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Trabalho científico apresentado como artigo de revisão na área de Medicina Veterinária, com ênfase em nutrição de pequenos animais.
Autores:
Cláudio Amichetti Júnior¹,²
Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025, CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
² [Afiliação Institucional Petclube, São Paulo, Brasil]
³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – [clínica 3RD Vila Zelina SP]
Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]
Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal
A catarata é uma das principais causas de perda visual em cães e gatos, apresentando etiologia multifatorial, com destaque para fatores genéticos, inflamatórios e metabólicos. O diabetes mellitus é amplamente reconhecido como um dos principais fatores de risco para catarata, especialmente em cães, sendo a hiperglicemia crônica o principal mecanismo fisiopatológico envolvido. Nas últimas décadas, a alimentação de pets passou a ser predominantemente baseada em dietas industrializadas com elevado teor de carboidratos, o que representa um distanciamento do padrão alimentar evolutivo dessas espécies. Evidências crescentes indicam que o consumo excessivo de carboidratos pode contribuir para obesidade, resistência à insulina, inflamação sistêmica de baixo grau e estresse oxidativo, condições intimamente relacionadas ao desenvolvimento de alterações oculares degenerativas. Embora não existam estudos que comprovem uma relação causal direta entre excesso de carboidratos e catarata em cães e gatos, os mecanismos metabólicos envolvidos sugerem uma associação indireta plausível. Este artigo revisa a literatura disponível sobre metabolismo de carboidratos em pets, inflamação metabólica, diabetes mellitus e catarata, discutindo implicações clínicas e estratégias nutricionais preventivas.
Palavras-chave: Catarata; Carboidratos; Inflamação metabólica; Diabetes mellitus; Nutrição veterinária.
Cataract is one of the leading causes of visual impairment in dogs and cats and presents a multifactorial etiology, including genetic, inflammatory, traumatic, senile, and metabolic factors. Among metabolic disorders, diabetes mellitus is widely recognized as a major risk factor, particularly in dogs, in which persistent hyperglycemia frequently leads to rapid lens opacification. In recent decades, the widespread use of industrialized pet foods with high carbohydrate content has represented a significant deviation from the evolutionary nutritional physiology of domestic carnivores, especially cats.
Excessive and chronic carbohydrate intake has been associated with obesity, insulin resistance, low-grade systemic inflammation, and increased oxidative stress. These metabolic disturbances are closely linked to the pathophysiology of diabetic cataracts and may indirectly contribute to lens degeneration even in the absence of overt diabetes mellitus. Recurrent postprandial hyperglycemia, hyperinsulinemia, microbiota dysbiosis, and inflammatory cytokine release create a systemic environment that compromises metabolic homeostasis and increases oxidative damage to long-lived lens proteins.
Although there is currently no direct evidence establishing excessive dietary carbohydrates as an isolated cause of cataracts in dogs and cats, the available data support a biologically plausible indirect association mediated by metabolic and inflammatory pathways. Nutritional strategies that emphasize high-quality animal-based proteins, biologically appropriate healthy fats, and minimal inclusion of low–glycemic index carbohydrates may restore metabolic homeostasis, reduce systemic inflammation and oxidative stress, improve insulin sensitivity, and consequently lower the risk of associated pathologies, including cataract development.
Veterinarians play a critical role in educating pet owners about the metabolic risks associated with inappropriate modern feeding practices and in promoting dietary choices that support long-term metabolic health, ocular integrity, and longevity in domestic carnivores.
Keywords: Cataract; Carbohydrates; Metabolic inflammation; Insulin resistance; Veterinary nutrition.
A catarata é caracterizada pela opacificação parcial ou total do cristalino, levando à diminuição progressiva da acuidade visual e, em estágios avançados, à cegueira. Em medicina veterinária, trata-se de uma condição frequente, especialmente em cães, podendo ocorrer também em gatos, embora com menor incidência. Sua etiologia é multifatorial, incluindo causas hereditárias, traumáticas, inflamatórias, infecciosas, senis e metabólicas (GELATT; GELATT, 2011).
Entre os fatores metabólicos, o diabetes mellitus destaca-se como uma das principais causas de catarata, sobretudo em cães. Estima-se que mais de 50% dos cães diabéticos desenvolvam catarata bilateral em curto período após o diagnóstico, em decorrência da hiperglicemia persistente (BEAM et al., 1999). O mecanismo fisiopatológico envolve alterações osmóticas e bioquímicas no cristalino, associadas à via do poliol e à glicação não enzimática de proteínas.
Paralelamente, observa-se uma mudança significativa no padrão alimentar de cães e gatos nas últimas décadas. A ampla utilização de dietas extrusadas comerciais, frequentemente ricas em carboidratos digestíveis, representa um afastamento da dieta ancestral dessas espécies. Os gatos, carnívoros obrigatórios, apresentam capacidade limitada de adaptação metabólica a dietas ricas em carboidratos, enquanto os cães, embora mais flexíveis, também não evoluíram para utilizar carboidratos como principal fonte energética (ZORAN, 2002; LAFLAMME et al., 2014).
O consumo excessivo e crônico de carboidratos tem sido associado a ganho de peso, obesidade, resistência à insulina e inflamação sistêmica de baixo grau. Esses processos estão diretamente relacionados ao desenvolvimento do diabetes mellitus e ao aumento do estresse oxidativo, fatores reconhecidamente envolvidos na fisiopatologia da catarata. Em humanos, estudos epidemiológicos demonstram associação entre dietas de alto índice glicêmico e maior risco de catarata relacionada à idade (CHIU et al., 2023).
Diante desse contexto, torna-se relevante discutir o papel indireto da nutrição rica em carboidratos na saúde ocular de cães e gatos, considerando os mecanismos metabólicos e inflamatórios envolvidos. Este artigo tem como objetivo revisar a literatura científica disponível e discutir a plausibilidade biológica da associação entre excesso de carboidratos na dieta, inflamação metabólica e formação de catarata em pets.
Os gatos apresentam atividade reduzida de enzimas relacionadas ao metabolismo de carboidratos, como a glucocinase hepática, além de uma secreção insulínica menos responsiva a cargas glicídicas elevadas (ZORAN, 2002). Dessa forma, dietas ricas em carboidratos podem resultar em hiperglicemia pós-prandial prolongada.
Os cães, embora classificados como onívoros oportunistas, mantêm uma fisiologia predominantemente adaptada ao consumo de proteínas e gorduras. O excesso de carboidratos, especialmente os de alto índice glicêmico, pode promover flutuações glicêmicas significativas, favorecendo resistência à insulina ao longo do tempo (LAFERRE, 2011).
Dietas com alta densidade energética e elevado teor de carboidratos estão associadas ao desenvolvimento de obesidade em cães e gatos. A obesidade é reconhecida como um estado de inflamação crônica de baixo grau, caracterizado pela liberação contínua de citocinas pró-inflamatórias, como TNF-α, IL-6 e IL-1β (GERMAN, 2006).
Além disso, o excesso de carboidratos pode alterar a microbiota intestinal, promovendo disbiose, aumento da permeabilidade intestinal e endotoxemia metabólica. Esses fatores contribuem para resistência à insulina e aumento do estresse oxidativo sistêmico, criando um ambiente metabólico desfavorável à manutenção da homeostase tecidual.
A catarata diabética é uma das manifestações mais bem documentadas do diabetes mellitus em cães. A hiperglicemia persistente leva à conversão excessiva de glicose em sorbitol dentro das fibras do cristalino, causando acúmulo osmótico, edema celular, ruptura das fibras e opacificação do cristalino (KADOR et al., 1985).
Além disso, a glicação avançada de proteínas cristalinas compromete sua estrutura e função óptica. O estresse oxidativo associado agrava esse processo, reduzindo a eficiência dos mecanismos antioxidantes endógenos do cristalino.
Embora não existam evidências diretas que comprovem que o excesso de carboidratos cause catarata de forma isolada, a literatura sugere uma associação indireta plausível. Dietas ricas em carboidratos podem favorecer o desenvolvimento de obesidade, resistência à insulina e diabetes mellitus, condições intimamente relacionadas à catarata.
Além disso, a inflamação sistêmica e o estresse oxidativo decorrentes de desequilíbrios metabólicos podem comprometer a integridade do cristalino ao longo do tempo, mesmo na ausência de diabetes clínico estabelecido.
Avaliação criteriosa da composição de carboidratos em dietas comerciais
Controle de peso corporal e prevenção da obesidade
Monitoramento glicêmico em animais predispostos
Uso de dietas com menor índice glicêmico
Suporte antioxidante e anti-inflamatório como estratégia preventiva
BEAM, S. et al. Risk factors for diabetes mellitus in dogs. Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 214, n. 1, p. 46–51, 1999.
CHIU, C. J. et al. Dietary glycemic index and risk of age-related cataract. American Journal of Clinical Nutrition, 2023.
GELATT, K. N.; GELATT, J. P. Veterinary ophthalmology. 5. ed. Ames: Wiley-Blackwell, 2011.
GERMAN, A. J. The growing problem of obesity in dogs and cats. Journal of Nutrition, v. 136, p. 1940S–1946S, 2006.
KADOR, P. F. et al. The role of the polyol pathway in diabetic cataract formation. Investigative Ophthalmology & Visual Science, v. 26, p. 281–290, 1985.
LAFERRE, J. Nutrition and insulin resistance in dogs. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 41, p. 833–846, 2011.
LAFRAMME, D. et al. Nutrition for aging cats and dogs. Veterinary Clinics of North America, v. 44, p. 761–774, 2014.
ZORAN, D. L. The carnivore connection to nutrition in cats. Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 221, p. 1559–1567, 2002.
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Cláudio Amichetti Júnior¹,² Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025, CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos e cães tipo bull, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar. ² Afiliação Institucional Petclube, São Paulo, Brasil ³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD Vila Zelina SP
Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]
Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal
A osteoartrite (OA) canina representa uma das principais causas de dor crônica e incapacidade locomotora em cães, impactando significativamente a qualidade de vida dos animais e de seus tutores. Caracterizada pela degeneração progressiva da cartilagem articular, remodelação óssea subcondral, formação de osteófitos e inflamação sinovial, a OA é uma doença multifatorial e complexa. Este artigo de revisão explora as inovações em métodos diagnósticos, com ênfase em biomarcadores e técnicas de imagem avançadas, e discute as estratégias terapêuticas multimodais contemporâneas. Abordam-se desde as terapias medicamentosas (AINEs, analgésicos, condroprotetores, terapias biológicas) e não medicamentosas (manejo de peso, fisioterapia, nutracêuticos) até as intervenções cirúrgicas, destacando a importância de um plano terapêutico individualizado. Propõe-se uma visão integrativa para o manejo da OA canina, visando a minimização da dor, a preservação da função articular e a melhoria do bem-estar animal.
A osteoartrite (OA) canina, uma doença articular degenerativa crônica e progressiva, representa um dos maiores desafios na prática ortopédica veterinária, afetando a qualidade de vida de milhões de cães e gerando custos significativos para os tutores. Longe de ser um mero processo de "desgaste", a OA é uma síndrome complexa que envolve a degradação da cartilagem articular, a remodelação do osso subcondral, a inflamação sinovial e o comprometimento de estruturas periarticulares. Essa complexidade intrínseca da etiopatogenia da OA exige uma compreensão aprofundada e abordagens diagnósticas e terapêuticas cada vez mais sofisticadas.
Tradicionalmente, o diagnóstico da OA tem se baseado em sinais clínicos, achados no exame físico e alterações radiográficas, que frequentemente se manifestam em estágios avançados da doença. No entanto, a medicina veterinária contemporânea tem presenciado uma revolução nas ferramentas diagnósticas, com o advento de técnicas de imagem avançadas e a emergência de biomarcadores promissores, que oferecem a possibilidade de detecção precoce e monitoramento mais preciso da progressão da doença. Paralelamente, o paradigma terapêutico tem se deslocado de tratamentos paliativos para estratégias multimodais que visam não apenas o alívio sintomático, mas também a modificação da doença e a promoção da regeneração tecidual.
Este artigo de revisão crítica tem como objetivo explorar e sintetizar os avanços mais recentes no diagnóstico da osteoartrite canina, com foco nas metodologias que permitem a identificação precoce e a avaliação objetiva da doença. Adicionalmente, será realizada uma análise aprofundada das estratégias terapêuticas multimodais contemporâneas, abrangendo desde intervenções farmacológicas e biológicas até abordagens de manejo não medicamentosas e cirúrgicas. O intuito é fornecer uma visão integrativa que capacite o clínico veterinário a otimizar o manejo da OA, visando a minimização da dor, a preservação da função articular e a substancial melhoria do bem-estar e da longevidade dos pacientes caninos.
A OA pode ser classificada como primária (idiopática, rara em cães) ou secundária, sendo esta última a mais comum e associada a fatores predisponentes como:
A cascata inflamatória e degenerativa envolve citocinas pró-inflamatórias (IL-1, TNF-α), metaloproteinases de matriz (MMPs), e radicais livres que promovem a degradação da matriz extracelular da cartilagem e a morte condrocitária.
O diagnóstico precoce e preciso da OA é fundamental para instituir um tratamento eficaz e retardar a progressão da doença.
A anamnese detalhada, incluindo histórico de claudicação, rigidez matinal, dificuldade em se levantar ou pular, intolerância ao exercício e mudanças comportamentais, é o ponto de partida. O exame físico ortopédico deve identificar dor à palpação, crepitação, efusão sinovial, atrofia muscular e limitação da amplitude de movimento (ADM). A avaliação da dor pode ser complementada com questionários validados e escalas de dor específicas para cães.
A pesquisa em biomarcadores busca identificar substâncias no sangue, urina ou líquido sinovial que reflitam a atividade metabólica da cartilagem ou o processo inflamatório.
Apesar do potencial, a validação de biomarcadores específicos e sua correlação com a progressão clínica da OA em cães ainda são áreas de intensa pesquisa, com o objetivo de permitir o diagnóstico precoce e a monitorização da resposta terapêutica.
O manejo da OA é multifacetado, com o objetivo de aliviar a dor, melhorar a função articular, retardar a progressão da doença e melhorar a qualidade de vida. Raramente uma única modalidade é suficiente.
A obesidade é um fator de risco e agravante da OA. A redução e manutenção do peso ideal são cruciais para diminuir a carga sobre as articulações e reduzir a inflamação sistêmica associada ao tecido adiposo. Dietas específicas para controle de peso e suplementação com ácidos graxos ômega-3 (EPA e DHA), que possuem propriedades anti-inflamatórias, são recomendadas.
A fisioterapia desempenha um papel fundamental no manejo da OA, incluindo:
A cirurgia é indicada para corrigir instabilidades articulares, deformidades ou remover osteófitos dolorosos. Em casos avançados de OA com dor intratável, opções incluem:
A discussão sobre a osteoartrite canina transcendeu a simplista visão de uma patologia de 'desgaste' para abraçar uma compreensão molecular e celular que engloba complexos processos inflamatórios, metabólicos e neurofisiológicos. Esta evolução teórica tem impulsionado a demanda por inovações diagnósticas e terapêuticas, refletindo a crescente busca por um manejo mais eficaz e eticamente responsável da dor e disfunção articular em cães.
Os avanços em diagnóstico por imagem, notadamente RM e ultrassonografia, juntamente com o desenvolvimento promissor de biomarcadores, representam um divisor de águas. Essas ferramentas não apenas possibilitam a detecção da doença em estágios subclínicos, mas também oferecem meios objetivos para monitorar a progressão e avaliar a resposta aos tratamentos, superando as limitações das radiografias convencionais, que muitas vezes refletem apenas alterações morfológicas tardias. A integração desses métodos permite uma estratificação de risco mais precisa e a instituição de intervenções mais precoces e direcionadas.
No âmbito terapêutico, a abordagem multimodal emergiu como o padrão-ouro. A sinergia entre o controle de peso, a fisioterapia, as terapias farmacológicas convencionais (AINEs, analgésicos) e os agentes condroprotetores (como o Pentosan Polissulfato de Sódio, que oferece um espectro de ação anabólico e anti-inflamatório) é crucial. Além disso, a ascensão das terapias biológicas, como PRP e MSCs, representa um campo em rápida expansão, com potencial para modificar o curso da doença através de mecanismos regenerativos e imunomodulatórios. No entanto, a padronização de protocolos e a elucidação dos mecanismos de ação in vivo ainda são áreas que demandam mais pesquisa.
Um aspecto central é a individualização do tratamento. A idade do paciente, raça, estágio da OA, a presença de comorbidades e o perfil de atividade devem guiar a seleção das modalidades terapêuticas. A colaboração ativa com o tutor, envolvendo educação sobre a natureza crônica da OA e a importância da adesão ao plano terapêutico, é indispensável para o sucesso a longo prazo.
Apesar dos avanços, desafios significativos persistem. A validação de biomarcadores prognósticos confiáveis e a identificação de pacientes respondedores a terapias biológicas específicas são cruciais. Adicionalmente, a busca por novas drogas modificadoras da doença que possam verdadeiramente interromper ou reverter a degeneração cartilaginosa continua sendo um objetivo primordial da pesquisa. A integração de tecnologias como a inteligência artificial para análise preditiva e a personalização de protocolos terapêuticos representa a fronteira futura do manejo da OA canina.
Em suma, a evolução no diagnóstico e na terapia da OA canina reflete um compromisso contínuo com a melhoria da saúde e bem-estar animal. A transição de um tratamento reativo para um proativo e personalizado é um testemunho do progresso na ortopedia veterinária.
Em síntese, a osteoartrite canina, outrora percebida como uma inevitável consequência do envelhecimento ou do desgaste, é hoje compreendida como uma patologia complexa e dinâmica, que demanda uma intervenção abrangente e precoce. Esta revisão demonstrou que a integração de metodologias diagnósticas avançadas, como a ressonância magnética e o crescente uso de biomarcadores, é fundamental para a identificação precoce da doença e para a monitorização objetiva de sua progressão e resposta terapêutica. Tais ferramentas capacitam os médicos-veterinários a ir além do diagnóstico clínico tardio, permitindo intervenções mais oportunas e eficazes.
No espectro terapêutico, o paradigma multimodal consolidou-se como a abordagem mais efetiva. A combinação estratégica de manejo de peso, fisioterapia, terapias farmacológicas convencionais e inovadoras (incluindo condroprotetores como o PPS e terapias biológicas) e, quando estritamente indicado, intervenções cirúrgicas, permite um controle superior da dor, a preservação da funcionalidade articular e, em última instância, a melhoria substancial da qualidade de vida dos cães. A personalização de cada plano terapêutico, adaptado às especificidades de cada paciente, é a chave para maximizar os resultados.
O futuro do manejo da OA canina reside na contínua pesquisa para a descoberta de biomarcadores mais sensíveis e específicos, na padronização de terapias regenerativas e no desenvolvimento de novas drogas modificadoras da doença. A colaboração multidisciplinar entre pesquisadores, clínicos e a educação dos tutores permanecerão pilares essenciais para o avanço da ortopedia veterinária, assegurando que cães com osteoartrite possam desfrutar de uma vida mais longa, ativa e livre de dor.
Cláudio Amichetti Júnior¹,² Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025, CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos e cães tipo bull, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar. ² Afiliação Institucional Petclube, São Paulo, Brasil ³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD Vila Zelina SP
Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]
Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal
Em 26 de junho de 2025, o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) publicou a Resolução nº 1.653/2025, que altera dispositivos da normativa anterior (Resolução nº 1.321/2020) e traz importantes atualizações para a documentação médico-veterinária no Brasil. Uma das mudanças mais significativas é a uniformização terminológica: os termos “tutor” e “proprietário” deixam de ser utilizados em prontuários, laudos, documentos clínicos e formulários, dando lugar oficialmente a “responsável pelo animal”. (CRMV-GO)
A substituição da terminologia não é apenas semântica; ela reflete uma mudança de paradigma na prática veterinária brasileira, alinhando aspectos éticos, jurídicos e profissionais.
Ao adotar a expressão “responsável pelo animal”, o CFMV reforça a ideia de que o animal não é simplesmente um objeto ou propriedade, mas um ser que merece cuidado, atenção e respeito. O novo termo destaca a responsabilidade efetiva de cuidados sanitários, nutricionais, de bem-estar e garantia de saúde por parte da pessoa que convive com o animal. (Conselho Federal de Medicina Veterinária)
Essa mudança está alinhada com as tendências contemporâneas de reconhecimento da senciência animal — a capacidade dos animais de sentir e sofrer — conceito que vem ganhando respaldo em diversas áreas do direito, da ciência do comportamento e da bioética animal.
Termos como “tutor” podem gerar ambiguidade porque, fora do contexto jurídico veterinário, estão associados principalmente ao âmbito de tutelas de incapazes (como menores de idade), podendo ser confundidos com figuras legais que têm significados específicos no Direito Civil. Por outro lado, “proprietário” remete diretamente à propriedade, uma categoria economicista e despersonalizada, que não necessariamente reflete o vínculo de cuidado que hoje se espera na medicina veterinária. (Conselho Federal de Medicina Veterinária)
O termo “responsável pelo animal” oferece uma base mais clara e objetiva para contratos, prontuários e documentos clínicos, reduzindo ambiguidades que possam surgir em disputas judiciais ou ético-profissionais. Isso reforça a segurança jurídica do médico-veterinário, sobretudo em situações delicadas como retirada de internamento sem alta médica ou consentimentos informados. (CRMV-SP)
Antes da Resolução nº 1.653/2025, clínicas e hospitais veterinários muitas vezes utilizavam diferentes termos — “dono”, “proprietário”, “tutor” — em documentos oficiais e prontuários, o que podia gerar inconsistências e mal-entendidos, tanto internamente nas equipes quanto em avaliações externas. (Conselho Federal de Medicina Veterinária)
A padronização para “responsável pelo animal” simplifica a linguagem e uniformiza a documentação em todo o Sistema CFMV/CRMVs, melhorando a coerência e a qualidade da comunicação profissional.
A nova terminologia enfatiza a função ativa da pessoa que acompanha o animal no processo de cuidado em saúde. Em vez de um papel passivo — frequentemente associado ao termo “proprietário” — o uso de “responsável pelo animal” sinaliza que essa pessoa tem deveres e responsabilidades claras em relação ao acompanhamento, consentimento informado e comunicação com o médico-veterinário. (Conselho Federal de Medicina Veterinária)
Essa mudança ajuda a estabelecer uma base ética de colaboração entre o profissional e o responsável, o que pode reduzir conflitos, aumentar a confiança no serviço veterinário e promover mais transparência nas decisões clínicas.
A Resolução nº 1.653/2025 também proporciona respaldo técnico e jurídico em situações de risco, como a retirada antecipada de um animal sem a devida alta médica. Nesses casos, a norma exige que o responsável pelo animal assine um termo de ciência dos riscos; a padronização do termo reforça o entendimento claro de quem está assumindo essa responsabilidade — algo que é relevante em possíveis demandas legais ou ético-profissionais posteriores. (CRMV-TO)
A substituição de termos como “tutor” e “proprietário” por “responsável pelo animal”, oficializada pela Resolução nº 1.653/2025 do CFMV, traz vantagens substanciais para a medicina veterinária brasileira. Ela não apenas atualiza e padroniza a linguagem técnica, mas também reforça a ética profissional, a segurança jurídica e a clareza comunicativa entre profissionais e clientes. Essas mudanças refletem a evolução do campo veterinário, que incorpora uma visão mais humanizada e responsável do cuidado animal, fortalecendo práticas clínicas mais transparentes, consistentes e alinhadas com os princípios contemporâneos de bem-estar animal. (CRMV-GO)