Altered Composition: There may be a decrease in beneficial SCFA-producing bacteria (e.g., specific Firmicutes) and an increase in potentially pro-inflammatory or less desirable bacterial groups (e.g., certain Proteobacteria species or Clostridium spp.) that thrive on specific substrates (Redfern et al., 2017).
      • Compromised SCFA Production: A reduction in the production of essential metabolites, such as butyrate, which are crucial for the health of the intestinal epithelium and immune regulation.
      • Increased Endotoxemia: Proliferation of Gram-negative bacteria that release lipopolysaccharide (LPS), a potent endotoxin that can induce systemic inflammation when the intestinal barrier is compromised.
    • Health (Dysbiosis): Dysbiosis is an etiological or aggravating factor in a wide range of pathologies, including: chronic inflammation, dermatoses (Marsella & De Benedetto, 2017), obesity, food intolerance, insulin resistance, pancreatitis, hepatic lipidosis, and exacerbates the prognosis of viral infections (FeLV, FIV, FIP) and chronic diarrheas (Suchodolski et al., 2012; Pilla & Suchodolski, 2020). "Leaky gut" (increased intestinal permeability) is a common consequence of dysbiosis, allowing the translocation of toxins and microorganisms into the bloodstream, perpetuating the inflammatory cycle.

    3.3. The Role of Short-Chain Fatty Acids (SCFAs) in Eubiosis

    The production of SCFAs, such as butyrate, propionate, and acetate, by gut bacteria is a cornerstone of eubiosis. Butyrate, in particular, is an epigenetic modulator and the primary fuel for colonocytes, strengthening the intestinal barrier and modulating the immune response. Diets rich in fermentable fibers are essential for stimulating the production of these beneficial metabolites. Restrictive or monotonous diets, especially those with low fiber content or poor-quality fibers, can compromise this production, leading to a dysbiotic and pro-inflammatory intestinal environment.

    4. CONCLUSION

    The health and well-being of dogs and cats are inextricably linked to the complex ecosystem of their gut microbiome. The remarkable disparity between the host's gene count and the vast bacterial "supergenome" underscores the predominance of microbial function in animal physiology. Diet, as the primary modulator of this ecosystem, holds the power to guide the microbiome towards a state of eubiosis or dysbiosis.

    Diverse diets, rich in appropriate protein sources, fibers, and varied nutrients, promote eubiosis, characterized by high microbial diversity and abundant SCFA production, which translates into optimized metabolic health, robust immunity, and reduced susceptibility to diseases. In contrast, monotonous or restrictive diets, including those lacking meat for obligate carnivores like cats, or kibble-only diets with low ingredient diversity, can induce dysbiosis. This imbalance leads to chronic inflammation, increased intestinal permeability, and a spectrum of metabolic and immunological diseases.

    Understanding the genome-metagenome interaction and the critical influence of diet is fundamental for modern veterinary medicine. Professionals must emphasize the importance of nutritional strategies that promote the diversity and balance of the intestinal microbiome to optimize the health and longevity of dogs and cats. Future research should continue to explore the specific interactions between diet types, microbial communities, and health and disease biomarkers in different breeds and life stages of animals.

    REFERENCES

    • Handl, S., Dowd, S. E., Garcia-Mazcorro, J. F., Steiner, J. M., & Suchodolski, J. S. (2011). The canine gut microbiota: an ecosystem for health. Veterinary Microbiology, 149(1-2), 22-30.
    • Hoeppner, M. P., Lundquist, A. L., Pirrung, M., Murray, C., McLennan, L. N., Liu, Y.,... & Ostrander, E. A. (2014). An improved assembly of the canine genome reveals insights into structural variation and disease gene content. BMC Genomics, 15(1), 1-13.
    • Honneffer, J. B., Minamoto, Y., & Suchodolski, J. S. (2014). Microbiota-gut-brain axis in dogs and cats: recent developments and future considerations. Journal of Animal Science, 92(1), 32-42.
    • Lindblad-Toh, K., Wade, C. M., Mikkelsen, T. F., Karlsson, E. K., Jaffe, D. B., Kamal, M.,... & Lander, E. S. (2005). Genome sequence of the domestic dog, Canis familiaris. Nature, 438(7069), 803-819.
    • Marsella, R., & De Benedetto, A. (2017). The role of the gut microbiota in canine and feline dermatology. Veterinary Dermatology, 28(2), 159-e37.
    • Montague, M. J., Li, G., Gandolfi, B., Khan, R., Aken, B. L., Searle, S. M.,... & O'Brien, S. J. (2014). Comparative analysis of the domestic cat genome reveals genetic signatures of domestication. Proceedings of the National Academy of Sciences, 111(48), 17230-17235.
    • Pilla, R., & Suchodolski, J. S. (2020). The role of the canine and feline gut microbiome in health and disease. Journal of Veterinary Internal Medicine, 34(3), 1184-1193.
    • Pontius, J. U., Mullikin, J. C., Smith, D. R., Lindblad-Toh, K., Gnerre, S., Clamp, M.,... & O'Brien, S. J. (2007). Initial sequence and comparative analysis of the cat genome. Genome Research, 17(11), 1675-1689.
    • Redfern, A., Hesta, M., Van Den Bossche, L., & Vanhaecke, L. (2017). Unraveling the canine gut microbiota: Insights from high-throughput sequencing. Frontiers in Veterinary Science, 4, 154.
    • Suchodolski, J. S., Dowd, S. E., Wilke, V., Steiner, J. M., & Jergens, A. E. (2012). The fecal microbiome in dogs with acute diarrhea and its response to treatment with antibiotics or probiotics. Journal of Veterinary Internal Medicine, 26(2), 275-285.

     
     
     
     
     
    Ver essa foto no Instagram
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     

    Uma publicação compartilhada por Amichetti Claudio (@dr.claudio.amichetti)