Aprofundamento em Métodos Diagnósticos para Micoses Cutâneas Felinas
1. Biópsia Cutânea para Diagnóstico de Dermatopatias Fúngicas
A biópsia cutânea, seguida de exame histopatológico, é uma ferramenta diagnóstica inestimável em dermatologia veterinária, particularmente em casos onde os diagnósticos presuntivos são inconclusivos, as lesões são atípicas, há falha na resposta ao tratamento empírico, ou quando há suspeita de condições mais complexas, como doenças autoimunes, neoplasias ou infecções fúngicas profundas.
a) Indicações para Biópsia em Suspeita de Micose Cutânea
- Lesões Atípicas: Apresentação clínica que não se encaixa no padrão clássico de dermatofitose (ex: lesões nodulares, úlceras, pápulas miliares generalizadas sem prurido).
- Não Resposta ao Tratamento: Falha na melhora após um tratamento antifúngico adequado.
- Dermatoses Pruriginosas com Alopecia: Para diferenciar de outras causas de prurido e alopecia (ex: alergias, parasitoses).
- Suspeita de Fungal Profunda/Sistêmica: Embora raras, algumas infecções fúngicas podem ter manifestações cutâneas.
- Exclusão de Outras Patologias: Fundamental para descartar doenças imunomediadas, endócrinas ou neoplásicas com apresentação dermatológica similar.
b) Seleção e Preparo do Sítio da Biópsia
A escolha do local da biópsia é crítica para obter um diagnóstico preciso.
- Melhores Locais: Margens de lesões ativas, áreas com pelos quebradiços, pústulas intactas, pápulas, crostas ou áreas elevadas.
- Evitar: Áreas com escoriações secundárias, infecção bacteriana secundária grave, alopecia crônica sem inflamação ativa, ou áreas já tratadas topicamente que possam mascarar os achados.
- Preparo:
- Tricotomia Mínima: Apenas o suficiente para visualizar a lesão. Evitar tricotomia excessiva ou agressiva que possa danificar a arquitetura tecidual ou remover esporos superficiais.
- Assepsia Leve: Limpeza suave com solução salina estéril ou clorexidina diluída, sem esfregação vigorosa. Evitar álcool iodado ou álcool puro em excesso, pois podem interferir na coloração ou desidratar o tecido.
- Anestesia: Anestesia local (lidocaína 2%) com vasoconstritor (se não houver contraindicação) é geralmente suficiente. Em gatos mais apreensivos, sedação leve pode ser necessária. Infiltrar a anestesia ao redor da lesão, não dentro, para não distorcer a arquitetura tecidual.
c) Técnica de Coleta da Amostra
- Biópsia por Punch: O método mais comum para lesões cutâneas.
- Utilizar um punch de 6-8 mm para uma amostra representativa e evitar artefatos de compressão.
- Posicionar o punch sobre a lesão (ou incluindo a margem da lesão e pele sadia para lesões focais).
- Rotacionar o punch com pressão firme e constante até sentir uma diminuição da resistência, indicando que a lâmina atingiu o tecido subcutâneo.
- Remover o cilindro de tecido com cuidado, utilizando pinça delicada (ex: pinça de tecido Adson) ou agulha fina para não esmagar a amostra.
- Fechar a incisão com 1-2 pontos de sutura simples.
- Biópsia Excisional/Incisional: Indicada para lesões nodulares maiores, massas ou lesões que afetam a junção dermo-epidérmica. Permite remover uma área maior ou uma porção representativa, se a massa for muito grande.
d) Fixação e Envio da Amostra
- Fixador: O fixador padrão é o formol tamponado neutro a 10%. É crucial que o volume de formol seja de pelo menos 10 vezes o volume do tecido para garantir a fixação adequada e evitar autólise.
- Recipiente: Frascos com boca larga para facilitar a inserção e remoção do tecido.
- Identificação: Etiquetar claramente o frasco com o nome do paciente, proprietário e local da biópsia.
- Histórico Clínico Detalhado: Anexar uma requisição completa ao laboratório. Este é um dos pontos mais críticos. Incluir:
- Espécie, raça, idade, sexo.
- Histórico da doença (duração, progressão, tratamentos prévios e resposta).
- Descrição macroscópica das lesões (localização, tamanho, tipo – ex: eritema, alopecia, crosta, pápula, úlcera).
- Suspeitas diagnósticas.
- Resultados de outros exames (Luz de Wood, tricograma, citologia).
- Medicamentos em uso.
e) Interpretação Histopatológica
O patologista examina as lâminas tingidas e busca por:
| * Padrões Inflamatórios: Granulomatoso, piogranulomatoso, peri folicular, etc. |
|---|
- Danos Teciduais: Folliculite, furunculose, dermatite.
- Presença de Elementos Fúngicos: Hifas, esporos, blastoconídios (leveduras).
- Colorações Especiais: Se houver suspeita de fungos, o patologista utilizará colorações especiais como PAS (Periodic Acid-Schiff) e GMS (Grocott's Methenamine Silver), que coram os elementos fúngicos de forma mais intensa e específica, facilitando sua identificação.
- Limitações: A biópsia pode não detectar fungos se a carga for muito baixa, se a lesão não for representativa, ou se o fungo estiver restrito à superfície. Também não permite a identificação da espécie sem cultura complementar.
2. Cultura de Fungos (Cultura Micológica/Dermatofítica)
A cultura fúngica é considerada o "padrão ouro" para o diagnóstico definitivo de dermatofitose, pois permite o isolamento e a identificação da espécie fúngica responsável. É crucial para confirmar o diagnóstico, monitorar a eficácia do tratamento e identificar portadores assintomáticos.
a) Indicações para Cultura Micológica
- Confirmação Diagnóstica: Após triagem positiva por Luz de Wood ou tricograma.
- Identificação da Espécie: Diferenciar Microsporum canis (alta zoonose e principal agente) de outros dermatófitos ou contaminantes.
- Monitoramento Terapêutico: Realizada periodicamente (a cada 2-4 semanas) durante o tratamento para determinar quando o animal está curado micologicamente (duas culturas negativas consecutivas).
- Triagem de Portadores: Especialmente em gatis ou abrigos, utilizando a técnica de escovação.
- Casos Crônicos ou Recorrentes.
b) Tipos e Coleta de Amostras
A coleta asséptica é vital para minimizar a contaminação por fungos saprófitas.
- Pelos: Preferencialmente pelos fluorescentes (se houver), ou pelos quebradiços, secos, opacos, arrancados das bordas das lesões ativas com uma pinça hemostática estéril. Não cortar os pelos, pois os esporos estão mais concentrados na raiz.
- Escamas e Crostas: Raspar suavemente as margens das lesões com uma lâmina de bisturi estéril.
- Unhas: Raspar a porção subungueal ou coletar fragmentos de unhas friáveis.
- Técnica de Escovação (Mackenzie Technique): Ideal para a triagem de portadores assintomáticos ou para coletar amostras de múltiplos locais em casos generalizados.
- Utilizar uma escova de dentes nova e estéril.
- Escovar vigorosamente a pelagem do gato (principalmente face, orelhas, patas e cauda, ou todo o corpo em triagem) por 5-10 minutos, garantindo a coleta de pelos e descamações.
- Pressionar as cerdas da escova sobre o meio de cultura (DTM ou SDA) para transferir a amostra.
c) Preparo do Sítio da Coleta
- Limpeza: Limpar a área com uma gaze levemente umedecida em álcool 70% ou soro fisiológico estéril para remover sujidade e contaminantes superficiais. Permitir secar completamente. Evitar antissépticos fortes (ex: iodo) que podem inibir o crescimento fúngico.
d) Meios de Cultura e Inoculação
- Dermatophyte Test Medium (DTM): É o meio mais comumente utilizado em clínicas. Contém nutrientes, inibidores de bactérias e fungos saprófitas, e um indicador de pH (vermelho de fenol). Dermatófitos metabolizam proteínas antes dos carboidratos, produzindo metabólitos alcalinos que mudam o pH para alcalino (vermelho) simultaneamente ou antes do crescimento visível da colônia. Fungos saprófitas tendem a metabolizar carboidratos primeiro, resultando em mudança de cor posterior ao crescimento visível ou nenhuma mudança.
- Sabouraud Dextrose Agar (SDA) com antibióticos (cloranfenicol e cicloheximida): Meio de escolha para laboratórios de referência, pois suporta um crescimento mais robusto e menos seletivo, permitindo uma melhor morfologia de colônia e microscopia.
- Inoculação: Inserir a amostra (pelos, escamas ou cerdas da escova) dentro do meio ou levemente pressionar na superfície, sem enterrar completamente.
e) Incubação e Leitura
- Temperatura: Incubar a 25-30°C (temperatura ambiente).
- Luz: Exposição à luz ambiente (não luz solar direta).
- Tempo: Examinar diariamente por até 3-4 semanas. Alguns dermatófitos podem levar tempo para crescer.
- Interpretação:
- DTM: Uma mudança de cor para vermelho antes ou concomitantemente com o aparecimento de uma colônia fúngica branca, pulverulenta ou algodão é altamente sugestiva de dermatófito.
- Macroscopia da Colônia: Observar cor, textura, elevação e velocidade de crescimento. Dermatófitos clássicos (ex: M. canis) tendem a formar colônias brancas a levemente amareladas, pulverulentas ou algodoadas.
- Microscopia: Confirmar a presença de macroconídios e microconídios típicos da espécie através de exame microscópico direto (preparo com fita adesiva ou em lactofenol cotton blue). Esta etapa é essencial para a identificação definitiva da espécie.
f) Vantagens e Desvantagens da Cultura
- Vantagens: Diagnóstico definitivo, identificação da espécie (crucial para o manejo epidemiológico e prognóstico), altamente sensível (especialmente a técnica de escovação).
- Desvantagens: Demorado (2-4 semanas para resultado final), pode ser contaminada por fungos saprófitas se a coleta não for asséptica ou se o meio não tiver inibidores adequados, exige expertise para interpretação macro e microscópica.
Considerações Finais para o Veterinário
Cláudio, como você pode ver, tanto a biópsia quanto a cultura micológica são métodos diagnósticos valiosos, mas com propósitos e interpretações distintos.
- A biópsia é excelente para a avaliação da arquitetura tecidual, do padrão inflamatório e para descartar ou confirmar outras dermatopatias, e para detectar fungos quando a cultura pode ser negativa (ex: infecções profundas).
- A cultura micológica é o padrão ouro para a confirmação e identificação da espécie de dermatófito, o que é fundamental para o planejamento terapêutico, o prognóstico e o controle de zoonoses.
Em muitos casos, uma abordagem combinada, começando com métodos mais rápidos como Luz de Wood e tricograma, seguida de cultura para confirmação, e reservando a biópsia para casos atípicos ou refratários, proporciona o caminho mais eficaz para um diagnóstico preciso e completo. A comunicação clara com o laboratório de patologia e microbiologia é sempre um diferencial para otimizar os resultados.
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