NAD⁺ and the electron transport chain: biochemical foundations, age-related decline and perspectives in veterinary medicine
A nicotinamida adenina dinucleotídeo (NAD⁺) é cofator central do metabolismo energético e substrato de enzimas envolvidas em reparo do DNA, resposta inflamatória e sobrevivência celular. Sua disponibilidade declina com a idade por aumento do consumo enzimático e redução das vias de ressíntese, com impacto direto sobre a produção mitocondrial de ATP. Este artigo revisa os fundamentos físico-químicos do elétron, o funcionamento da cadeia transportadora de elétrons, a biologia do NAD⁺ e as evidências — ainda incipientes — de sua aplicação na medicina veterinária, especialmente em cães e gatos geriátricos. A principal conclusão é que a elevação farmacológica do NAD⁺ é segura e factível, mas a tradução em desfechos clínicos permanece não comprovada e exige individualização diagnóstica.
Palavras-chave: NAD⁺. Cadeia transportadora de elétrons. Mitocôndria. ATP. Longevidade. Nutrição animal. Medicina veterinária integrativa.
A redução da atividade física, o declínio cognitivo, a perda de massa muscular e a fadiga persistente figuram entre as manifestações mais precoces do envelhecimento — tanto em seres humanos quanto em animais de companhia. Em medicina veterinária, essas alterações são frequentemente atribuídas de forma genérica ao "envelhecimento normal" do animal, o que retarda a investigação de mecanismos moleculares que já se encontram descritos e mensuráveis.
Entre esses mecanismos, destaca-se a queda da disponibilidade celular de NAD⁺, cofator essencial da respiração mitocondrial e substrato de enzimas que regulam reparo de DNA (PARPs), silenciamento gênico (sirtuínas) e sinalização inflamatória. O declínio de NAD⁺ foi associado, em tecido humano, à redução da capacidade de produção de energia e ao aumento do estresse oxidativo (MASSudi et al., 2012). Em medicina veterinária, estudos recentes em modelo canino de distrofia muscular de Duchenne demonstraram queda do conteúdo de NAD⁺ no músculo estriado e alteração de enzimas dependentes do cofator (CARDOSO et al., 2023), enquanto ensaios clínicos em cães seniores apontam efeitos sobre a função cognitiva (SIMON et al., 2024).
Este trabalho tem como objetivo (i) apresentar o elétron como unidade fundamental do fluxo energético biológico, (ii) descrever a cadeia transportadora de elétrons e o papel do NAD⁺ nesse processo, (iii) revisar criticamente as evidências sobre a suplementação de precursores e (iv) discutir a aplicabilidade e os limites desses achados na clínica de animais de companhia.
O elétron (símbolo
e−e−
; também
β−β−
quando originado de decaimento radioativo beta) é uma partícula elementar — não é constituído por unidades menores. Suas propriedades fundamentais estão bem estabelecidas:
−1,602×10−19−1,602×10−19
C, a carga negativa elementar; o próton possui o mesmo valor, com sinal positivo.
9,11×10−319,11×10−31
kg — aproximadamente 1/1836 da massa do próton. A quase totalidade da massa atômica concentra-se no núcleo.
No átomo, o elétron não orbita o núcleo como um corpo em trajetória definida: existe como nuvem de probabilidade. É justamente o seu rearranjo que sustenta toda a química — ligações químicas, eletricidade e luz são, em essência, elétrons mudando de posição.
Do ponto de vista biológico, o organismo não produz nem consome elétrons como consome proteínas: ele os transfere de molécula em molécula. É desse fluxo controlado que deriva a energia celular.
Os nutrientes ingeridos contêm elétrons de alta energia aprisionados em ligações carbono-hidrogênio (C–H). O catabolismo desmonta essas ligações em etapas sucessivas e transfere os elétrons a dois carreadores:
NAD++2e−+H+→NADHNAD++2e−+H+→NADH
FAD+2e−+2H+→FADH2FAD+2e−+2H+→FADH2
Esse processo ocorre em quatro frentes metabólicas principais (NELSON; COX, 2017):
Carboidratos e gorduras convergem, assim, para a mesma moeda intermediária: carreadores reduzidos, ricos em elétrons.
Os elétrons não são transferidos diretamente ao oxigênio — a liberação abrupta de energia resultaria em calor, e não em trabalho útil. A transferência ocorre em degraus, ao longo de complexos proteicos (NELSON; COX, 2017):
A reação final é a razão bioquímica da dependência de oxigênio:
O2+4H++4e−→2H2OO2+4H++4e−→2H2O
Na ausência de oxigênio para receber os elétrons, a cadeia é interrompida integralmente — princípio que explica tanto a letalidade rápida da hipóxia quanto o mecanismo de ação de inibidores do Complexo IV.
O bombeamento de prótons cria um gradiente eletroquímico — a força próton-motriz, da ordem de 180 mV. O retorno dos prótons à matriz ocorre exclusivamente pela ATP sintase (Complexo V), cuja rotação catalisa a conversão de ADP e fosfato inorgânico em ATP.
O balanço energético por molécula de glicose é aproximadamente:
A maior parte da energia utilizada por um organismo aeróbio provém, portanto, desse fluxo de elétrons.
Entre 1% e 2% dos elétrons escapam prematuramente nos Complexos I e III, gerando superóxido e outras espécies reativas de oxigênio (ROS). Em concentrações elevadas, esse vazamento causa dano oxidativo e está implicado no envelhecimento celular; em níveis moderados, atua como sinalização fisiológica. Esse ponto é decisivo: o próprio dano oxidativo gerado pela respiração é um dos fatores que aceleram o consumo de NAD⁺, fechando um ciclo de retroalimentação descrito adiante.
O NAD⁺ opera em duas frentes simultâneas. Como carreador de elétrons, viabiliza a cadeia respiratória descrita acima. Como substrato enzimático, é consumido por PARPs (reparo de DNA) e sirtuínas (regulação metabólica e epigenética) (BASHSIN et al., 2023). Retirado o NAD⁺ da equação, a transferência de elétrons cessa e a produção de ATP colapsa.
É incorreto, contudo, afirmar que o organismo nasce com uma quantidade fixa de NAD⁺. O corpo mantém três vias ativas de síntese ao longo de toda a vida:
O declínio associado à idade decorre, portanto, do desequilíbrio entre produção e consumo, e não de um destino biológico inexorável.
A redução do NAD⁺ resulta da soma de três processos concorrentes:
A evidência humana de referência é o estudo de Massudi et al. (2012), que quantificou NAD⁺ em tecido humano e demonstrou correlação negativa consistente entre o cofator e a idade (r = −0,706 em homens), acompanhada do aumento da atividade de PARP e do estresse oxidativo.
É indispensável, no entanto, apresentar o contraponto: Peluso et al. (2021) revisaram estudos em diferentes espécies e concluíram que a afirmação de que os níveis de NAD⁺ caem de forma global com a idade é sustentada por evidência limitada, frequentemente restrita a um único tecido ou tipo celular. Ou seja: a direção geral do fenômeno é plausível e amplamente aceita, mas sua magnitude e universalidade permanecem mal caracterizadas — sobretudo em humanos e, de modo ainda mais acentuado, em animais de companhia.
A suplementação com precursores de NAD⁺ — sobretudo nicotinamida ribosídeo (NR) e mononucleotídeo de nicotinamida (NMN) — é o principal campo de intervenção estudado.
Dois pontos são razoavelmente estabelecidos:
O que não está estabelecido é a tradução clínica. A revisão de Freeberg et al. (2023) aponta amostras pequenas e protocolos heterogêneos; Bhasin et al. (2023) reforçam que a farmacologia clínica dos precursores permanece mal compreendida; e Vinten et al. (2025), em revisão publicada na Nature Metabolism, questionam a extrapolação direta de dados murinos para o envelhecimento humano.
Elevar NAD⁺ não é sinônimo de comprovar benefício clínico. Essa distinção deve orientar qualquer decisão terapêutica.
A biologia do NAD⁺ não é exclusiva da espécie humana. Cães e gatos compartilham as três vias de síntese e a mesma lógica de declínio associado à idade, o que abre uma frente de investigação com potencial translacional (OXFORD, 2024).
As vias de síntese de NAD⁺ dependem de substratos dietéticos diretos: triptofano (via de novo) e vitamina B3 (via de Preiss-Handler). A adequação desses nutrientes na dieta assume, portanto, papel funcional que ultrapassa a simples correção de deficiências — especialmente em pacientes geriátricos, com restrição calórica ou em uso de dietas terapêuticas de baixa densidade energética.
Em pacientes com disbiose e inflamação crônica — como felinos soropositivos para FeLV sob manejo nutricional —, existe um eixo coerente a considerar: a inflamação de baixo grau amplifica a expressão de CD38, elevando o consumo de NAD⁺ e comprometendo a disponibilidade energética de tecidos de alta demanda, incluindo o epitélio intestinal. Os dados de Guo et al. (2026) fornecem suporte mecanístico preliminar a essa hipótese, ainda que restritos ao modelo canino e ao ambiente celular.
A literatura veterinária ainda não estabelece dose, frequência, cofatores adjuvantes ou duração de protocolo para precursores de NAD⁺ em cães e gatos. As evidências disponíveis provêm de um modelo genético específico, de um ensaio com produto combinado (senolítico + precursor) e de estudos celulares. Além disso, a comercialização de determinados precursores enfrenta restrições regulatórias variáveis entre países — aspecto que o médico-veterinário deve verificar antes de qualquer prescrição.
Três pontos merecem ênfase crítica.
Primeiro: o gargalo precisa ser identificado, não presumido. A redução do NAD⁺ é apenas uma entre muitas causas de queda de desempenho e vitalidade. Em medicina veterinária, quadros de hipotireoidismo, disfunções endócrinas, deficiências nutricionais, dor crônica de origem osteoarticular, doença renal e parasitismo devem ser excluídos antes de se atribuir o quadro à depleção de um cofator. A lógica de "medir antes de suplementar" é metodologicamente superior à reposição empírica. Vale destacar, porém, que o monitoramento preciso de NAD⁺ em tecidos de animais de companhia ainda não é uma ferramenta disponível na rotina clínica — o que reforça a necessidade de investigação diagnóstica diferencial convencional.
Segundo: a diferença entre alvo molecular e desfecho clínico. Elevar NAD⁺ é bioquimicamente factível e demonstrado. Converter essa elevação em ganho de massa muscular, melhora cognitiva ou longevidade comprovada é uma etapa distinta, ainda não vencida. O ensaio de Simon et al. (2024) ilustra bem o problema: houve sinal de benefício relatado pelo tutor, mas ausência de diferença nos testes cognitivos objetivos e melhora em todos os grupos. Confundir mecanismo com resultado é o erro central que a difusão comercial desses produtos costuma explorar.
Terceiro: a translação entre espécies é uma hipótese, não um dado. Cães e gatos são modelos potencialmente superiores a roedores pela proximidade fisiológica e pelo envelhecimento acelerado, o que favorece estudos longitudinais. Ainda assim, diferenças de farmacocinética, expressão enzimática e composição da microbiota impedem a simples importação de protocolos humanos. A rigor, nenhum protocolo veterinário baseado em NAD⁺ pode ser considerado baseado em evidências no estágio atual do conhecimento.
Do ponto de vista da medicina veterinária integrativa, a leitura mais defensável é sistêmica: NAD⁺, disbiose intestinal, inflamação crônica e capacidade antioxidante compõem um mesmo eixo fisiológico, no qual a nutrição atua como modulador e não apenas como oferta calórica. Essa perspectiva é consistente com os dados de Guo et al. (2026) no epitélio intestinal canino e abre caminho para intervenções nutricionais com alvo molecular definido — desde que avaliadas com o mesmo rigor exigido de qualquer terapêutica.
A cadeia transportadora de elétrons, o NAD⁺ e o declínio energético associado à idade formam um eixo bioquímico robusto e mensurável, com fundamentos bem estabelecidos: o elétron é a unidade de fluxo energético; o NAD⁺ é o seu carreador central; sua disponibilidade reduz-se com a idade por aumento de consumo e queda de ressíntese; e precursores exógenos elevam seus níveis com segurança demonstrada.
O que falta — e não deve ser substituído por certeza artificial — é a comprovação de desfecho clínico, especialmente em animais de companhia. A postura científica, aqui como em qualquer área, permanece a mesma: medir, individualizar e tratar o mecanismo efetivamente identificado, com transparência sobre o que é evidência e o que é hipótese.
BASHSIN, S. et al. Nicotinamide adenine dinucleotide in aging biology: potential applications and many unknowns. Endocrine Reviews, v. 44, n. 6, p. 1047-1073, 2023. DOI: 10.1210/endrev/bnad019.
CARDOSO, D. et al. Replenishing NAD+ content reduces aspects of striated muscle disease in a dog model of Duchenne muscular dystrophy. Skeletal Muscle, v. 13, 2023. DOI: 10.1186/s13395-023-00328-w.
FREEBERG, K. A. et al. Dietary supplementation with NAD+-boosting compounds in humans: current knowledge and future directions. The Journals of Gerontology: Series A, 2023. DOI: 10.1093/gerona/glad106.
GUO, X. et al. Nicotinamide mononucleotide modulates endothelin-1 via NR4A1 and histone modifications in canine intestinal epithelial cells. Animals, v. 16, n. 4, p. 591, 2026. DOI: 10.3390/ani16040591.
MASSudi, H. et al. Age-associated changes in oxidative stress and NAD+ metabolism in human tissue. PLOS ONE, v. 7, n. 7, p. e42357, 2012. DOI: 10.1371/journal.pone.0042357.
NELSON, D. L.; COX, M. M. Lehninger principles of biochemistry. 7. ed. New York: W. H. Freeman, 2017.
OXFORD, H. Molecules with pre-clinical evidence of targeting aging in multi-species models for consideration in companion animal medicine. Journal of the American Holistic Veterinary Medical Association, v. 75, p. 11-26, 2024. DOI: 10.56641/KBEV3748.
PELUSO, A. A. et al. Age-dependent decline of NAD+ — universal truth or confounded consensus? Nutrients, v. 14, n. 1, p. 101, 2021. DOI: 10.3390/nu14010101.
SIMON, K. E. et al. A randomized, controlled clinical trial demonstrates improved owner-assessed cognitive function in senior dogs receiving a senolytic and NAD+ precursor combination. Scientific Reports, v. 14, 2024. DOI: 10.1038/s41598-024-63031-w.
THOMSON, J. J. Cathode rays. The London, Edinburgh, and Dublin Philosophical Magazine and Journal of Science, v. 44, n. 269, p. 293-316, 1897.
VINTEN, K. T. et al. NAD+ precursor supplementation in human ageing: clinical evidence and challenges. Nature Metabolism, 2025. DOI: 10.1038/s42255-025-01387-7.
Claudio Amichetti Junior — CRMV 75404 Pós em Nutrição Animal · Pós em Farmacologia · Pós em Cannabis Medicinal
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