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Conversas entres Cães e Gatos
Cães e gatos são os “eternos inimigos”, é Tabú.
O Petclube é exemplo de cães Amichetti e gatos Amicat´s vivendo em harmonia.A comunicação não verbal do gato e do cão é um fator importante para melhor convivência.
Existem pontos em comuns, sinais desconhecidos e até sinais com significados diferentes. Vocalizações O gato consegue emitir mais de 100 sons, enquanto que o cão só emite 10. Destas, é o rosnar e variantes as únicas em que têm em comum. O significado de uma rosnadela é igual para um gato e para um cão. Mas, enquanto o som emitido pelo gato faz com que o cão abrande ou interrompa o passo, uma rosnadela de um cão faz geralmente com que o gato fuja. Existem depois aqueles gatos mais destemidos que fazem frente aos cães, mas estes são a exceção.
Os outros sons que o gato tem a capacidade de fazer não têm tradução para o cão e vice-versa.Expressões faciais
As expressões faciais num gato e num cão são semelhantes e têm o mesmo significado. A exposição dos dentes é mau sinal, os olhos muito abertos indicam que o animal está alerta, e olhos semiabertos significam descanso.
Uma expressão facial mais distinta é a que indica que o animal está irritado e pronto a atacar: os cães voltam as orelhas para a frente, enquanto que os gatos voltam as orelhas para o lado. Apesar de poder parecer uma diferença pequena, os animais estão muito atentos a este tipo de indicações. Cauda
Tanto o cão como o gato abanam a cauda, mas o seu significado não podia ser mais oposto. Para os cães, abanar a cauda com grande amplitude indica que o animal está receptivo a brincar e funciona como um convite para os outros se aproximarem. Para o gato, abanar a cauda é sinal de caça alta.Outro desentendimento que pode ocorrer é quando a cauda está junto ao corpo. Para os cães, é sinal de submissão, para os gatos de caça iminente.
Daí que seja freqüente um cão aproximar-se de um gato e ser surpreendido com uma arranhadura. Linguagem corporal
A linguagem corporal dos cães e gatos não diverge muito, mas existem sempre sinais que dão origem a um ou outro mal entendido. Um gato encosta-se noutro animal ou pessoa para deixar o seu cheiro e é um sinal de afeição. Os cães utilizam os encontrões e os encostos para impor dominância.
Cães que comem cocô e lixo
Quando um cão começa a comer fezes, ou o lixo da casa, raramente o dono deste cão consegue lidar com isso de forma razoável. Ele vê tais comportamentos com um olhar absolutamente corrompido por preconceitos e nojos, esquecendo-se que estamos falando de um cão e não de um ser humano. Tal raciocínio raramente leva em consideração que existem aspectos fisiológicos e comportamentais que podem levam o cão a tal comportamento.
Bem, a primeira coisa que precisamos considerar é que cães são animais que comem carniça. Não sendo grandes caçadores eles, em sua vida selvagem, comumente vivem dos restos da caças de outros animais. Portanto, os canídeos têm um organismo apto a comer e digerir alimentos em decomposição, ou mais popularmente “podres”. Nesta linha, o cocô humano, canino, e mesmo o lixo doméstico estão dentro deste cardápio. É preciso, porém, saber diferenciar cada situação, e tomar as atitudes necessárias para resolver o problema ao invés de simplesmente olhar feio e reclamar.
Para um animal que come carniça, o lixo doméstico é uma fonte de grande variedade de alimentos. Um verdadeiro buffet! E se considerarmos a quantidade de condimentos e temperos que costumamos usar em nossa comida, não é difícil entender porque o lixo atrai tanto a atenção do cão. Ele não come o lixo por estar com fome! Ele ataca o lixo porque é isso que o seu instinto de sobrevivência manda fazer. A melhor solução nestes casos é comprar um lixo cuja tampa possa ser rosqueada, e portando seu cão não conseguirá abri-la.
O caso de cães que comem cocô humano, em calçadas e praças, vai quase na mesma linha. Apesar de muito decompostos, os alimentos presentes nas fezes humanas ainda são muito nutritivos e atraentes para um cão. Aqui não há muito jeito! Se você sabe de um lugar que as pessoas costumam usar como banheiro, e seu cão gosta de cocô humano você terá que mudar o local de passeio com seu cão, ou não soltá-lo da guia.
Já o caso do cão que come fezes caninas é um caso um pouco diferente. O nome científico é coprofagia. Tal sintoma pode ser determinado por vários aspectos tanto comportamentais como fisiológicos. Alguns deles já foram comentados na matéria sobre Coprofagia escrita pela adestradora Claudia Pizzolato. Porém, outros fatores também bastante importantes devem ser avaliados.
Vermes e Giárdia
Se o cão estiver com vermes ou com giárdia ele pode ter mais dificuldade em absorver os nutrientes do ração que você dá a ele, fazendo com que ele precise comer o próprio cocô para complementar sua alimentação. Mesmo que seu cão já tenha sido vermifugado, é possível que ele tenha vermes, já que o vermífugo elimina os vermes que estão no organismo no momento em que o remédio é ministrado. Ele não é preventivo! E é exatamente por tal razão é que temos que dar vermífugos regularmente para os cães. O grande problema é que os vermífugos não combatem protozoários, portanto se o seu cão estiver com giárdia, o vermífugo não resolverá o problema. O mais indicado neste caso é fazer um exame de fezes no cão para saber exatamente se existe algum verme ou protozoário, e então ministrar o remédio específico para o caso.
Fatores comportamentais
É muito comum que ao tentar ensinar o filhote a fazer cocô no lugar certo, o dono erre na mão e acabe por passar ao filhote que o fato dele “fazer cocô” é ruim e desagrada ao seu dono, invés de “fazer cocô no local errado” ser ruim. Isto acontece normalmente quando o dono, ao ver o filhote fazendo cocô no lugar errado, briga com o ele, sem conseguir mostrar que se ele fizesse o cocô no lugar certo ele seria elogiado. Isso pode acontecer tanto por falta de rapidez – ou atenção – deste dono, ou quando o cão é pequeno e faz o cocô muito rapidamente. Então não há tempo para se colocar o filhote no local certo.
Há também a situação em que o dono se depara com o cocô já feito e briga com o filhote. Neste caso, não é incomum que o filhote resolva “sumir com as provas do crime” para não ouvir bronca. Ou seja: só brigar não adianta, e pode até piorar tudo! Ou você age da forma correta, pegando o cão enquanto ele estiver fazendo o cocô e coloca-o no lugar certo, ou deixa pra lá! Limpe o cocô sem broncas ou resmungos. Ah! E não se esqueça de elogiar muito seu filhote quando ele fizer o cocô no lugar certo Também não é demais lembrar que o filhote, não tendo noção de tempo, muitas vezes nem sabe que aquele cocô no tapete é obra dele, mas certamente ele sabe que quando seu dono vê aquele montinho, a bronca sobra para ele.
Muitas vezes, ao tentarmos resolver o problema da coprofagia acabamos por incentivá-la - sem perceber. Algumas raças - tais como o lhasa apso e o shih tzu - têm tendência a comerem o próprio cocô. E não é incomum que o dono, ao se deparar com o cocô comido, brigue com o cão - até como uma forma de desabafar seu desaponto com o cãozinho. O problema é que este tipo de reação do dono gera muita confusão. Em primeiro lugar, não é difícil imaginar que o cão pode entender esta bronca não ao fato dele comer cocô - já que ele não tem consciência de que este hábito possa causar tanto asco nos humanos - e sim ao fato do cocô estar ali. Com isso, temos duas consequências: 1) o cão começa a comer o cocô para evitar que vc se chateie por achar cocô na casa; 2) estas broncas "sem motivo aparente" costumam deixar o filhote tremendamente ansioso, o que costuma provocar mais comportamentos compulsivos, tais como comer cocô. Em suma: quanto mais vc se incomoda com o problema, mais ele aumenta
Indicações:
Como já vimos acima, a coprofagia pode ser determinada por muitos fatores, e não existe uma mágica que faça tal comportamento desaparecer. Sem se analisar o que exatamente está causando tal sintoma, uma atitude errada pode não ter efeito algum, ou mascarar o real problema. Portanto, antes de qualquer medida, converse com o veterinário de sua confiança e faça um exame nas fezes de seu cão para eliminar os fatores físicos.
Não podemos deixar de comentar de filhotes que brincam com o cocô. Normalmente estes filhotes não têm brinquedos que de fato os interessem, então eles procuram outras distrações. A questão aqui é olhar com mais atenção para saber que tipo de distração seu filhote gosta, e fornecê-la a ele. Nem sempre adivinhamos que tipo de brinquedos um filhote irá gostar. O que pode ser muito atrativo para um cão, pode não fazer o menor sucesso com o outro. Portanto, aqui a solução é sempre trazer novas alternativas, não se limitando a bichinhos de borracha e bolinhas.
Existe um Floral de Bach chamado CRAB APPLE indicado para casos de coprofagia. Este floral deve ser ministrado diretamente na boca do cão, ou pingado em algum petisco canino, que o cão deve comer imediatamente. Dê 4 doses diárias de 4 gotas por 5 dias. A partir daí comece a diminuir uma dose por dia. Se o comportamento voltar, ao se diminuir as doses, passe a dar as 4 doses diárias novamente por mais 5 dias, diminuindo então uma dose por dia. Em casos de cães de raças grandes cada dose deve ser de 6 dotas
Normalmente o cão come o cocô imediatamente após tê-lo feito. É quase um ato reflexo: ele faz e come, portanto se vc puder ficar de olho no seu cão para pegá-lo no ato, ótimo: assim que ele acabar de fazer cocô, distraia-o! DÊ um petisco, ou brinque com ele para que ele "se esqueça" do cocô. Assim vc desconecta os dois atos. Se você, no entanto, só percebe a coisa quando já aconteceu, não dê muita importância. Ao se deparar com um cocô (comido ou não) recolha-o e - se possível - felicite seu cão. Com tal atitude vc fará com que ele deixe de ter medo que vc encontre o cocô dele , e muitas vezes só isso pode acabar com o problema da coprofagia.
Se vc tem nojo de brincar com seu cão, quando ele come cocô, dê um biscoito canino para ele antes de voltar a brincar. Estes biscoitos são feitos para limparem os dentes dos cães e com isso fazem as vezes de uma escova de dentes. Há, inclusive, bolachas com hortelã especialmente feitas para acabar com o mau hálito dos cães.
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A Evolução dos Gatos
Pistas genéticas no DNA de felinos selvagens do mundo todo permitiram construir com mais clareza a árvore genealógica da família dos felídeos e revelaram vários processos migratórios
por Stephen J. O`Brien e Warren E. Johnson
Elegantes e enigmáticos, os felinos desafiam não somente aqueles que dividem seu sofá com espécies menores, mas também cientistas que tentam descobrir as origens e a história evolutiva de seus primos maiores. Onde o ramo moderno da família dos felinos se desenvolveu? Quando e por que saíram de seu habitat e migraram pelos continentes? Quantas espécies existem atualmente? Quais delas estão mais intimamente relacionadas?
De modo geral, os especialistas concordam que há 37 espécies na família Felidae. No entanto, nas dezenas de esquemas de classificação existentes, alguns pesquisadores dividem as espécies de felinos em apenas dois gêneros, enquanto outros consideram até 23. Quem pode culpá-los? Todas as espécies de felinos são muito semelhantes: todos parecem apenas gatos, de grande, médio ou pequeno porte. Distinguir o crânio de um leão do de um tigre pode ser um desafio mesmo para especialistas. Todas as pesquisas genéticas que nas últimas duas décadas tentaram dividir os felinos em agrupamentos bem definidos falharam.
Nos últimos anos, no entanto, a revolução no seqüenciamento genético de vários seres vivos, induzida pelo Projeto Genoma Humano e por poderosas tecnologias de estudo do DNA, deu origem a novas ferramentas de pesquisa extremamente valiosas. Atraídos por essas novas técnicas e com o auxílio de colegas de outras instituições conseguimos finalmente construir a primeira árvore da família Felidae mais claramente resolvida. Comparando as mesmas seqüências de DNA de 30 genes de cada espécie de felino existente pudemos determinar as ramificações da árvore. Em seguida, para chegar aos períodos em que cada ramo surgiu, usamos fósseis datados de modo confiável e a análise de “relógios moleculares” – que, com base no grau de diferenciação em um dado gene, permite estimar há quanto tempo as espécies se separaram umas das outras. Assim, foi possível visualizar pela primeira vez um panorama de como felinos de todos os tamanhos se relacionam uns com os outros e como e quando esses magníficos predadores colonizaram os cinco continentes.
Percebemos imediatamente que os estudos de DNA pareciam indicar 37 espécies distribuídas em oito grupos distintos, ou linhagens. Ficamos fascinados, e ainda mais motivados, quando verificamos que os oito grupos definidos exclusivamente por análise molecular estavam de acordo com observações baseadas em outros tipos de informação. Espécies de uma mesma linhagem, por exemplo, freqüentemente compartilham características morfológicas, biológicas e fisiológicas encontradas somente em seu próprio grupo.
Há cerca de 600 milhões de gatos domésticos em todo o mundo. Fósseis de felinos são tão parecidos que é muito difícil, mesmo para os especialistas, distinguir o crânio de um leão do de um tigre
Uma das linhagens reúne todos os grandes felinos que rugem como o leão, o tigre, o leopardo, a onça e o leopardo-das-neves. Em todos eles a estrutura óssea que dá apoio à língua, chamada hióide, encontra-se parcialmente calcificada, o que permite que esses felinos rujam. Também nesse grupo estão as panteras-nebulosas e as panteras-nebulosas de Bornéu, espécie pouco conhecida de felinos de porte médio com pelagem marmoreada. Por terem os ossos do pescoço estruturados de forma um pouco diferente, esses animais não conseguem rugir.
Embora a comparação entre as seqüências genéticas tenha identificado as linhagens, a ordem de seu aparecimento e a época em que surgiram (com a ajuda de calibrações com fósseis), precisávamos de duas informações adicionais para descobrir onde os felinos surgiram pela primeira vez e como acabaram se espalhando pelo mundo. Primeiro, determinamos a distribuição atual de cada espécie e, por vestígios paleontológicos, a distribuição de seus ancestrais. Depois, valemo-nos da óptica dos geólogos, que interpretando a composição de depósitos sedimentares inferem a variação do nível dos oceanos, para enxergar melhor o mundo dos felinos. Quando os níveis eram mais baixos, pontes de terra ligavam os continentes, permitindo que os mamíferos migrassem para novos domínios. Quando as águas subiram novamente, esses animais ficaram isolados nos continentes mais uma vez. Estudos de vertebrados mostram que o isolamento em continentes ou ilhas proporciona exatamente aquilo que é necessário para a população se distanciar geneticamente de tal forma que dois grupos, mesmo com ancestrais comuns, não são mais capazes de se acasalar – afastamento reprodutivo que caracteriza a especiação. Com essas peças do quebra-cabeça, pudemos construir uma seqüência plausível das migrações dos felídeos ao longo da história.
Com base em registros fósseis apenas, muitos pesquisadores acreditavam que um felídeo chamado Pseudaelurus, que viveu na Europa entre 9 milhões e 20 milhões de anos atrás, era o último ancestral comum dos felinos modernos. Note-se que o Pseudaelurus não foi o primeiro felino. Sabe-se que grandes felinos dente-de-sabre, chamados nimravídeos, viveram em épocas mais remotas, há cerca de 35 milhões de anos, mas praticamente todos os seus descendentes estão extintos. Nossas pesquisas moleculares recentes, no entanto, sugerem que todos os felinos modernos descendem de apenas uma das várias espécies de Pseudaelurus que viveram na Ásia há cerca de 11 milhões de anos. Embora não saibamos ao certo a espécie exata a que esse gato pertenceu, acreditamos que foram desse grupo ancestral tanto o Adão quanto a Eva das 37 espécies de felídeos contemporâneas.
Os primeiro grupo se ramificou há aproximadamente 10,8 milhões de anos, produzindo a linhagem pantera (ver tabela acima), que hoje abrange os grandes felinos rugidores e as duas espécies de panteras-nebulosas. Uma segunda divisão, cerca de 1,4 milhão de anos mais tarde, e também na Ásia, levou à linhagem do gato-da-baía, hoje formada por três pequenos felinos que evoluíram e ainda vivem no sudeste asiático. A separação seguinte formou a linhagem do caracal, hoje representada por três espécies de porte médio cujos progenitores cruzaram a África entre 8 milhões e 10 milhões de anos atrás, participando da primeira migração intercontinental (ver M1 no mapa superior da pág. 60). Nesse período, o nível dos oceanos desceu 60 metros abaixo do atual, descobrindo pontes de terra nas extremidades do mar Vermelho, ligando a África à península da Arábia e facilitando a migração desses animais para o continente africano.
Leões, tigres, onças e leopardos são os únicos felinos que rugem. Um osso parcialmente calcificado na garganta, chamado hióide, permite que eles rujam
Os felinos migraram porque seu comportamento exige que se espalhem a cada geração. Quando chegam à adolescência, machos – e eventualmente fêmeas – jovens são forçados a abandonar seu local de origem. Assim, ao longo do tempo, populações crescentes de felinos precisaram de territórios cada vez maiores. Esse comportamento, somado à necessidade de - seguir presas migratórias, provavelmente explica por que os felinos se deslocaram. Eles também são predadores extremamente habilidosos que sempre aproveitam as oportunidades de explorar novos espaços.
Quando alcançaram a África, os felinos asiáticos se espalharam por seu continente e atravessaram o estreito de Bering, chegando ao que é, hoje, o Alasca (M2). Quando felinos já rondavam pela Ásia, Europa, África e América do Norte, o nível dos oceanos voltou a subir, separando os continentes. Com o isolamento e as mudanças de habitats, novas espécies foram surgindo. Na América do Norte, as linhagens da jaguatirica e do lince se separaram dos migrantes originais entre 8 milhões e 7,2 milhões de anos atrás. A linhagem da jaguatirica acabou se dividindo em duas espécies e o outro grupo produziu quatro: três de linces e o lince vermelho. A linhagem do puma formou-se há 6,7 milhões de anos, dando origem ao puma (também chamado de leão-da-montanha ou onça-parda), ao gato-mourisco e ao guepardo americano. Fósseis dessas espécies em depósitos americanos confirmam sua origem no hemisfério ocidental.
Entre 2 milhões e 3 milhões de anos atrás, uma nova era do gelo fez com que os oceanos recuassem mais uma vez (também por causa da movimentação de massas de terra), o suficiente para ligar as Américas do Sul e do Norte através do istmo do Panamá. Alguns felinos migraram para o sul (M3), onde encontraram um continente sem carnívoros placentários (como ursos, cães, gatos, gambás etc.). A América do Sul permaneceu isolada das massas de terra do norte durante dezenas de milhões de anos e estava repleta de espécies de marsupiais, incluindo variedades bem-sucedidas de carnívoros. Mas quando os felinos atravessaram o Panamá, já tinham se tornado predadores temíveis. Os carnívoros marsupiais não foram páreo para eles. Praticamente todos eles foram rapidamente substituídos por carnívoros migrantes, como os felinos da linhagem das jaguatiricas, que se diversificaram ainda mais nesse novo lar, criando sete espécies que ainda sobrevivem na América do Sul.
Como a última era do gelo tinha terminado há cerca de 12 mil anos, as camadas de gelo que cobriam todo o Canadá e a parte norte dos Estados Unidos foram derretendo lentamente, transformando essas paisagens estéreis em florestas e prados verdejantes. Após o degelo, um cataclismo dizimou 40 espécies de mamíferos da América do Norte. As chamadas extinções do Pleistoceno eliminaram 75% dos animais de grande porte que lá viviam: mamutes, mastodontes, lobos pré-históricos, poderosos ursos-de-cara-achatada, preguiças-gigantes, leões americanos, felinos dente-de-sabre, pumas e guepardos. Todos teriam desaparecido da América do Norte depois desse período. Os guepardos escaparam da extinção porque vários milhões de anos antes, quando os oceanos ainda estavam baixos, alguns de seus ancestrais retornaram para a Ásia (ver M4 no mapa inferior da pág. 60) e depois para a África (M5). Os pumas escaparam da extinção em refúgios na América do Sul e voltaram a povoar a América do Norte muitas gerações depois. Outras espécies nunca retornaram.
A Jornada Continua
Praticamente ao mesmo tempo que os guepardos trilharam seu caminho de volta da América para a Ásia, as linhagens precursoras do gato leopardo e do gato doméstico também atravessaram a ponte de terra de Bering para a Ásia. Como resultado, a linhagem do gato leopardo produziu o gato leopardo asiático e quatro pequenas espécies: gato leopardo indiano ou gato-ferrugem, encontrado na Índia, gato-de-pallas, na Mongólia, gato-de-cabeça-chata, na Indonésia, e gato-pescador, espalhado pela Ásia.
Ainda na Ásia, durante esse período, os grandes felinos rugidores da linhagem pantera se espalharam ainda mais. Tigres de 320 kg podiam ser encontrados na Índia, Indochina, sudeste asiático e China, e, no norte e oeste da Ásia central, os leopardos-das-neves se adaptaram às altitudes do Himalaia e de Altai (a leste da Sibéria). Os leopardos se espalharam pela Ásia e pela África, onde são encontrados atualmente. Os leões e as onças viajaram para a América do Norte durante o fim do Plioceno, entre 3 milhões e 4 milhões de anos atrás. Embora as extinções do Pleistoceno tenham eliminado ambas as espécies da América do Norte, as onças fugiram para a América do Sul e os leões encontaram na África um continente hospitaleiro. Lá, o rei dos animais hoje luta para sobreviver: sua população não ultrapassa os 30 mil indivíduos. Na Ásia, os leões estão praticamente extintos. Somente uma pequena população remanescente de cerca de 200 leões asiáticos, totalmente nativa, sobrevive no Santuário da Floresta de Gir, na província de Gujarat, a oeste da Índia.
Nossas análises genéticas também revelaram fortes evidências de uma quase extinção dos tigres. Há cerca de 73 mil anos, erupções violentas do vulcão Toba, em Bornéu, aniquilaram várias espécies de mamíferos no leste da Ásia, incluindo uma população de tigres largamente disseminada. Um pequeno grupo de tigres sobreviveu e repovoou a região – a falta de diversidade genética entre seus descendentes modernos indica que o grupo de animais que sobreviveu para dar continuidade à linhagem era mesmo muito pequeno. Como os guepardos e os pumas na América do Norte, os tigres escaparam por um triz.
Na Nossa Sala de Visitas
O ato final na jornada dos felinos, da natureza para nossa casa, começou nas florestas e desertos próximos à bacia mediterrânea. Lá, um punhado de espécies pequenas (pesando menos de 10 kg) havia emergido gradativamente – o gato-da-selva do leste asiático, o gato-do-deserto do oriente médio, o gato-de-patas-negras da África e uma espécie onipresente de gato selvagem com quatro subespécies bem reconhecidas (européia, centro-asiática, do leste próximo e chinesa). Uma dessas subespécies deu origem a um dos mais bem-sucedidos experimentos da história – o da domesticação dos gatos. Um estudo de genética molecular sobre gatos domésticos e selvagens do mundo todo feito por Carlos Driscoll, da University of Oxford, veio esclarecer esse processo. Todos os gatos domésticos carregam uma assinatura genética compatível com a dos gatos selvagens de Israel e do leste próximo.
Agora podemos afirmar que o gato foi domesticado em diferentes ocasiões, todas entre 8 mil e 10 mil anos atrás, na região do Crescente Fértil (nordeste da África), à medida que populações humanas nômades começaram a se reunir em pequenos povoados em torno dos primeiros assentamentos agrícolas. Esses antigos fazendeiros cultivavam trigo e cevada. Os gatos selvagens da região, talvez atraídos pela grande quantidade de roedores, atraídos, por sua vez, pelos grãos cultivados, aparentemente “se ofereceram” como companheiros cautelosos, ganhando abrigo em troca da eliminação dos roedores. O número crescente de gatos selvagens já domesticados proliferou naturalmente e, desde então, seu destino se uniu definitivamente ao dos humanos.
Esses animais ainda empreenderam uma nova migração. Ela teve início primeiro a pé, depois passou para os vagões de trens e finalmente para os navios transoceânicos, espalhando os gatos domesticados pelo mundo. Cerca de 600 milhões de gatos domésticos vivem hoje no planeta – praticamente a única espécie de felino não considerada ameaçada ou em perigo de extinção pelas organizações de preservação. No século XIX, os donos de gatos tentaram fazer com que seus bichanos se acasalassem de forma seletiva, para produzir animais exóticos. A Associação Americana de Gatos Raros catalogou 41 raças oficiais de gatos, dos maine coon aos siameses, todos com raízes que remontam ao nascimento da civilização humana e felina na região do Crescente Fértil.
A história evolutiva decorrente de nossos estudos sobre as famílias de felinos serve como prenúncio para o campo ainda muito recente da “pré-história genética”. Como no caso dos felinos, os padrões de variação genética que cada espécie carrega contêm sinais de seus parentescos, migrações, dizimações e expansões por todo o planeta.
CONCEITOS-CHAVE
A história da família dos felinos é obscura porque os fósseis desses animais são esparsos e é difícil distingui-los. Mas avanços no estudo do DNA permitiram que a primeira árvore genealógica da família dos felídeos fosse construída de forma clara.
Evidências no DNA mostram que todos os felinos existentes carregam os mesmos traços de um predador semelhante à pantera que viveu no sudeste asiático há cerca de 10,8 milhões de anos. Os grandes felinos rugidores foram os primeiros a se ramificar, seguidos por outras sete linhagens.
Quando o nível dos oceanos variou, os felinos migraram para novos continentes, dando origem a novas espécies. Um pequeno gato selvagem foi domesticado no leste próximo entre 8 mil e 10 mil anos atrás.
Apesar de seu sucesso evolutivo, hoje quase todas as espécies de felinos selvagens estão ameaçadas. – Os editores.
RESOLVENDO O QUEBRA-CABEÇA
KRISTINA NARFSTRÖM
FILHOTES DE MAINE COON A VENDA
Historicamente, os taxonomistas sempre tiveram dificuldade em classificar as famílias de felinos porque os registros fósseis são dispersos e é difícil distinguir, no fóssil, uma espécie da outra. Ao analisar o DNA de todas as 37 espécies vivas, os autores conseguiram distinguir oito linhagens na família de felídeos. O DNA foi obtido da coleta de amostras de sangue ou de tecido de cada uma das espécies. Não foi fácil obter todas elas, porque algumas espécies são raras e vivem em locais remotos. Os taxonomistas também analisaram sete espécies “fora do grupo”, parentes próximos dos gatos, da família Viverridae, do gato-almiscarado e do mangusto. Essas espécies forneceram a linha de referência para que as divergências encontradas entre os dados, na família Felidae, fossem estimadas.
Os cientistas analisaram o DNA dos cromossomos X e Y e das mitocôndrias (partes da célula que geram energia e são transmitidas através da linha materna). Eles se concentraram na seqüência de DNA de 30 genes diferentes, ao todo 22.789 letras de nucleotídeos para cada espécie de felino. Praticamente a metade dessas seqüências é variável ao longo das diferentes espécies. É nessas diferenças que os investigadores se baseiam para determinar o parentesco entre os grupos e em que época eles surgiram. Os genes acumulam mudanças ao longo do tempo. Se não forem prejudiciais, essas mudanças persistem. Assim, uma espécie que emerge primeiro tem mais tempo para seus genes sofrerem mudanças e apresentar maior variação em um certo gene. Então é possível afirmar com segurança que espécies cujos genes compartilham mudanças iguais estão mais próximas.
Como a análise do DNA permitiu que os pesquisadores esclarecessem os nós das ramificações ou “forquilhas” na árvore da família dos felídeos, eles se concentraram na análise dos fósseis, para estimar quando realmente aconteceram. A idade de dezenas de fósseis de felinos ancestrais foram determinadas por paleontólogos utilizando métodos de datação.
Certos fósseis de felinos considerados elos perdidos (ancestrais comuns mais recentes de grupos como o dos grandes felinos, linces ou jaguatiricas) forneceram 16 datas para pontos específicos de ramificação na árvore genealógica dos felídeos. Em seguida, programas matemáticos de computador baseados em um relógio molecular acumulativo contínuo transformaram os dados genéticos em estimativas do tempo transcorrido após cada nó de divergência. (A idéia do relógio molecular pressupõe que algumas mudanças evolutivas ocorreram a uma taxa regular. Por exemplo, mutações podem ser incorporadas ao DNA de genes a uma taxa constante ao longo de milhões de anos. Assim, diferenças no DNA podem estimar a data em que duas linhagens se separaram de um ancestral comum.)
A contribuição mais recente foi o seqüenciamento genético completo de um gato da Abissínia batizado Cinnamon (“Canela”). O seqüenciamento de Cinnamon, juntamente com o de outras 32 espécies de mamíferos (incluindo humanos, camundongos, cachorros, vacas, elefantes e representantes da maioria das ordens de mamíferos), forneceu um conjunto quase ilimitado de informação genética ao longo dos 100 milhões de anos de história mamíferos modernos. – Os editores
Stephen J. O`Brien e Warren E. Johnson Depois de obter doutorado em genética na Cornell University em 1971, Stephen J. O’Brien concluiu seu pós-doutorado no National Cancer Institute (NC I). Hoje é chefe do Laboratório de Diversidade Genômica do NC I, que ele fundou no final dos anos 80. Este é seu quarto artigo para a Scientific American. Seus livros mais recentes são: Tears of the cheetah and other tales from the genetic frontier (St. Martin’s Press, 2003) e Atlas of mammalian chromosomes (Wiley, 2006). Warren E.Johnson obteve seu doutorado em ecologia animal na Iowa State University em 1992 e no mesmo ano foi trabalhar no Laboratório de Diversidade Genômica.
Multimídia
Veja a fascinante ramificação da árvore genealógica dos felinos.
http://www2.uol.com.br/sciam/multimidia/a_evolucao_dos_gatos.html
PARA SABER MAIS
Wild cats of the world. M. Sunquist e F. Sunquist. University of Chicago Press, 2002.
Tears of the cheetah and other tales from the genetic frontier. S. J. O’Brien. St. Martin’s Press, 2003.
Phylogeography and conservation genetics of tigers (Panthera tigris). S. J. Luo e colegas, em PLoS Biology, vol. 2, págs. 2277-2293, 2004.
Big cat genomics. S. J. O’Brien e W. E. Johnson, em Annual Reviews of Genomic and Human Genetics, vol. 6, págs. 407-429, 2005.
The late Miocene radiation of modern Felidae: a genetic assessment. W. E. Johnson, E. Eizirik, W. J. Murphy, J. Pecon-Slattery, A. Antunes, E. Teeling e S. J. O’Brien, em Science, vol. 311, págs. 73-77, 2006.
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