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PETCLUBE CONSULTORIA VETERINÁRIA
A Crise Metabólica na Medicina de Pequenos Animais
Transição Histórica, Carga de Carboidratos, Óleos de Cereais e o Paradoxo Lipídico em Cães e Gatos
01 de outubro de 2026
Dr. Claudio Amichetti, Médico Veterinário (CRMV-SP 75404)
PetClube Consultoria Veterinária
A medicina veterinária de pequenos animais enfrenta, no século XXI, uma transição epidemiológica marcante. O declínio relativo das afecções infectocontagiosas clássicas, oportunizado pelo desenvolvimento vacinal e pelas melhorias sanitárias, cedeu espaço à ascensão de desordens metabólicas e degenerativas de caráter crônico. O sobrepeso e a obesidade acometem mais da metade da população de cães e gatos em áreas urbanas, trazendo como comorbidades frequentes o diabetes mellitus, a dislipidemia aterogênica funcional, a doença hepática gordurosa não alcoólica e a pancreatite necrotizante. Paralelamente a esse cenário clínico, debates contemporâneos sobre as raízes da medicina alopática humana e suas escolhas conceituais sobre o metabolismo lipídico oferecem subsídios para reexaminar os alicerces da prática clínica de cães e gatos. Este ensaio articula a perspectiva histórica sobre a evolução do modelo biomédico e a transição alimentar industrial à luz da fisiologia digestiva e metabólica dos carnívoros domésticos, com ênfase na fração de carboidratos refinados e nos óleos de cereais introduzidos nas dietas comerciais ultraprocessadas.
No âmbito do resgate histórico dos modelos médicos vigentes, uma narrativa amplamente discutida sintetiza que "In 1910, 155 American medical universities had their entire curriculum changed". A referência converge para o célebre Relatório Flexner (1910), patrocinado pela Fundação Carnegie e apoiado pelo Instituto Rockefeller, que promoveu a padronização e o fechamento de instituições de ensino baseadas em terapêuticas integrativas, homeopáticas, ecléticas e botânicas nos Estados Unidos. A leitura crítica que advém dessa transição enfatiza que a medicina abandonou a busca ativa pela restauração das causas fundamentais e o reforço da capacidade curativa intrínseca do organismo, instaurando um sistema predominantemente passivo, balizado pela intervenção pontual e pelo controle sintomático de longo prazo.
Concomitantemente, a constatação de que "The pharmaceutical industry officially entered the universities" destaca a consolidação do complexo químico-farmacêutico como o motor formativo e metodológico da biomedicina. O ensino clínico estruturou-se em torno do diagnóstico morfológico e da prescrição medicamentosa, direcionando o profissional a intervir apenas quando a enfermidade manifesta-se laboratorial ou clinicamente, secundarizando disciplinas de nutrição preventiva, fisiologia comparada dos estilos de vida e modulação do ambiente biológico.
Na medicina veterinária de pequenos animais, observa-se um reflexo direto dessa trajetória epistemológica. Historicamente, os currículos de graduação dedicaram ampla carga horária à farmacoterapia, à cirurgia e ao controle de agentes parasitários e microbianos, reservando à nutrição uma abordagem comumente restrita ao atendimento das exigências mínimas calculadas por diretrizes estáticas (NRC ou FEDIAF). O resultado clínico dessa conformação foi o predomínio do manejo reativo: aguarda-se a instalação de quadros de esteatose, hiperadrenocorticismo secundário, nefropatia ou falência das células beta pancreáticas para iniciar terapias farmacológicas de manutenção continuada — como insulinoterapia exógena, hepatoprotetores e moduladores enzimáticos —, sem uma avaliação rigorosa das forças metabólicas e nutricionais que originaram a lesão tecidual primária.
A transição alimentar humana que se seguiu à Segunda Guerra Mundial e à industrialização em massa estabeleceu como axioma o refino de matérias-primas e a maximização da vida útil dos alimentos nas prateleiras. Conforme resumido na máxima crítica contemporânea: "By refining food you remove nutrients and create empty calories, generating accumulation in the body and creating the belly" — ou seja, o refino remove nutrientes e cria calorias vazias, gerando acúmulo de gordura no corpo e o aumento de volume abdominal. A remoção de fibras integradas, micronutrientes termoestáveis e matrizes estruturais deu lugar a farinhas de alta biodisponibilidade amilácea, calorias vazias e densidade energética desreguladora da saciedade neuroendócrina.
No universo dos animais de companhia, esse processo manifestou-se na consolidação do processo de extrusão termomecânica para produção de rações secas a partir da segunda metade do século XX. O cão (Canis lupus familiaris) e, de forma ainda mais categórica, o gato (Felis catus), são animais classificados evolutivamente dentro da ordem Carnivora. Gatos são carnívoros estritos e obrigatórios; cães são carnívoros adaptáveis. Nem cães nem gatos possuem amilase salivar (ptialina), o que impede o início da clivagem mecânica e enzimática dos polissacarídeos na cavidade oral. A digestão do amido depende exclusivamente da amilase pancreática lançada no lúmen duodenal.
Nos felinos, a incongruência fisiológica atinge níveis severos: eles exibem atividade residual ou nula de glucoquinase hepática, enzima essencial para fosforilar a glicose em glicose-6-fosfato sob condições de alta oferta alimentar, operando com a hexoquinase, cuja capacidade volumétrica de saturação é restrita. A despeito de tais características adaptativas, a maioria das rações comerciais secas formuladas por extrusão contém teores de carboidratos que variam de 35% a 55% da matéria seca, recorrendo a frações amiláceas de alta taxa de expansão, tais como milho moído, farelo de trigo, quirera de arroz, fécula de mandioca e amido de batata.
O calor excessivo, a pressão e o cisalhamento da extrusão desencadeiam a Reação de Maillard entre açúcares redutores e grupamentos amino de proteínas nobres, gerando substanciais quantidades de Produtos Finais de Glicação Avançada (Advanced Glycation End-products — AGEs). Os AGEs ligam-se a receptores específicos (RAGE) na parede vascular e nos enterócitos, ativando o fator nuclear kappa B (NF-κB) e promovendo estresse oxidativo tecidual.
Um aspecto que requer atenção médica prioritária é a seleção da matriz lipídica empregada nas formulações comerciais secas. Para viabilizar a estabilização lipídica e mitigar custos operacionais, o uso de óleos vegetais refinados de cereais e grãos — com proeminência para os óleos de milho, de soja e de girassol — tornou-se amplamente difundido. Esses óleos são predominantemente constituídos por ácido linoleico (LA, C18:2n-6), um ácido graxo poli-insaturado da série ômega-6.
Ao penetrar o hepatócito, o ácido linoleico é processado pelas enzimas delta-6 e delta-5 dessaturases, convertendo-se em ácido araquidônico (ARA, C20:4n-6). O excesso desse metabólito nas membranas fosfolipídicas celulares atua como substrato direto para as vias da ciclooxigenase (COX-2) e 5-lipoxigenase (5-LOX), culminando na superexpressão de prostanoides e leucotrienos pró-inflamatórios (como prostaglandina E2 e leucotrieno B4). A razão dietética entre ácidos graxos ômega-6 e ômega-3, que no plano evolutivo dos carnívoros selvagens situava-se próxima de 2:1 a 4:1, atinge proporções distorcidas de 20:1 até 40:1 nas formulações industriais modernas.
O contraponto metabólico a essa condição inflamatória é desempenhado pelos ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 de origem marinha: o ácido eicosapentaenoico (EPA, C20:5n-3) e o ácido docosahexaenoico (DHA, C22:6n-3). Diferentemente dos ruminantes ou de herbívoros funcionais, cães e gatos demonstram baixa taxa de conversão (nos cães) ou total inaptidão enzimática (nos gatos) para alongar o ácido alfa-linolênico vegetal (ALA) em EPA e DHA. Quando submetidos a dietas saturadas em óleos de cereais, instala-se um estado de estresse inflamatório crônico de baixo grau no leito endotelial e no tecido adiposo, amplificando os efeitos deletérios da hiperglicemia pós-prandial decorrente das altas frações de carboidratos.
A relação direta entre a ingestão contínua de amidos altamente refinados e o colapso endócrino foi sintetizada de forma incisiva pela máxima clínica: "With the belly you created the first disease of the belly: diabetes" — ou seja, com o aumento de volume abdominal (a 'barriga') criou-se a primeira doença do abdômen: o diabetes. Em cães e gatos alimentados continuamente com rações de alta carga glicêmica, a absorção rápida de glicose luminal impõe picos frequentes de hiperglicemia pós-prandial, forçando as células beta das ilhotas de Langerhans a secretar quantidades compensatórias crescentes de insulina.
A hiperinsulinemia crônica subsequente induz a lipogênese de novo hepática através da up-regulation de fatores de transcrição específicos, como a proteína ligadora do elemento regulador de esterol 1c (SREBP-1c). A incapacidade do tecido adiposo periférico de armazenar o excesso calórico com segurança direciona o acúmulo de triglicerídeos para o território visceral — mesentérico e omental — e ectópico (esteatose hepática e infiltração gordurosa pancreática e miocárdica), promovendo a adiposidade visceral e o consequente aumento de volume abdominal.
O tecido adiposo visceral comporta-se como um órgão endócrino patológico, secretando adipocinas inflamatórias, incluindo fator de necrose tumoral alfa (TNF-α), interleucina-6 (IL-6) e resistina, com simultânea inibição da secreção de adiponectina. Em nível intracelular, os mediadores pró-inflamatórios ativam a quinase IκB (IKK) e a c-Jun N-terminal quinase (JNK), promovendo a fosforilação anômala em resíduos de serina dos substratos do receptor de insulina (IRS-1 e IRS-2), impedindo o acoplamento da fosfatidilinositol 3-quinase (PI3K) e a translocação do transportador GLUT-4.
Nos gatos, essa cascata assume contornos idênticos aos do diabetes mellitus tipo 2 do ser humano. Concomitantemente à insulina, as células beta felinas co-secretam o peptídeo amiloide das ilhotas (amilina). Sob o estímulo hipersecretório demandado pela resistência insulínica, a amilina oligomeriza-se em fibrilas insolúveis, depositando substância amiloide no interstício das ilhotas. Essa amiloidose induz vacuolização citoplasmática, apoptose progressiva de células beta e exaustão funcional da glândula.
Nos cães, embora o diabetes apresente com frequência um componente imuno-mediado com destruição absoluta de células beta semelhante ao tipo 1 humano, a adiposidade visceral e a hipertrigliceridemia oriundas da lipogênese acelerada são os principais desencadeantes da pancreatite necrotizante aguda e crônica. O excesso de ácidos graxos livres em circulação e a sobrecarga de triglicerídeos lesam as membranas dos ácinos pancreáticos, deflagrando a conversão precoce de tripsinogênio em tripsina intracelular, culminando em autodigestão glandular, choque distributivo e disfunção hepática secundária.
Na década de 1950, o fisiologista norte-americano Ancel Keys formulou a hipótese dietético-lipídica, sustentando que a ingestão de gorduras saturadas e colesterol constituía a causa precípua das lesões coronarianas isquêmicas. Essa linha de pensamento foi impulsionada pela divulgação do Seven Countries Study (Estudo dos Sete Países), consolidando mundialmente a tese de que a redução do colesterol sérico total e, posteriormente, da lipoproteína de baixa densidade (LDL), seria o objetivo prioritário da cardiologia preventiva.
A transposição acrítica desse paradigma humano para o raciocínio veterinário revela uma incompatibilidade fisiológica profunda. Cães e gatos são mamíferos fundamentalmente resistentes à aterogênese espontânea, apresentando um perfil lipoproteico estruturalmente distinto daquele observado nos primatas e nos seres humanos. Enquanto a circulação humana é predominantemente carreadora de LDL (apolipoproteína B-100), carnívoros domésticos operam como espécies HDL-predominantes. Neles, entre 75% e 85% do colesterol sérico circula empacotado em partículas de lipoproteína de alta densidade (HDL, predominantemente HDL1 e HDL2, ricas em apolipoproteína A-I).
Além da predominância de partículas de alta densidade, carnívoros domésticos apresentam expressão insignificante ou nula da Proteína de Transferência de Ésteres de Colesterol (CETP) no plasma. Na circulação humana, a CETP troca ésteres de colesterol da HDL por triglicerídeos presentes em VLDL e LDL, permitindo o enriquecimento de colesterol em lipoproteínas potencialmente aterogênicas. Na ausência de atividade de CETP, os carnívoros mantêm o colesterol retido de forma segura na fração HDL, a qual realiza o transporte reverso eficiente até os hepatócitos para excreção biliar. Por essa razão, infartos agudos do miocárdio decorrentes da ruptura de placas de ateroma fibrocalcificadas com obstrução de leitos coronários são eventos praticamente nulos na clínica de cães e gatos, demonstrando o equívoco de diagnosticar o animal com foco exclusivo na molécula do colesterol em si.
O advento da classe das estatinas — inibidores competitivos da enzima 3-hidroxi-3-metilglutaril-coenzima A (HMG-CoA) redutase — representou a conversão da hipótese de Keys em um mercado farmacológico global. Contudo, evidências epidemiológicas modernas apontam limitações marcantes na premissa de que a diminuição isolada do LDL constitui a solução absoluta para o risco cardiovascular. Em análise publicada em 2009 no American Heart Journal, envolvendo uma coorte de 231.986 internações por eventos cardiovasculares agudos distribuídas por 541 centros hospitalares norte-americanos, observou-se que, entre os 136.905 indivíduos com perfil lipídico aferido no momento do internamento, a média de LDL-colesterol era de apenas 105 mg/dL — nível considerado satisfatório pelas diretrizes vigentes —, sendo que 17,6% dos pacientes exibiam concentrações inferiores a 70 mg/dL.
Por outro lado, 54,6% desses pacientes apresentavam níveis de HDL-colesterol abaixo de 40 mg/dL e a concentração média de triglicerídeos situava-se em 161 mg/dL. Esses dados indicam que o preditor bioquímico determinante do risco vascular consiste na dislipidemia aterogênica (caracterizada pela associação entre triglicerídeos elevados e HDL reduzido), associada à resistência insulínica e ao excesso de carboidratos refinados, e não no valor absoluto do LDL. Ademais, na prevenção cardiovascular primária em populações humanas de baixo risco, o Número Necessário para Tratar (NNT) das estatinas atinge patamares da ordem de 150 — indicando que 150 indivíduos necessitam utilizar o fármaco cronicamente para que apenas um evento adverso maior seja prevenido —, trazendo consigo o risco de mialgias, lesão hepatocelular e desregulação glicêmica secundária.
Na medicina veterinária, o uso de inibidores da HMG-CoA redutase carece de plausibilidade biológica e relevância terapêutica. A hipercolesterolemia e a hipertrigliceridemia em cães e gatos raramente ocorrem como defeitos primários isolados de receptores lipídicos (à exceção da hiperlipidemia idiopática do Schnauzer Miniatura, associada a mutações no gene da lipoproteína lipase ou no seu processamento). Na imensa maioria dos casos clínicos, a hiperlipidemia é secundária a patologias subjacentes bem delimitadas:
Quando um cão ou gato manifesta hipertrigliceridemia severa (superior a 500 mg/dL), a preocupação do clínico não reside no infarto coronariano, mas no risco imediato de pancreatite aguda por oclusão de capilares pancreáticos, infiltração lipídica no fígado e alterações oftalmológicas graves, tais como lipidose corneal (infiltração estromal de depósitos de ésteres de colesterol) e lipemia retinalis. A abordagem dessa dislipidemia exige o restabelecimento da homeostase endócrina primária e a remoção das fontes dietéticas de carboidratos ultraprocessados, e não a supressão da síntese endógena de colesterol por via farmacológica.
Atenção Clínica: A presença de soro lipêmico em cães e gatos em jejum de 12 horas reflete acúmulo patológico de quilomícrons e VLDL. Deve suscitar investigação imediata de hipotireoidismo, hiperadrenocorticismo, diabetes mellitus e pancreatite latente, descartando-se o uso empírico de estatinas humanas.
O monitoramento das alterações decorrentes da hiperglicemia contínua e dos episódios de glicação celular apoia-se em biomarcadores distintos quando comparamos humanos e pequenos animais. Enquanto na prática clínica humana a fração da hemoglobina glicada (HbA1c) constitui o padrão-ouro de avaliação do controle glicêmico bimestral — com metas ideais estritas situadas abaixo de 5,5%, e ideais funcionais em torno de 5,0% —, no cão e no gato a dosagem de HbA1c encontra entraves metodológicos. A meia-vida dos eritrócitos caninos (cerca de 100 a 110 dias) e felinos (cerca de 65 a 70 dias), aliada à baixa permeabilidade da membrana do eritrócito felino à glicose e a interferências técnicas de variantes de hemoglobina, reduz a precisão diagnóstica da HbA1c nestas espécies.
Dessa forma, o marcador padrão-ouro e rotineiro na medicina de pequenos animais é a fructosamina sérica. A fructosamina representa a totalidade das proteínas séricas (predominantemente a albumina) que sofreram glicação não enzimática via bases de Schiff e rearranjo de Amadori. Como a meia-vida da albumina sérica nas espécies canina e felina é de aproximadamente duas a três semanas, a concentração de fructosamina reflete a média das concentrações sanguíneas de glicose ocorridas nos 14 a 21 dias precedentes à coleta.
A mensuração seriada da fructosamina reveste-se de grande valor clínico para diferenciar a hiperglicemia transitória induzida pelo estresse da venopunção — evento extremamente comum na espécie felina, secundário à liberação aguda de catecolaminas — da real resistência insulínica e diabetes persistente. Gatos assustados no consultório podem apresentar glicemias transitórias superiores a 300 mg/dL com fructosamina perfeitamente normal, evitando diagnósticos errôneos e a instituição equivocada de insulinoterapia.
A reversão do atual panorama de enfermidades metabólicas crônicas em cães e gatos requer uma reestruturação do manejo do paciente desde as primeiras fases do desenvolvimento, resgatando a soberania da fisiologia evolutiva sobre os hábitos ultraprocessados de conveniência:
"A intervenção clínica sobre as desordens metabólicas de cães e gatos não deve limitar-se à supressão de sintomas ou à prescrição de agentes farmacológicos crônicos. A restauração da saúde funcional reside na harmonização da dieta diária com a biologia evolutiva do carnívoro, mitigando a inflamação tecidual e a sobrecarga endócrina antes da falência estrutural dos órgãos."
O confronto entre as teses históricas sobre a transformação do ensino médico a partir de 1910 e a realidade contemporânea da medicina veterinária traz lições inestimáveis para a prática clínica com pequenos animais. Ao romper com dogmas extrapolados indevidamente da fisiologia humana — como a centralidade isolada do colesterol na gênese do risco cardiovascular e o emprego empírico de moduladores enzimáticos como estatinas —, o médico veterinário passa a enxergar a verdadeira gênese da crise metabólica atual: o consumo massivo de carboidratos refinados, a exposição a produtos de glicação avançada (AGEs) e o desequilíbrio inflamatório introduzido pelo excesso de óleos de cereais ômega-6 nas rações ultraprocessadas.
A contenção da epidemia de obesidade visceral, resistência insulínica, diabetes melito e pancreatite em cães e gatos depende do abandono de posturas estritamente passivas e reativas. Ao integrar a vigilância por marcadores confiáveis como a fructosamina a uma conduta nutricional balanceada e congruente com a anatomia e a fisiologia de carnívoros, o clínico veterinário transcende a condição de prescritor de terapias de suporte, exercendo a medicina em seu mais elevado propósito: restabelecer a homeostase biológica e promover a longevidade funcional dos animais de companhia.
Dr. Claudio Amichetti
Médico Veterinário — CRMV-SP 75404
PetClube Consultoria Veterinária
01 de outubro de 2026
NAD⁺ and the electron transport chain: biochemical foundations, age-related decline and perspectives in veterinary medicine
A nicotinamida adenina dinucleotídeo (NAD⁺) é cofator central do metabolismo energético e substrato de enzimas envolvidas em reparo do DNA, resposta inflamatória e sobrevivência celular. Sua disponibilidade declina com a idade por aumento do consumo enzimático e redução das vias de ressíntese, com impacto direto sobre a produção mitocondrial de ATP. Este artigo revisa os fundamentos físico-químicos do elétron, o funcionamento da cadeia transportadora de elétrons, a biologia do NAD⁺ e as evidências — ainda incipientes — de sua aplicação na medicina veterinária, especialmente em cães e gatos geriátricos. A principal conclusão é que a elevação farmacológica do NAD⁺ é segura e factível, mas a tradução em desfechos clínicos permanece não comprovada e exige individualização diagnóstica.
Palavras-chave: NAD⁺. Cadeia transportadora de elétrons. Mitocôndria. ATP. Longevidade. Nutrição animal. Medicina veterinária integrativa.
A redução da atividade física, o declínio cognitivo, a perda de massa muscular e a fadiga persistente figuram entre as manifestações mais precoces do envelhecimento — tanto em seres humanos quanto em animais de companhia. Em medicina veterinária, essas alterações são frequentemente atribuídas de forma genérica ao "envelhecimento normal" do animal, o que retarda a investigação de mecanismos moleculares que já se encontram descritos e mensuráveis.
Entre esses mecanismos, destaca-se a queda da disponibilidade celular de NAD⁺, cofator essencial da respiração mitocondrial e substrato de enzimas que regulam reparo de DNA (PARPs), silenciamento gênico (sirtuínas) e sinalização inflamatória. O declínio de NAD⁺ foi associado, em tecido humano, à redução da capacidade de produção de energia e ao aumento do estresse oxidativo (MASSudi et al., 2012). Em medicina veterinária, estudos recentes em modelo canino de distrofia muscular de Duchenne demonstraram queda do conteúdo de NAD⁺ no músculo estriado e alteração de enzimas dependentes do cofator (CARDOSO et al., 2023), enquanto ensaios clínicos em cães seniores apontam efeitos sobre a função cognitiva (SIMON et al., 2024).
Este trabalho tem como objetivo (i) apresentar o elétron como unidade fundamental do fluxo energético biológico, (ii) descrever a cadeia transportadora de elétrons e o papel do NAD⁺ nesse processo, (iii) revisar criticamente as evidências sobre a suplementação de precursores e (iv) discutir a aplicabilidade e os limites desses achados na clínica de animais de companhia.
O elétron (símbolo
e−
; também
β−
quando originado de decaimento radioativo beta) é uma partícula elementar — não é constituído por unidades menores. Suas propriedades fundamentais estão bem estabelecidas:
−1,602×10−19
C, a carga negativa elementar; o próton possui o mesmo valor, com sinal positivo.
9,11×10−31
kg — aproximadamente 1/1836 da massa do próton. A quase totalidade da massa atômica concentra-se no núcleo.
No átomo, o elétron não orbita o núcleo como um corpo em trajetória definida: existe como nuvem de probabilidade. É justamente o seu rearranjo que sustenta toda a química — ligações químicas, eletricidade e luz são, em essência, elétrons mudando de posição.
Do ponto de vista biológico, o organismo não produz nem consome elétrons como consome proteínas: ele os transfere de molécula em molécula. É desse fluxo controlado que deriva a energia celular.
Os nutrientes ingeridos contêm elétrons de alta energia aprisionados em ligações carbono-hidrogênio (C–H). O catabolismo desmonta essas ligações em etapas sucessivas e transfere os elétrons a dois carreadores:
NAD++2e−+H+→NADH
FAD+2e−+2H+→FADH2
Esse processo ocorre em quatro frentes metabólicas principais (NELSON; COX, 2017):
Carboidratos e gorduras convergem, assim, para a mesma moeda intermediária: carreadores reduzidos, ricos em elétrons.
Os elétrons não são transferidos diretamente ao oxigênio — a liberação abrupta de energia resultaria em calor, e não em trabalho útil. A transferência ocorre em degraus, ao longo de complexos proteicos (NELSON; COX, 2017):
A reação final é a razão bioquímica da dependência de oxigênio:
O2+4H++4e−→2H2O
Na ausência de oxigênio para receber os elétrons, a cadeia é interrompida integralmente — princípio que explica tanto a letalidade rápida da hipóxia quanto o mecanismo de ação de inibidores do Complexo IV.
O bombeamento de prótons cria um gradiente eletroquímico — a força próton-motriz, da ordem de 180 mV. O retorno dos prótons à matriz ocorre exclusivamente pela ATP sintase (Complexo V), cuja rotação catalisa a conversão de ADP e fosfato inorgânico em ATP.
O balanço energético por molécula de glicose é aproximadamente:
A maior parte da energia utilizada por um organismo aeróbio provém, portanto, desse fluxo de elétrons.
Entre 1% e 2% dos elétrons escapam prematuramente nos Complexos I e III, gerando superóxido e outras espécies reativas de oxigênio (ROS). Em concentrações elevadas, esse vazamento causa dano oxidativo e está implicado no envelhecimento celular; em níveis moderados, atua como sinalização fisiológica. Esse ponto é decisivo: o próprio dano oxidativo gerado pela respiração é um dos fatores que aceleram o consumo de NAD⁺, fechando um ciclo de retroalimentação descrito adiante.
O NAD⁺ opera em duas frentes simultâneas. Como carreador de elétrons, viabiliza a cadeia respiratória descrita acima. Como substrato enzimático, é consumido por PARPs (reparo de DNA) e sirtuínas (regulação metabólica e epigenética) (BASHSIN et al., 2023). Retirado o NAD⁺ da equação, a transferência de elétrons cessa e a produção de ATP colapsa.
É incorreto, contudo, afirmar que o organismo nasce com uma quantidade fixa de NAD⁺. O corpo mantém três vias ativas de síntese ao longo de toda a vida:
O declínio associado à idade decorre, portanto, do desequilíbrio entre produção e consumo, e não de um destino biológico inexorável.
A redução do NAD⁺ resulta da soma de três processos concorrentes:
A evidência humana de referência é o estudo de Massudi et al. (2012), que quantificou NAD⁺ em tecido humano e demonstrou correlação negativa consistente entre o cofator e a idade (r = −0,706 em homens), acompanhada do aumento da atividade de PARP e do estresse oxidativo.
É indispensável, no entanto, apresentar o contraponto: Peluso et al. (2021) revisaram estudos em diferentes espécies e concluíram que a afirmação de que os níveis de NAD⁺ caem de forma global com a idade é sustentada por evidência limitada, frequentemente restrita a um único tecido ou tipo celular. Ou seja: a direção geral do fenômeno é plausível e amplamente aceita, mas sua magnitude e universalidade permanecem mal caracterizadas — sobretudo em humanos e, de modo ainda mais acentuado, em animais de companhia.
A suplementação com precursores de NAD⁺ — sobretudo nicotinamida ribosídeo (NR) e mononucleotídeo de nicotinamida (NMN) — é o principal campo de intervenção estudado.
Dois pontos são razoavelmente estabelecidos:
O que não está estabelecido é a tradução clínica. A revisão de Freeberg et al. (2023) aponta amostras pequenas e protocolos heterogêneos; Bhasin et al. (2023) reforçam que a farmacologia clínica dos precursores permanece mal compreendida; e Vinten et al. (2025), em revisão publicada na Nature Metabolism, questionam a extrapolação direta de dados murinos para o envelhecimento humano.
Elevar NAD⁺ não é sinônimo de comprovar benefício clínico. Essa distinção deve orientar qualquer decisão terapêutica.
A biologia do NAD⁺ não é exclusiva da espécie humana. Cães e gatos compartilham as três vias de síntese e a mesma lógica de declínio associado à idade, o que abre uma frente de investigação com potencial translacional (OXFORD, 2024).
As vias de síntese de NAD⁺ dependem de substratos dietéticos diretos: triptofano (via de novo) e vitamina B3 (via de Preiss-Handler). A adequação desses nutrientes na dieta assume, portanto, papel funcional que ultrapassa a simples correção de deficiências — especialmente em pacientes geriátricos, com restrição calórica ou em uso de dietas terapêuticas de baixa densidade energética.
Em pacientes com disbiose e inflamação crônica — como felinos soropositivos para FeLV sob manejo nutricional —, existe um eixo coerente a considerar: a inflamação de baixo grau amplifica a expressão de CD38, elevando o consumo de NAD⁺ e comprometendo a disponibilidade energética de tecidos de alta demanda, incluindo o epitélio intestinal. Os dados de Guo et al. (2026) fornecem suporte mecanístico preliminar a essa hipótese, ainda que restritos ao modelo canino e ao ambiente celular.
A literatura veterinária ainda não estabelece dose, frequência, cofatores adjuvantes ou duração de protocolo para precursores de NAD⁺ em cães e gatos. As evidências disponíveis provêm de um modelo genético específico, de um ensaio com produto combinado (senolítico + precursor) e de estudos celulares. Além disso, a comercialização de determinados precursores enfrenta restrições regulatórias variáveis entre países — aspecto que o médico-veterinário deve verificar antes de qualquer prescrição.
Três pontos merecem ênfase crítica.
Primeiro: o gargalo precisa ser identificado, não presumido. A redução do NAD⁺ é apenas uma entre muitas causas de queda de desempenho e vitalidade. Em medicina veterinária, quadros de hipotireoidismo, disfunções endócrinas, deficiências nutricionais, dor crônica de origem osteoarticular, doença renal e parasitismo devem ser excluídos antes de se atribuir o quadro à depleção de um cofator. A lógica de "medir antes de suplementar" é metodologicamente superior à reposição empírica. Vale destacar, porém, que o monitoramento preciso de NAD⁺ em tecidos de animais de companhia ainda não é uma ferramenta disponível na rotina clínica — o que reforça a necessidade de investigação diagnóstica diferencial convencional.
Segundo: a diferença entre alvo molecular e desfecho clínico. Elevar NAD⁺ é bioquimicamente factível e demonstrado. Converter essa elevação em ganho de massa muscular, melhora cognitiva ou longevidade comprovada é uma etapa distinta, ainda não vencida. O ensaio de Simon et al. (2024) ilustra bem o problema: houve sinal de benefício relatado pelo tutor, mas ausência de diferença nos testes cognitivos objetivos e melhora em todos os grupos. Confundir mecanismo com resultado é o erro central que a difusão comercial desses produtos costuma explorar.
Terceiro: a translação entre espécies é uma hipótese, não um dado. Cães e gatos são modelos potencialmente superiores a roedores pela proximidade fisiológica e pelo envelhecimento acelerado, o que favorece estudos longitudinais. Ainda assim, diferenças de farmacocinética, expressão enzimática e composição da microbiota impedem a simples importação de protocolos humanos. A rigor, nenhum protocolo veterinário baseado em NAD⁺ pode ser considerado baseado em evidências no estágio atual do conhecimento.
Do ponto de vista da medicina veterinária integrativa, a leitura mais defensável é sistêmica: NAD⁺, disbiose intestinal, inflamação crônica e capacidade antioxidante compõem um mesmo eixo fisiológico, no qual a nutrição atua como modulador e não apenas como oferta calórica. Essa perspectiva é consistente com os dados de Guo et al. (2026) no epitélio intestinal canino e abre caminho para intervenções nutricionais com alvo molecular definido — desde que avaliadas com o mesmo rigor exigido de qualquer terapêutica.
A cadeia transportadora de elétrons, o NAD⁺ e o declínio energético associado à idade formam um eixo bioquímico robusto e mensurável, com fundamentos bem estabelecidos: o elétron é a unidade de fluxo energético; o NAD⁺ é o seu carreador central; sua disponibilidade reduz-se com a idade por aumento de consumo e queda de ressíntese; e precursores exógenos elevam seus níveis com segurança demonstrada.
O que falta — e não deve ser substituído por certeza artificial — é a comprovação de desfecho clínico, especialmente em animais de companhia. A postura científica, aqui como em qualquer área, permanece a mesma: medir, individualizar e tratar o mecanismo efetivamente identificado, com transparência sobre o que é evidência e o que é hipótese.
BASHSIN, S. et al. Nicotinamide adenine dinucleotide in aging biology: potential applications and many unknowns. Endocrine Reviews, v. 44, n. 6, p. 1047-1073, 2023. DOI: 10.1210/endrev/bnad019.
CARDOSO, D. et al. Replenishing NAD+ content reduces aspects of striated muscle disease in a dog model of Duchenne muscular dystrophy. Skeletal Muscle, v. 13, 2023. DOI: 10.1186/s13395-023-00328-w.
FREEBERG, K. A. et al. Dietary supplementation with NAD+-boosting compounds in humans: current knowledge and future directions. The Journals of Gerontology: Series A, 2023. DOI: 10.1093/gerona/glad106.
GUO, X. et al. Nicotinamide mononucleotide modulates endothelin-1 via NR4A1 and histone modifications in canine intestinal epithelial cells. Animals, v. 16, n. 4, p. 591, 2026. DOI: 10.3390/ani16040591.
MASSudi, H. et al. Age-associated changes in oxidative stress and NAD+ metabolism in human tissue. PLOS ONE, v. 7, n. 7, p. e42357, 2012. DOI: 10.1371/journal.pone.0042357.
NELSON, D. L.; COX, M. M. Lehninger principles of biochemistry. 7. ed. New York: W. H. Freeman, 2017.
OXFORD, H. Molecules with pre-clinical evidence of targeting aging in multi-species models for consideration in companion animal medicine. Journal of the American Holistic Veterinary Medical Association, v. 75, p. 11-26, 2024. DOI: 10.56641/KBEV3748.
PELUSO, A. A. et al. Age-dependent decline of NAD+ — universal truth or confounded consensus? Nutrients, v. 14, n. 1, p. 101, 2021. DOI: 10.3390/nu14010101.
SIMON, K. E. et al. A randomized, controlled clinical trial demonstrates improved owner-assessed cognitive function in senior dogs receiving a senolytic and NAD+ precursor combination. Scientific Reports, v. 14, 2024. DOI: 10.1038/s41598-024-63031-w.
THOMSON, J. J. Cathode rays. The London, Edinburgh, and Dublin Philosophical Magazine and Journal of Science, v. 44, n. 269, p. 293-316, 1897.
VINTEN, K. T. et al. NAD+ precursor supplementation in human ageing: clinical evidence and challenges. Nature Metabolism, 2025. DOI: 10.1038/s42255-025-01387-7.
Claudio Amichetti Junior — CRMV 75404 Pós em Nutrição Animal · Pós em Farmacologia · Pós em Cannabis Medicinal
Recuperação ambiental com ciência: 35 anos transformando degradação em Mata Atlântica 🌳🔬
A @petclubeamigo nasceu de um projeto que une criação responsável e sustentabilidade em escala real. Em área própria, às margens da Rodovia Régis Bittencourt, em Juquitiba (SP), desenvolvemos um modelo experimental de sustentabilidade: há mais de 35 anos, o terreno era uma área degradada e sem manejo; hoje, floresce Mata Atlântica — um dos últimos refúgios dessa biodiversidade no Estado de São Paulo.
O que sustenta essa transformação:
A evidência está no território: o que era solo degradado hoje abriga biodiversidade. E a mesma constância que regenerou a paisagem é a que sustenta 35 anos de criação responsável — famílias que buscam apoio emocional na companhia de gatos de raça como o Maine Coon e o Ragdoll encontram aqui animais criados em ambiente natural, com pais robustos e equilibrados.
Roberto e Cassilda, do Rio de Janeiro, são prova viva desse ciclo: há mais de 15 anos confiam no nosso trabalho e voltaram — agora com DOIS irmãozinhos para crescerem juntos. Amizade que atravessa quilômetros porque é construída sobre respeito, credibilidade e constância.
Claudio Amichetti Júnior — Medicina Veterinária Integrativa / AGRONOMIA sustentável
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35 years of history. And they came back. 🐾💚
For more than three decades, PetClube has welcomed families looking for more than a kitten: they're looking for a companion for life. And the greatest proof of our work isn't in the numbers — it's in the people who come back.
Roberto and Cassilda are nature partners, cat lovers with giant hearts, and friends of @petclubeamigo for over 15 years. They hit the road from Rio de Janeiro to Juquitiba driven by affection, respect, and the credibility of 35 years of caring for animals and preserving nature.
Why does this friendship last so long and so many miles?
Because here we believe and live this every day: life is part of a whole. And a good relationship is a seasoning of respect, credibility, and constancy. 🏡
The experience with nature makes all the difference: our kittens grow up free-roaming, in a natural environment, with robust and well-balanced parents. That's what good families find when they seek emotional support in the company of purebred cats like the Maine Coon and the Ragdoll — true affection, raised with responsibility.
15 years later, they came back. And this time they didn't return to Rio alone: they took TWO little siblings with them, to grow up together, play together, and bring even more joy and companionship to this beautiful family.
Double happiness, for those who overflow with double love. 💚🐾🐾
Roberto and Cassilda, thank you for being part of our story. Safe journey home with your new children! Our doors are always open for you.
Want to live this experience? Get in touch and come meet PetClube. 🐱
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