CORDYCEPS MILITARIS: COMPOSTOS BIOATIVOS, MECANISMOS DE AÇÃO E EVIDÊNCIAS CLÍNICAS
AUTORES E SUPERVISÃO TÉCNICA
Dr. Cláudio Amichetti Júnior¹,² — Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Engenheiro Agrônomo). Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos e cães tipo bull, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
Gabriel Amichetti³ — Médico-veterinário – CRMV-SP 45.592 VT. Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil.
Afiliações:
¹ Petclube, São Paulo, Brasil
²
³ Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil
RESUMO
O Cordyceps militaris é um fungo entomopatogênico de uso tradicional na etnomedicina asiática, reconhecido por seu perfil rico em compostos bioativos, como cordicepina, polissacarídeos e ergotioneína. O presente artigo tem por objetivo revisar a composição química, os mecanismos de ação e as evidências clínicas da espécie, com enfoque em suas aplicações para profissionais de saúde. Realizou-se levantamento bibliográfico em bases de dados científicas, priorizando revisões e ensaios clínicos publicados entre 2020 e 2026. Os resultados indicam atividade imunomoduladora, antioxidante e anti-inflamatória bem caracterizada em estudos pré-clínicos, mediada principalmente por polissacarídeos e pela cordicepina. Em humanos, as evidências para efeitos ergogênicos permanecem preliminares e inconsistentes, limitadas por amostras pequenas, heterogeneidade de protocolos e ausência de preparações padronizadas com constituintes quantificados. Conclui-se que o C. militaris constitui ingrediente promissor no campo dos cogumelos funcionais, sendo necessários ensaios clínicos robustos e extratos quimicamente caracterizados para consolidar sua aplicação clínica e esportiva.
Palavras-chave: Cordyceps militaris. Cogumelos medicinais. Cordicepina. Imunomodulação. Antioxidantes.
ABSTRACT
Cordyceps militaris is an entomopathogenic fungus traditionally used in Asian ethnomedicine, recognized for its rich profile of bioactive compounds, such as cordycepin, polysaccharides and ergothioneine. This article aims to review the chemical composition, mechanisms of action and clinical evidence of the species, focusing on its applications for health professionals. A bibliographic survey was carried out in scientific databases, prioritizing reviews and clinical trials published between 2020 and 2026. The results indicate immunomodulatory, antioxidant and anti-inflammatory activity well characterized in preclinical studies, mediated mainly by polysaccharides and cordycepin. In humans, evidence for ergogenic effects remains preliminary and inconsistent, limited by small samples, heterogeneity of protocols and lack of standardized preparations with quantified constituents. It is concluded that C. militaris is a promising ingredient in the field of functional mushrooms, requiring robust clinical trials and chemically characterized extracts to consolidate its clinical and sports application.
Keywords: Cordyceps militaris. Medicinal mushrooms. Cordycepin. Immunomodulation. Antioxidants.
1 INTRODUÇÃO
O Cordyceps militaris é um fungo entomopatogênico pertencente à família Cordycipitaceae, tradicionalmente empregado na etnomedicina asiática como tônico geral e agente de suporte à vitalidade (JĘDREJKO et al., 2021). Nas últimas décadas, a espécie despertou crescente interesse científico por seu perfil fitoquímico rico em compostos bioativos — com destaque para a cordicepina, polissacarídeos, ergotioneína e esteróis — associados a atividades imunomoduladora, antioxidante, anti-inflamatória e ergogênica (JĘDREJKO et al., 2021; JĘDREJKO et al., 2026).
Diferentemente de seu congênere C. sinensis, o C. militaris apresenta a vantagem de poder ser cultivado em substrato artificial em larga escala, garantindo produção padronizada, rastreabilidade e uniformidade entre lotes — fatores críticos para a segurança e a reprodutibilidade de formulações destinadas ao uso humano.
2 COMPOSIÇÃO QUÍMICA E COMPOSTOS BIOATIVOS
Os principais metabólitos de interesse clínico do C. militaris incluem:
- Cordicepina (3'-desoxiadenosina): análogo nucleosídico com propriedades imunomoduladoras, anti-inflamatórias e antiproliferativas. É o marcador químico mais estudado da espécie (JĘDREJKO et al., 2021).
- Polissacarídeos: frações com atividade imunomoduladora, atuando sobre a resposta imune inata e adaptativa.
- Ergotioneína: aminoácido com potente ação antioxidante e citoprotetora, presente em concentrações significativas no corpo de frutificação.
- Esteróis, compostos fenólicos e indólicos: contribuem para o perfil antioxidante e anti-inflamatório global do extrato.
Estudo de Jędrejko et al. (2024) demonstrou que extratos padronizados com 7% e 1% de cordicepina apresentaram as maiores concentrações do composto, além de níveis relevantes de ergotioneína (4405 e 928 mg/100 g de peso seco, respectivamente). O mesmo trabalho evidenciou que o corpo de frutificação não processado é fonte superior de compostos bioativos quando comparado a suplementos em cápsulas ou pó, avaliada a bioacessibilidade em sucos digestivos artificiais (JĘDREJKO et al., 2024).
3 MECANISMOS DE AÇÃO
3.1 Imunomodulação
A atividade imunomoduladora do C. militaris é mediada principalmente por seus polissacarídeos e pela cordicepina. Os efeitos observados incluem modulação da proliferação de linfócitos, regulação da produção de citocinas e influência sobre a atividade de células natural killer (NK), sugerindo um papel de equilíbrio da resposta imune (JĘDREJKO et al., 2021).
3.2 Atividade antioxidante e anti-inflamatória
A combinação de ergotioneína, compostos fenólicos e polissacarídeos confere ao extrato capacidade de neutralização de radicais livres e redução de marcadores inflamatórios, contribuindo para a proteção celular contra o estresse oxidativo (JĘDREJKO et al., 2021).
3.3 Efeitos ergogênicos
A cordicepina e os polissacarídeos têm sido associados a melhorias no metabolismo energético e no consumo de oxigênio, com potencial impacto sobre o desempenho aeróbico e a recuperação pós-exercício (JĘDREJKO et al., 2026).
4 EVIDÊNCIAS CLÍNICAS EM HUMANOS
4.1 Desempenho físico e recuperação
Revisão narrativa recente (JĘDREJKO et al., 2026) avaliou cinco estudos de intervenção publicados entre 2017 e 2024, totalizando 321 participantes de 16 a 35 anos. Os protocolos variaram de 1 a 16 semanas, com doses diárias de 1 a 12 g, administradas como material fúngico isolado ou em formulações multi-ingredientes. Os desfechos avaliados incluíram VO₂máx/VO₂pico, tempo até a exaustão, potência, desempenho em corrida e manutenção da saturação periférica de oxigênio durante exercício de alta intensidade, além de marcadores bioquímicos de dano muscular (creatina quinase, ureia nitrogenada) e resposta inflamatória (contagem de leucócitos).
Conclusões da revisão:
- Alguns estudos relataram melhorias em parâmetros selecionados de desempenho e recuperação, porém com resultados inconsistentes entre os ensaios.
- A certeza da evidência é limitada por: amostras pequenas, heterogeneidade de participantes e protocolos, relato insuficiente de randomização, ausência de registro de ensaio na maioria dos estudos, falta de preparações padronizadas com constituintes bioativos quantificados e uso de suplementos multi-ingredientes (JĘDREJKO et al., 2026).
4.2 Estudos recentes
Ensaio randomizado cruzado publicado em 2026 investigou a suplementação aguda de C. militaris e observou elevação do consumo de oxigênio em repouso e tempos de reação mais rápidos, sugerindo efeitos agudos sobre o metabolismo energético e a função cognitivo-motora (ACUTE..., 2026). Registro clínico em andamento (NCT07310108) avalia a aplicação da cepa C. militaris M2-116-04 em nutrição esportiva em adultos saudáveis ativos.
5 SEGURANÇA E CONSIDERAÇÕES CLÍNICAS
- O C. militaris é geralmente bem tolerado em estudos de curto prazo, com perfil de segurança favorável nas doses avaliadas.
- Não há evidência suficiente para estabelecer segurança em gestantes, lactantes, crianças e portadores de doenças autoimunes ou em uso de imunossupressores — recomenda-se cautela e orientação profissional.
- A padronização química (quantificação de cordicepina e demais bioativos) é pré-requisito essencial para a reprodutibilidade dos efeitos e para a interpretação clínica dos estudos.
- No Brasil, produtos à base de C. militaris destinados ao uso oral devem atender à regulamentação da ANVISA (notificação/registro conforme RDC 243/2018), e alegações de propriedades funcionais ou terapêuticas estão sujeitas a aprovação regulatória.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Cordyceps militaris representa um ingrediente promissor no campo dos cogumelos funcionais, com mecanismos de ação bem caracterizados em nível pré-clínico (imunomodulação, antioxidante, anti-inflamatório) e evidências preliminares, porém ainda inconsistentes, em humanos para aplicações ergogênicas. A padronização dos extratos e a condução de ensaios clínicos robustos com preparações quimicamente caracterizadas são os próximos passos necessários para consolidar seu papel na prática clínica e na nutrição esportiva.
REFERÊNCIAS (ABNT NBR 6023)
ACUTE Cordyceps militaris supplementation and elevated resting oxygen uptake with faster reaction times: a randomized crossover trial. PLOS ONE, San Francisco, 2026. DOI 10.1371/journal.pone.0351725. [AUTORES A COMPLETAR — REQUER VERIFICAÇÃO]
JĘDREJKO, K. J.; LAZUR, J.; MUSZYŃSKA, B. Cordyceps militaris: an overview of its chemical constituents in relation to biological activity. Foods, Basel, v. 10, n. 11, p. 2634, 2021. DOI 10.3390/foods10112634.
JĘDREJKO, K.; KAŁA, K.; SUŁKOWSKA-ZIAJA, K. et al. Analysis of bioactive compounds in Cordyceps militarisfruiting bodies and dietary supplements: in vitro bioaccessibility determination in artificial digestive juices. International Journal of Food Science & Technology, Oxford, 2024. DOI 10.1111/ijfs.17156.
JĘDREJKO, M.; JĘDREJKO, K.; GRANDA, D. et al. Current evidence of ergogenic and post-exercise recovery effects of dietary supplementation with Cordyceps militaris in humans: a narrative review. Nutrients, Basel, v. 18, n. 5, p. 781, 2026. DOI 10.3390/nu18050781.
TRENDS in the immunomodulatory effects of Cordyceps militaris: total extracts, polysaccharides and cordycepin. 2020. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7735063/. Acesso em: 18 ago. 2026. \