Revista Científica Medico Veterinária Petclube Cães Gatos - Inflamação

Inflamação

Inflamação

  • CÉLULAS T REGULATÓRIAS (TREGS), MICROBIOTA, OBESIDADE E RESISTÊNCIA INSULÍNICA EM CÃES E GATOS: UMA REVISÃO INTEGRATIVA E PERSPECTIVAS FUTURAS

    CÉLULAS T REGULATÓRIAS (TREGS), MICROBIOTA, OBESIDADE E RESISTÊNCIA INSULÍNICA EM CÃES E GATOS: UMA REVISÃO INTEGRATIVA E PERSPECTIVAS FUTURAS

    Autor: 

    Dr. Cláudio Amichetti Júnior¹,²

    ¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
    ² [Afiliação Institucional  Petclube, São Paulo, Brasil] email: dr.claudio.amichetti@gmail

    RESUMO: As células T regulatórias (Tregs), cuja importância foi seminalmente descrita por Shimon Sakaguchi em 1995, são elementos cruciais na manutenção da tolerância imunológica e no controle da inflamação. Em modelos humanos e murinos, disfunções ou alterações na frequência de Tregs estão intrinsecamente ligadas à inflamação metabólica crônica e à resistência insulínica, condições frequentemente associadas à obesidade. Na medicina veterinária, embora o corpo de evidências diretas sobre Tregs e obesidade em cães e gatos ainda esteja em expansão, já existem dados robustos sobre a caracterização e presença dessas células, bem como estudos que delineiam o perfil imunológico e metabólico em animais de companhia obesos. Esta revisão integrativa explora esses achados, discute os mecanismos imunometabólicos subjacentes e propõe a plausibilidade de processos análogos em pets, destacando a necessidade de futuras investigações e a potencial aplicação de terapias moduladoras.

    Palavras-chave: Obesidade, Cães, Gatos, Tregs, Resistência Insulínica, Microbiota, Imunometabolismo, FOXP3, Inflamação Crônica.


    1. INTRODUÇÃO

    A obesidade representa atualmente a enfermidade nutricional mais prevalente em animais de companhia, atingindo uma proporção alarmante de até 60% dos cães e 50% dos gatos em determinadas populações (dados de prevalência, citar estudos relevantes). A crescente incidência desta condição em pets espelha a crise de saúde pública observada em humanos, onde a obesidade é reconhecida como um estado de inflamação crônica de baixo grau.

    Em modelos humanos e murinos, a obesidade é caracterizada por uma complexa cascata de eventos patofisiológicos, incluindo a redução funcional e/ou numérica das células T regulatórias (Tregs), o aumento de citocinas pró-inflamatórias (como IL-6 e TNF-α), disbiose intestinal e o desenvolvimento de resistência insulínica (RI). A descoberta e caracterização das Tregs por Shimon Sakaguchi e sua equipe estabeleceram um novo paradigma na imunologia, revelando como o sistema imune orquestra a tolerância e controla a inflamação sistêmica – um mecanismo que se provou central no campo emergente do imunometabolismo.

    Na medicina veterinária, o reconhecimento da obesidade como uma doença multissistêmica tem estimulado pesquisas que começam a caracterizar as Tregs em cães e gatos e a investigar a inflamação associada à obesidade. Este avanço abre caminho para a translação do modelo imunometabólico para a clínica de pets, oferecendo novas perspectivas para o entendimento e manejo dessa complexa condição.


    2. CÉLULAS T REGULATÓRIAS (TREGS) E SUA FUNÇÃO IMUNOLÓGICA

    As Tregs são uma subpopulação de linfócitos T CD4+CD25+ que se distinguem pela expressão constitutiva do fator de transcrição FOXP3, considerado o "fator mestre" e marcador mais específico da linhagem Treg. A expressão de FOXP3 é essencial para o desenvolvimento e função supressora destas células.

    As principais funções das Tregs incluem:

    • Supressão da inflamação: Mediada primariamente pela secreção de citocinas imunossupressoras como a Interleucina-10 (IL-10) e o Fator de Crescimento Transformador-beta (TGF-β), que inibem a ativação e proliferação de outras células imunes.
    • Controle da ativação excessiva de células T efetoras: Previnem respostas imunes autoagressivas e inflamação descontrolada, mantendo a homeostase.
    • Regulação da resposta imune à microbiota: Desempenham um papel crucial na manutenção da tolerância à microbiota comensal no intestino, prevenindo reações inflamatórias indesejadas.
    • Proteção contra autoimunidade e inflamação crônica: Sua disfunção é frequentemente associada ao desenvolvimento de doenças autoimunes e à exacerbação de condições inflamatórias crônicas.

    O trabalho seminal de Sakaguchi e colaboradores demonstrou que a depleção ou disfunção das Tregs leva a inflamação sistêmica desregulada, manifestações autoimunes graves e, mais recentemente, a distúrbios metabólicos. Em modelos obesos, a redução na frequência e/ou função de Tregs, particularmente no tecido adiposo visceral (TAV), é um fator chave que contribui para o desenvolvimento da resistência insulínica e a progressão da doença metabólica.


    3. MICROBIOTA, LPS E INFLAMAÇÃO METABÓLICA

    A composição da dieta exerce uma profunda influência sobre a microbiota intestinal. Dietas ricas em carboidratos refinados e com baixo teor de proteínas e fibras – frequentemente encontradas em rações comerciais de baixa qualidade – podem induzir uma alteração desfavorável na composição da microbiota, um estado conhecido como disbiose. Esta disbiose favorece a proliferação de bactérias Gram-negativas.

    As bactérias Gram-negativas possuem em sua parede celular um potente componente inflamatório: o lipopolissacarídeo (LPS). O aumento da permeabilidade intestinal, frequentemente associado à disbiose, permite a translocação de LPS para a circulação sistêmica. Uma vez no sistema circulatório, o LPS atua como uma endotoxina, ativando receptores Toll-like 4 (TLR4) em células imunes (como macrófagos) e adipócitos. Essa ativação de TLR4 desencadeia uma cascata de sinalização intracelular que culmina na ativação de vias pró-inflamatórias, como a via do NF-κB, caracterizando a inflamação metabólica.

    As consequências dessa ativação no imunometabolismo são multifacetadas e incluem:

    • Aumento na produção de citocinas pró-inflamatórias: Notavelmente IL-6 e TNF-α, que são potentes indutores de resistência à insulina.
    • Inibição direta da via de sinalização da insulina: As citocinas pró-inflamatórias e a ativação de TLR4 interferem nas moléculas-chave da via da insulina, como o substrato do receptor de insulina 1 (IRS-1) e a proteína quinase B (AKT), levando à diminuição da translocação de GLUT4 e, consequentemente, à menor captação de glicose pelas células.
    • Redução da sensibilidade à insulina: O resultado final desses eventos moleculares é a resistência à insulina nos tecidos periféricos (adiposo, muscular e hepático).
    • Potencial redução da estabilidade e função de Tregs: O ambiente inflamatório crônico pode comprometer a sobrevivência e a capacidade supressora das Tregs, criando um ciclo vicioso de inflamação e disfunção imunometabólica.

    Este processo, conhecido como endotoxemia metabólica, tem sido bem documentado em humanos e roedores obesos e as evidências emergentes sugerem um mecanismo análogo em cães e gatos, ressaltando a universalidade dos princípios imunometabólicos.


    4. EVIDÊNCIAS VETERINÁRIAS SOBRE TREGS E OBESIDADE

    Embora a pesquisa em imunometabolismo veterinário seja mais recente, estudos importantes já fornecem bases sólidas para a compreensão do papel das Tregs na saúde e doença de pets.

    4.1 Evidência em Cães Um estudo comparando cães obesos e cães com peso saudável revelou alterações significativas no perfil imunológico e metabólico dos animais obesos. Estes incluíram a presença de inflamação sistêmica (medida por marcadores inflamatórios séricos) e um aumento acentuado nos níveis de leptina. A hiperleptinemia é particularmente relevante, pois em modelos humanos e roedores, a leptina em níveis elevados pode exercer efeitos pró-inflamatórios e, mais importante, foi demonstrado que inibe a proliferação e a função supressora das Tregs. Outro estudo pivotal caracterizou fenotipicamente as Tregs caninas, identificando-as como células CD4+CD25+FOXP3+. Este trabalho não apenas confirmou a existência de Tregs em cães, mas também estabeleceu uma metodologia robusta para sua identificação, abrindo caminho para investigações imunometabólicas mais aprofundadas na espécie. Adicionalmente, investigações sobre programas de perda de peso em cães obesos demonstraram que a redução da gordura corporal resulta em melhora significativa de parâmetros imunológicos e na atenuação da inflamação sistêmica, corroborando a ligação entre adiposidade e estado inflamatório.

    Interpretação: A presença de inflamação de baixo grau e hiperleptinemia em cães obesos, aliada à capacidade da leptina de modular negativamente as Tregs em outras espécies, sugere fortemente a plausibilidade de disfunção ou redução de Tregs em cães obesos. Embora a medição direta de FOXP3 no tecido adiposo de cães obesos ainda seja uma lacuna, as evidências indiretas apontam para um cenário análogo ao dos modelos humanos e murinos.

    4.2 Evidência em Gatos Em felinos, estudos de biologia molecular e imunologia clonaram e caracterizaram o gene FOXP3, confirmando a existência de Tregs felinas funcionalmente ativas. Além disso, trabalhos têm investigado a infiltração de células FOXP3+ em tecidos inflamatórios felinos (por exemplo, em doenças relacionadas ao vírus da imunodeficiência felina - FIV), demonstrando sua relevância na modulação da resposta imune em diferentes contextos patológicos. Embora estudos diretos que liguem especificamente Tregs à obesidade felina ainda sejam limitados, o perfil inflamatório da obesidade em gatos está bem documentado. Gatos obesos frequentemente apresentam aumento de citocinas pró-inflamatórias (IL-6, TNF-α), hiperinsulinemia, aumento do índice HOMA-IR (um marcador de resistência à insulina) e desregulação de adipocinas.

    Interpretação: O quadro inflamatório e metabólico observado em gatos obesos é altamente compatível com o modelo de disfunção ou depleção funcional de Tregs descrito em humanos e roedores. Isso sugere que as Tregs felinas podem desempenhar um papel crítico na patogênese da obesidade e resistência insulínica, representando uma área de pesquisa emergente e promissora na medicina felina.


    5. MECANISMOS IMUNOMETABÓLICOS: A INTEGRAÇÃO ENTRE TREGS, INFLAMAÇÃO E SENSIBILIDADE À INSULINA

    O tecido adiposo, especialmente o visceral, não é meramente um reservatório de energia, mas um órgão endócrino e imunológico altamente ativo. Em condições de obesidade, este tecido sofre um remodelamento significativo que contribui diretamente para a inflamação metabólica e a resistência insulínica.

    5.1 Disfunção Imune no Tecido Adiposo Obeso:

    • Redução de Tregs: Observa-se uma diminuição na proporção e/ou função de Tregs no tecido adiposo visceral de indivíduos obesos (humanos e roedores). A ausência dessas células supressoras permite um ambiente mais pró-inflamatório.
    • Infiltração e Ativação de Macrófagos M1: O tecido adiposo obeso é caracterizado pela infiltração de macrófagos, que adquirem um fenótipo M1 pró-inflamatório. Estes macrófagos produzem grandes quantidades de citocinas pró-inflamatórias.
    • Aumento de Citocinas Inflamatórias: O desequilíbrio entre células imunes (menos Tregs, mais macrófagos M1) leva a um aumento significativo de TNF-α, IL-6 e outras citocinas, que promovem um estado inflamatório crônico.

    5.2 Efeito da Inflamação na Sinalização de Insulina: As citocinas pró-inflamatórias e a ativação de TLR4 por LPS exercem efeitos deletérios diretos sobre a sinalização da insulina. O TNF-α, por exemplo, pode induzir a fosforilação em serina/treonina do IRS-1, em vez da fosforilação em tirosina necessária para a sinalização da insulina. Isso bloqueia a via do IRS-1/AKT, comprometendo a translocação de GLUT4 e a captação de glicose.

    5.3 O Papel de AMPK e mTOR: As vias da AMPK (AMP-activated protein kinase) e mTOR (mammalian Target of Rapamycin) são centrais na regulação do metabolismo celular e da resposta imune.

    • AMPK: É um sensor energético que se ativa em condições de baixo status energético (ex: exercício, restrição calórica). Sua ativação geralmente promove sensibilidade à insulina, lipólise e autofagia, e tem efeitos anti-inflamatórios. Tregs, sob certas condições, dependem da AMPK para sua função e estabilidade.
    • mTOR: É um complexo proteico que integra sinais de nutrientes e fatores de crescimento. A ativação crônica da via mTOR (especialmente mTORC1) em condições de obesidade e abundância nutricional pode promover inflamação, inibir a autofagia e exacerbar a resistência insulínica. Além disso, a via mTOR é crucial para a proliferação e diferenciação de células T efetoras, e sua modulação é fundamental para a função Treg.

    Em um ambiente obeso e inflamatório, a disfunção dessas vias (ex: inibição da AMPK, ativação desregulada da mTOR) pode perturbar o balanço imunometabólico, prejudicando ainda mais a função das Tregs e perpetuando a resistência à insulina.

    Diagrama Conceitual do Imunometabolismo em Obesidade (para ilustração):

    Poderíamos ilustrar este ciclo com um diagrama de fluxo mostrando: Início: Dieta desequilibrada (ricos em carboidratos refinados) → Disbiose intestinal → Aumento de bactérias Gram-negativas → Aumento de LPS → Translocação de LPS para circulação. Via Imunológica: LPS ativa TLR4 → Ativação de NF-κB → Produção de citocinas pró-inflamatórias (IL-6, TNF-α). No Tecido Adiposo: Inflamação e fatores como leptina → Redução da frequência/função de Tregs (CD4+FOXP3+). Sinalização de Insulina: Citocinas inflamatórias → Fosforilação inibitória de IRS-1 → Inibição da via AKT → Redução da translocação de GLUT4 → Resistência Insulínica. Ciclo Vicioso: Resistência Insulínica e ambiente inflamatório → Impacto negativo na estabilidade e função de Tregs/AMPK/mTOR → Perpetuação da inflamação e RI.

    Estudos em modelos experimentais (humanos e murinos) demonstram que a restauração da frequência e função das Tregs, seja por manipulação farmacológica ou dietética, pode reverter a resistência insulínica e atenuar a inflamação sistêmica.

    Aplicação para Pets: Considerando que cães e gatos obesos manifestam características de inflamação de baixo grau, disbiose e resistência insulínica, é biologicamente plausível e altamente provável que o mesmo modelo imunometabólico opere nessas espécies: uma diminuição ou disfunção das Tregs contribui para um ambiente pró-inflamatório, que por sua vez exacerba a resistência insulínica, criando um ciclo patológico.


    6. IMPLICAÇÕES CLÍNICAS E ESTRATÉGIAS TERAPÊUTICAS EM MEDICINA VETERINÁRIA

    O entendimento dos mecanismos imunometabólicos oferece novas avenidas para a prevenção e tratamento da obesidade e suas comorbidades em pets.

    6.1 Manejo Dietético A dieta é um pilar fundamental. Dietas com excesso de carboidratos, típicas de muitas rações comerciais, contribuem para:

    • Microbiota disbiótica, favorecendo a proliferação de bactérias produtoras de LPS.
    • Aumento da produção de LPS e translocação, desencadeando inflamação sistêmica.
    • Indução de resistência insulínica e potencial supressão da função Treg.

    Em contrapartida, dietas de alta proteína e baixo carboidrato (mimetizando o perfil carnívoro natural de cães e gatos), têm demonstrado melhorar parâmetros glicêmicos, reduzir níveis de leptina e modular favoravelmente marcadores inflamatórios em pets obesos. A redução da carga glicêmica e a otimização da composição de macronutrientes são estratégias cruciais.

    6.2 Perda de Peso A perda de gordura visceral, um dos locais mais ativos da inflamação metabólica, é a intervenção mais eficaz. Em cães, programas de emagrecimento comprovadamente reduzem a inflamação sistêmica e melhoram parâmetros metabólicos e imunológicos. A normalização do peso corporal pode restaurar a homeostase do tecido adiposo, potencialmente permitindo a recuperação da função Treg.

    6.3 Modulação da Microbiota Intestinal A modulação da microbiota visa combater a disbiose e reduzir a endotoxemia metabólica:

    • Prebióticos: Fibras fermentáveis (como beta-glucanos e FOS/MOS) podem promover o crescimento de bactérias benéficas e a produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs), que possuem efeitos anti-inflamatórios e podem modular positivamente a função Treg.
    • Probióticos específicos: Cepas probióticas selecionadas podem ajudar a restaurar o equilíbrio da microbiota, fortalecer a barreira intestinal e reduzir a translocação de LPS.
    • Dietas com carne fresca/minimamente processadas: Podem melhorar a diversidade e o perfil metabólico da microbiota, em contraste com dietas baseadas em processados.

    6.4 Terapias Integrativas e Suplementação A modulação do eixo imune-intestino-metabolismo representa uma área promissora para o desenvolvimento de terapias adjuvantes:

    • Ácidos graxos essenciais e ômega-3 (EPA/DHA): Possuem potentes propriedades anti-inflamatórias, podem modular a composição da membrana celular e influenciar vias de sinalização que afetam tanto a inflamação quanto a sensibilidade à insulina.
    • Compostos anti-inflamatórios naturais: Curcumina, resveratrol, polifenóis, entre outros, têm sido estudados por seus efeitos na modulação de vias inflamatórias e no suporte à função metabólica.
    • Futuro papel dos imunomoduladores: À medida que o entendimento das Tregs em pets avança, a possibilidade de terapias imunomoduladoras específicas para otimizar a função Treg em animais obesos pode se tornar uma realidade.

    **<table class="data-table"> <th scope="col">Características <th scope="col">Humanos/Roedores Obesos <th scope="col">Cães/Gatos Obesos Prevalência de Obesidade Alta e crescente Alta e crescente (até 60% cães, 50% gatos) Inflamação Crônica Sim (aumento IL-6, TNF-α) Sim (aumento IL-6, TNF-α, outros marcadores) Resistência Insulínica Sim (aumento HOMA-IR, hiperinsulinemia) Sim (aumento HOMA-IR, hiperinsulinemia) Disfunção/Redução de Tregs no TAV Evidência robusta e direta Evidência indireta (via leptina) e caracterização fenotípica existente Disbiose Intestinal Frequentemente associada Frequentemente associada, impacto da dieta Endotoxemia Metabólica (LPS) Bem documentada Plausível, com evidências crescentes Hiperleptinemia Sim, inibe Tregs Sim, sugere inibição de Tregs Melhora com Perda de Peso Redução de inflamação e RI Redução de inflamação e melhora metabólica

    **


    7. LACUNAS E PERSPECTIVAS FUTURAS

    Apesar dos avanços, existem lacunas significativas na pesquisa veterinária que precisam ser abordadas para consolidar o papel das Tregs na obesidade de pets. A principal lacuna reside na falta de estudos diretos que quantifiquem a frequência e avaliem a função supressora das Tregs no tecido adiposo visceral de cães e gatos obesos, comparando-os com animais saudáveis e acompanhando as mudanças após intervenções como a perda de peso.

    Pesquisas futuras deveriam focar em:

    • Caracterização funcional de Tregs: Além da identificação fenotípica (FOXP3+), é crucial avaliar a capacidade supressora das Tregs em culturas in vitro em animais obesos versus magros.
    • Localização e quantificação: Determinar a distribuição e o número de Tregs em diferentes tecidos (adiposo visceral, subcutâneo, linfonodos mesentéricos) em estados de peso normal e obesidade.
    • Estudos de intervenção: Avaliar como a modulação da dieta (ex: alto teor proteico, baixo carboidrato), o uso de prebióticos/probióticos e a perda de peso impactam diretamente o perfil e a função das Tregs em pets.
    • Estudo das vias moleculares: Investigar o impacto da obesidade e da inflamação na ativação das vias AMPK e mTOR em Tregs e em outras células do tecido adiposo em cães e gatos.

    A superação dessas lacunas permitirá a validação completa dos modelos imunometabólicos em pets e abrirá caminho para o desenvolvimento de biomarcadores e terapias direcionadas para a modulação imunológica no manejo da obesidade.


    8. CONCLUSÃO

    As descobertas de Shimon Sakaguchi sobre as células T regulatórias revolucionaram nossa compreensão das doenças inflamatórias e metabólicas. Embora a medicina veterinária esteja apenas começando a desvendar a complexa interação entre Tregs, microbiota, obesidade e resistência insulínica em cães e gatos, as evidências atuais são convincentes. Já temos:

    1. A caracterização completa de Tregs em cães e gatos, confirmando sua presença e marcadores.
    2. Estudos veterinários que demonstram claramente a inflamação metabólica e a resistência insulínica na obesidade de pets.
    3. Modelos imunometabólicos robustamente estabelecidos em humanos e roedores que fornecem um arcabouço conceitual.

    A convergência dessas linhas de evidência sugere fortemente que as Tregs são atores centrais, ainda subexplorados, na patogênese da obesidade e resistência insulínica em animais de companhia. Este campo representa uma fronteira promissora para a pesquisa de imunometabolismo veterinário, com o potencial de transformar a abordagem diagnóstica e terapêutica para essa doença tão prevalente.


    9. AGRADECIMENTOS Os autores gostariam de agradecer a Revista Científica Petclube pelo suporte e incentivo à pesquisa em medicina integrativa veterinária.


    10. REFERÊNCIAS

     
    1. Artigos Fundamentais sobre Tregs (Contexto Humano/Murino)

      • Sakaguchi S, Sakaguchi N, Asano M, Itoh M, Toda M. Immunologic self-tolerance maintained by activated T cells expressing IL-2 receptor alpha-chains (CD25). J Immunol. 1995;155(3):1151-64. [DOI: 10.4049/jimmunol.155.3.1151]
      • Josefowicz SZ, Lu LF, Rudensky AY. Regulatory T cells: mechanisms of repression. Annu Rev Immunol. 22012;30:531-64. [DOI: 10.1146/annurev-immunol-020711-075519]
    2. Caracterização de Tregs em Cães

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    3. Caracterização de Tregs em Gatos

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    4. Artigos sobre Obesidade e Perfil Imunológico/Metabólico em Cães

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    5. Artigos sobre Obesidade e Perfil Imunológico/Metabólico em Gatos

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    6. Imunometabolismo e Microbiota (Geral/Comparativo)

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    8. Revisões e Artigos Conceituais em Medicina Veterinária

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  • Doença da Tiroide em Felinos e Cães e Sua Possível Relação com Dietas Ricas em Carboidratos: Revisão Científica Integrativa

     

    Doença da Tiroide em Felinos e Cães e Sua Possível Relação com Dietas Ricas em Carboidratos: Revisão Científica Integrativa

    Autores: Cláudio Amichetti Júnior¹,² Gabriel Amichetti³

     
    Filiação: ¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar. ² Petclube, São Paulo, Brasil ³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD Vila Zelina SP

    Resumo

    As doenças da glândula tiroide representam algumas das endocrinopatias mais prevalentes na prática veterinária: o hipertireoidismo felino e o hipotireoidismo canino. Nas últimas décadas, tem surgido interesse clínico e acadêmico sobre a influência da nutrição — particularmente do excesso de carboidratos e seus efeitos metabólicos — no funcionamento da tiroide. Embora a literatura aponte mecanismos biológicos plausíveis que ligam resistência insulínica, obesidade, inflamação crônica de baixo grau e micronutrientes (iodo, selênio, zinco) à função tiroideana, as evidências diretas que associam dietas ricas em carboidratos a doenças tiroideanas em cães e gatos permanecem limitadas. Este artigo analisa criticamente as evidências disponíveis, discute mecanismos fisiopatológicos potenciais e propõe diretrizes práticas para médicos-veterinários, enfatizando a necessidade de uma abordagem nutricional holística e personalizada.


    1. Introdução

    As doenças da tiroide são reconhecidas como condições endócrinas significativas e frequentes na clínica de pequenos animais, com manifestações distintas entre as espécies. Em gatos, o hipertireoidismo se destaca como a endocrinopatia mais comum em animais idosos, tipicamente resultante de hipertrofia e hiperplasia adenomatosa benigna da glândula. Por outro lado, em cães, o hipotireoidismo primário, predominantemente de origem autoimune (tireoidite linfocítica) ou atrofia idiopática da glândula, é a disfunção tiroideana mais diagnosticada (Amichetti, 2024).

    Paralelamente à prevalência dessas condições, observa-se que as dietas comerciais para cães e gatos — particularmente as formulações secas, amplamente difundidas — frequentemente contêm altos teores de carboidratos. Este fato tem levantado questionamentos na comunidade veterinária sobre o papel metabólico desses nutrientes e sua possível influência em eixos hormonais complexos, como o IGF-1 (fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1), insulina e o próprio eixo tiroideano. A evolução das dietas para animais de companhia, muitas vezes distanciando-se do perfil nutricional natural de carnívoros estritos e facultativos, sugere uma potencial desconexão com a fisiologia metabólica dessas espécies.

    O objetivo deste artigo é realizar uma revisão científica integrativa para avaliar criticamente se existe uma relação científica validada, direta ou indireta, entre o excesso de carboidratos na dieta e a ocorrência ou exacerbação de doenças tiroideanas em felinos e caninos. Será explorada a fisiologia tiroideana, a epidemiologia e etiologia das doenças em cada espécie, e os potenciais mecanismos fisiopatológicos que poderiam mediar essa interação.


    2. Fisiologia Tiroideana Relevante

    A glândula tiroide, sob o controle do eixo hipotálamo-hipófise-tiroide (HHT), é responsável pela síntese e secreção dos hormônios tiroideanos, tiroxina (T4) e triiodotironina (T3). Estes hormônios são essenciais para uma vasta gama de processos fisiológicos, incluindo a regulação do metabolismo basal, termogênese, desenvolvimento e função do sistema nervoso, função cardiovascular e a homeostase lipídica e proteica. A função tiroideana é finamente regulada e sensível a múltiplos fatores, incluindo a disponibilidade de micronutrientes e o estado metabólico geral do organismo.

    Elementos-chave para a síntese e ação dos hormônios tiroideanos incluem:

    • Iodo: É um substrato obrigatório e o componente central para a síntese de T3 e T4. Sua deficiência ou excesso podem comprometer severamente a função da glândula.
    • TPO (Tiroperoxidase): Uma enzima crucial para a oxidação do iodeto e sua incorporação na tiroglobulina, formando os precursores de T3 e T4. Sua atividade é dependente de iodo e cofatores metálicos.
    • Selênio: É um componente essencial das enzimas desiodases (D1, D2, D3), que são responsáveis pela conversão periférica de T4 (pró-hormônio) em T3 (forma biologicamente ativa), e pela inativação de ambos. A deficiência de selênio pode, portanto, prejudicar a ativação do hormônio tiroideano.
    • Zinco: Atua como cofator em diversas enzimas e é importante para a estabilização dos receptores nucleares de T3, modulando a resposta celular aos hormônios tiroideanos.
    • Ferro: Essencial para a atividade da tiroperoxidase.

    Perturbações na nutrição, seja por deficiências de micronutrientes ou por desequilíbrios de macronutrientes, podem influenciar direta ou indiretamente a produção, conversão e ação hormonal da tiroide, impactando a saúde metabólica geral.


    3. Doença Tiroideana em Felinos

    3.1. Hipertireoidismo Felino

    O hipertireoidismo felino é a endocrinopatia mais diagnosticada em gatos idosos, geralmente afetando animais com mais de 8 anos de idade. É caracterizado pela produção excessiva de hormônios tiroideanos, T4 e T3, resultando em um estado de hipermanabolismo. Os sinais clínicos incluem:

    • Perda de peso apesar de apetite normal ou aumentado (polifagia).
    • Poliúria/polidipsia (aumento da micção e sede).
    • Vômitos e diarreia.
    • Taquicardia, sopros cardíacos e arritmias.
    • Hipertensão sistêmica.
    • Pelagem áspera e descuidada.
    • Hiperatividade e vocalização excessiva.
    • Palpação de glândulas tiroideanas aumentadas na maioria dos casos.

    A etiologia do hipertireoidismo felino é multifatorial e complexa. Fatores apontados na literatura incluem:

    1. Exposição a retardantes de chama bromados (PBDEs): Têm sido associados a níveis séricos elevados de hormônios tiroideanos e podem mimetizar a estrutura dos hormônios tiroideanos ou interferir com seu metabolismo.
    2. Ingestão de iodo inconsistente ou desequilibrada: Tanto a deficiência quanto o excesso crônico de iodo podem induzir bócio e disfunção tiroideana. A flutuação na ingestão de iodo em dietas comerciais é uma preocupação.
    3. Compostos fenólicos presentes em certos enlatados: Substâncias como bisfenol A (BPA) e ftalatos, que podem ser lixiviados de revestimentos de latas, são considerados desreguladores endócrinos.
    4. Envelhecimento: A idade avançada é um fator de risco primário, com maior incidência em gatos geriátricos.
    5. Possíveis componentes dietéticos: Embora o papel do iodo seja mais claro, outras características da dieta têm sido investigadas, embora sem conclusões definitivas sobre carboidratos.

    3.2. Evidências Envolvendo Nutrição

    Estudos robustos têm consistentemente demonstrado a forte relação entre a ingestão de iodo e a função tiroideana em gatos.

    • Van der Kooij et al. (2017, 2020): Pesquisas fundamentais que mostraram que dietas de iodo restrito são eficazes na redução dos níveis de T4 total em gatos hipertireoideos, consolidando o iodo como um fator primário e modulador na fisiopatologia da doença.
    • Verbrugghe & Hesta (2017): Uma revisão crítica que destaca o metabolismo carnívoro obrigatório dos gatos. Embora os carboidratos afetem a glicemia e a insulina em felinos, a revisão conclui que, até o momento, não existem estudos que demonstrem causalidade direta entre a ingestão de carboidratos e a indução de hipertireoidismo. A fisiologia digestiva felina, adaptada a dietas ricas em proteína e gordura, mostra uma capacidade limitada de processar grandes quantidades de carboidratos de forma eficiente.

    3.3. Carboidratos e Metabolismo Felino

    A natureza carnívora obrigatória do gato implica uma dependência primária de proteínas e gorduras como fontes de energia. Dietas secas hipercarboidratas, que se tornaram comuns no mercado, podem induzir diversas alterações metabólicas em felinos:

    • Hiperglicemia pós-prandial: Devido à atividade limitada de enzimas glicolíticas hepáticas e baixa resposta insulínica ao carboidrato.
    • Aumento do Fator de Crescimento Semelhante à Insulina 1 (IGF-1): Dietas ricas em carboidratos podem levar a um aumento do IGF-1, que tem sido implicado em processos proliferativos e na regulação do crescimento de tecidos, incluindo o da tiroide.
    • Lipogênese hepática: O excesso de carboidratos pode ser convertido em gordura no fígado, contribuindo para o risco de lipidose hepática e outras disfunções.
    • Maior risco de obesidade e resistência à insulina: A ingestão crônica de carboidratos além da capacidade metabólica do gato pode levar ao ganho de peso e à diminuição da sensibilidade à insulina.

    Apesar desses efeitos metabólicos sistêmicos, é crucial reiterar que nenhum estudo atual demonstra uma causalidade direta e isolada entre a ingestão de carboidratos e a alteração nos níveis de T4/T3 em gatos, levando ao hipertireoidismo. A complexidade da doença sugere que os carboidratos podem, no máximo, ser um fator contribuinte em um contexto de predisposição e múltiplos estressores ambientais e nutricionais.


    4. Doença Tiroideana em Cães

    4.1. Hipotireoidismo Canino

    O hipotireoidismo canino é a endocrinopatia mais comum em cães, caracterizada pela produção insuficiente de hormônios tiroideanos. As formas mais comuns da doença são:

    • Tireoidite linfocítica autoimune: A causa mais prevalente (cerca de 50% dos casos), onde o sistema imunológico ataca e destrói as células da tiroide. Possui forte componente genético, sendo mais comum em raças como Golden Retriever, Doberman Pinscher, Setter Irlandês e Beagle.
    • Atrofia idiopática da tiroide: Responsável por aproximadamente 30% dos casos, caracteriza-se pela substituição do parênquima tiroideano por tecido adiposo, sem evidência de inflamação. A causa exata ainda é desconhecida, mas pode ser uma forma final da tireoidite linfocítica sem os marcadores inflamatórios.

    Os sinais clínicos do hipotireoidismo são amplos e refletem o metabolismo basal reduzido:

    • Letargia, diminuição da atividade e apatia.
    • Ganho de peso inexplicado, mesmo com ingestão alimentar controlada.
    • Intolerância ao frio.
    • Alterações dermatológicas como alopecia bilateral e simétrica (geralmente não pruriginosa), pele espessa (mixedema), seborreia e infecções de pele recorrentes.
    • Bradicardia (frequência cardíaca lenta).
    • Anormalidades reprodutivas (infertilidade, ciclos estrais irregulares).
    • Hipercolesterolemia e hipertrigliceridemia.

    4.2. Nutrição e Função Tiroideana em Cães

    O impacto nutricional na função tiroideana de cães tem sido amplamente investigado, focando em diversos aspectos da dieta:

    • Composição de macronutrientes: Equilíbrio entre proteínas, gorduras e carboidratos.
    • Qualidade da proteína: Sua digestibilidade e perfil de aminoácidos.
    • Níveis de micronutrientes: Especialmente iodo, selênio e zinco.
    • Presença de goitrogênios: Substâncias que podem interferir na síntese de hormônios tiroideanos.

    Estudos chave:

    • Jackson et al. (2022, 2023): Pesquisas que demonstraram que dietas com redução de carboidratos e aumento proporcional de proteína/gordura podem melhorar a composição corporal, a sensibilidade à insulina e reduzir marcadores inflamatórios em cães. Contudo, é fundamental notar que essas intervenções não induziram alterações clinicamente relevantes nos níveis de T4 ou TSH em cães saudáveis. Isso sugere que, embora o perfil metabólico geral possa ser otimizado, os carboidratos, por si só, não são um fator etiológico primário para o hipotireoidismo em cães.
    • Revisões de Carciofi, Fascetti e outros: Enfatizam que a estabilidade e o aporte adequado de iodo são mais determinantes para a função tiroideana em cães do que a proporção específica de qualquer macronutriente. Desequilíbrios de iodo, seja por deficiência ou excesso, são mais propensos a causar disfunção.

    Portanto, a literatura atual não oferece evidências diretas e conclusivas de que dietas ricas em carboidratos causem ou precipitem o hipotireoidismo em cães. A etiologia autoimune e genética prevalece como a principal causa da doença.


    5. Possíveis Mecanismos Fisiopatológicos que Poderiam Ligar Carboidratos e Tiroide

    Apesar da ausência de comprovação causal direta entre o excesso de carboidratos e as doenças tiroideanas primárias em cães e gatos, existem caminhos fisiológicos e metabólicos plausíveis pelos quais uma dieta hipercarboidrata poderia modular indiretamente a função tiroideana, especialmente em indivíduos predispostos ou em estados de doença metabólica.

    5.1. Resistência à Insulina e Eixo IGF-1

    Dietas crônicas ricas em carboidratos, especialmente aquelas com alto índice glicêmico, podem levar a:

    • Aumento da glicemia pós-prandial: O corpo responde com maior secreção de insulina.
    • Hiperinsulinemia crônica: Níveis elevados e persistentes de insulina.
    • Resistência insulínica: As células perdem a sensibilidade à insulina, exigindo ainda mais secreção do pâncreas.

    Estudos em humanos e modelos animais sugerem que a hiperinsulinemia e a resistência insulínica podem impactar a tiroide de várias maneiras:

    • Redução da expressão e atividade das desiodases: A insulina afeta a regulação transcricional e a atividade das desiodases (principalmente D1 e D2), que são cruciais para a conversão de T4 em T3 ativo. Uma menor conversão resulta em T3 mais baixo e um estado de "hipotireoidismo tecidual".
    • Alteração da sensibilidade dos receptores de T3: A sinalização da insulina pode interagir com os receptores nucleares de T3, modulando a resposta das células aos hormônios tiroideanos.
    • Aumento do IGF-1: A insulina promove a produção de IGF-1. Níveis elevados de IGF-1 têm sido associados ao crescimento e proliferação de células da tiroide, podendo, em teoria, contribuir para a hiperplasia adenomatosa observada no hipertireoidismo felino.

    Em cães e gatos, as evidências de uma ligação direta são mais indiretas e especulativas, mas o mecanismo é biologicamente plausível, dado o papel central da insulina no metabolismo.

    5.2. Inflamação de Baixo Grau ("Metainflamação")

    Dietas hipercarboidratas, frequentemente associadas à obesidade e ao desequilíbrio da microbiota intestinal, podem induzir um estado de inflamação crônica sistêmica de baixo grau, conhecido como "metainflamação". Este estado é caracterizado por:

    • Aumento de citocinas pró-inflamatórias: Como interleucina-6 (IL-6), fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) e proteína C-reativa.
    • Estresse oxidativo: Aumento da produção de espécies reativas de oxigênio.

    As citocinas inflamatórias têm um efeito inibitório conhecido sobre a função tiroideana:

    • Redução da produção de TSH: Podem suprimir a secreção de TSH pela hipófise.
    • Inibição da conversão periférica de T4 para T3: A inflamação sistêmica pode down-regular a atividade das desiodases, levando a um aumento de T3 reverso (rT3) e uma diminuição de T3.
    • Indução de resistência aos hormônios tiroideanos: As citocinas podem modular a expressão e a sensibilidade dos receptores de hormônios tiroideanos.

    Embora não causem a doença primária, a metainflamação pode exacerbar disfunções tiroideanas subclínicas ou modular a progressão de doenças existentes, afetando a eficácia do tratamento ( Amichetti, 2025).

    5.3. Micronutrientes Mascarados e Biodisponibilidade Reduzida

    Alimentos industriais ricos em carboidratos, frequentemente formulados com ingredientes vegetais (grãos, leguminosas), podem apresentar desafios nutricionais:

    • Biodisponibilidade mineral reduzida: Fibras dietéticas (especialmente fitatos) e outros antinutrientes presentes em grãos podem quelar minerais essenciais como iodo, selênio e zinco, diminuindo sua absorção e disponibilidade para a glândula tiroide.
    • Interação entre componentes: A presença de certos polifenóis em ingredientes vegetais pode interagir com a absorção ou o metabolismo de micronutrientes cruciais para a tiroide.

    A deficiência subclínica desses micronutrientes, mesmo em dietas que nominalmente contêm quantidades adequadas, pode comprometer a síntese e a função dos hormônios tiroideanos a longo prazo.

    5.4. Goitrogênios Alimentares

    Alguns ingredientes comuns em rações ricas em carboidratos, como a soja e certos vegetais crucíferos (p.ex., brócolis, couve-flor em grandes quantidades), contêm compostos goitrogênicos (isoflavonas, tiocianatos) que podem, em teoria, inibir a tiroperoxidase (TPO) ou a captação de iodo pela tiroide.

    • No entanto, a relevância clínica desses goitrogênios em cães e gatos, nas concentrações tipicamente encontradas em dietas comerciais, não está bem documentada. Geralmente, seria necessária uma ingestão muito elevada e contínua desses compostos para induzir um efeito significativo, ou estaria associada a um estado de deficiência de iodo preexistente.

    6. Discussão

    A análise crítica da literatura veterinária atual nos permite extrair as seguintes considerações sobre a relação entre carboidratos e doenças tiroideanas em cães e gatos:

    Existe relação direta comprovada?Não. A evidência científica atual não suporta a conclusão de que o excesso de carboidratos nas rações comerciais é uma causa direta e primária de hipertireoidismo em gatos ou hipotireoidismo em cães. A etiologia dessas doenças é complexa e multifatorial, com fatores genéticos, autoimunes e ambientais desempenhando papéis mais proeminentes.

    Existe relação indireta potencial? ✔️ Sim. Apesar da falta de causalidade direta, existe um corpo crescente de evidências que sugere que dietas ricas em carboidratos podem modular a função tiroideana indiretamente através de uma cascata de eventos metabólicos. Isso inclui:

    • Obesidade: Fator de risco para diversas doenças, que por sua vez pode levar à metainflamação.
    • Resistência à insulina: Afeta a conversão e a sensibilidade hormonal.
    • Inflamação crônica de baixo grau: Pode inibir a função tiroideana e a conversão de T4 em T3.
    • Alterações no metabolismo e biodisponibilidade de micronutrientes: Essenciais para a síntese e ação dos hormônios tiroideanos.

    Esses mecanismos podem criar um ambiente metabólico que predispõe à disfunção tiroideana ou agrava condições subclínicas, mas não são o gatilho inicial isolado da doença primária.

    E o Iodo? ✔️ É o fator nutricional mais comprovado. Flutuações na ingestão de iodo – seja por deficiência ou, mais comumente, por excesso ou inconsistência no fornecimento – estão bem estabelecidas como moduladores críticos da função tiroideana em ambas as espécies. Em gatos, a modulação do iodo dietético é uma estratégia terapêutica comprovada para o hipertireoidismo.

    Em resumo, enquanto a composição de macronutrientes da dieta pode influenciar o perfil metabólico geral de cães e gatos, o papel dos carboidratos como causa direta de doenças tiroideanas primárias não é sustentado pela ciência atual. A complexidade do sistema endócrino exige uma visão holística, onde a qualidade geral da dieta, o equilíbrio de micronutrientes e a prevenção da obesidade e resistência à insulina são fundamentais para a saúde da tiroide.


    7. Conclusões

    1. O papel dos carboidratos na etiologia e progressão das doenças tiroideanas em felinos e caninos permanece em grande parte indireto e mediado por efeitos no metabolismo energético, como obesidade, resistência insulínica e inflamação crônica.
    2. A etiologia primária do hipertireoidismo felino parece estar mais ligada a fatores ambientais, como a exposição a desreguladores endócrinos e, crucialmente, ao desequilíbrio na ingestão de iodo.
    3. O hipotireoidismo canino possui um componente majoritariamente autoimune e genético, com pouca ou nenhuma relação comprovada com a composição de macronutrientes da dieta.
    4. A nutrição, no entanto, é um pilar fundamental da saúde metabólica. Dietas inadequadas podem modular negativamente o metabolismo de desiodases, promover inflamação e comprometer a biodisponibilidade de minerais essenciais, mecanismos que são relevantes para a evolução e manejo de doenças endócrinas.
    5. Para o médico-veterinário, é imperativo focar em uma abordagem nutricional equilibrada e adequada à espécie, priorizando a prevenção da obesidade e da resistência insulínica. A garantia de um aporte estável e adequado de iodo, selênio e zinco é mais crítica do que a restrição indiscriminada de carboidratos em si.
    6. Estudos futuros são necessários, com ensaios clínicos controlados e bem desenhados, para avaliar diretamente o impacto de dietas hipercarboidratas em marcadores de função tiroideana (T4, T3, TSH) e autoimunidade, elucidando ainda mais essas complexas interações.

    8. Referências Selecionadas

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