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Dr. Cláudio Amichetti Júnior¹,²; Dr. Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Eng. Agr.). Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube.
² Petclube, São Paulo, Brasil.
³ Médico-veterinário – CRMV-SP 45.592 VT. Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil.
Autor correspondente: Cláudio Amichetti Júnior. E-mail: dr.claudio.amichetti@gmail.com
Conflito de interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Periódico: Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal.
A dieta do cão doméstico (Canis lupus familiaris) é frequentemente descrita como “onívora”, em grande parte pela capacidade do animal de sobreviver com formulações ricas em amido. Contudo, a capacidade de utilizar carboidratos como fonte energética não equivale a adequação biológica ou a benefício metabólico de longo prazo. Este artigo de revisão integra evidências de fisiologia comparada, anatomia funcional, genética da domesticação e clínica metabólica para sustentar que cães e lobos (Canis lupus) permanecem fortemente alinhados à carnivoria: apresentam dentição carniceira e padrão mandibular voltados a rasgar e cisalhar tecidos animais, trato gastrointestinal sem especializações para fermentação de fibras estruturais, e dependência nutricional primordial de proteína e gordura. Embora adaptações genômicas relacionadas ao aproveitamento de amido tenham sido descritas no cão doméstico em comparação ao lobo (AXELSSON et al., 2013), tais alterações não tornam o carboidrato um nutriente essencial, nem justificam, por si, dietas ultraprocessadas com alta proporção de grãos e óleos vegetais.
A discussão enfatiza o eixo metabólico “excesso energético + alta carga glicêmica + baixa atividade”, que favorece adiposidade e desregulação hormonal. Em cães, a obesidade é reconhecida como condição prevalente e associada a alterações metabólicas e inflamatórias relevantes (GERMAN, 2006). Neste contexto, dietas com elevada densidade calórica e predominância de amido podem contribuir para hiperinsulinemia, piora da sensibilidade à insulina e dislipidemias em subgrupos suscetíveis, especialmente quando a dieta desloca proteína de alta qualidade e gordura animal, reduzindo saciedade e preservação de massa magra (NRC, 2006; WSAVA, 2011). Argumenta-se que, do ponto de vista de prevenção e manejo de distúrbios metabólicos, a formulação dietética deve priorizar proteína adequada, gordura de boa qualidade e carboidratos em proporções compatíveis com o perfil carnívoro do canídeo, com atenção ao grau de processamento, perfil de ácidos graxos e controle de energia total.
Palavras-chave: cão; lobo; carnívoro; amido; ultraprocessados; resistência à insulina; obesidade; metabolismo.
A alimentação do cão doméstico tornou-se um dos temas mais polarizados da medicina veterinária contemporânea. Em um extremo, formulações comerciais ricas em amido são defendidas como “completas e seguras” pela simples observação de que cães podem viver consumindo-as. No outro, práticas de alimentação carnívora são por vezes apresentadas como solução universal, o que também pode incorrer em simplificações.
Entre esses polos, existe uma pergunta objetiva e biologicamente fértil: o que o cão é, do ponto de vista evolutivo e fisiológico, e como isso deveria orientar o macronutriente predominante da dieta? Cães derivam do lobo-cinzento (Canis lupus), mantendo semelhanças anatômicas marcantes ligadas ao predatismo: dentição com carniceiros funcionais, mandíbula com predomínio de movimento vertical para cisalhamento, estômago expansível e intestino sem especialização para fermentação de fibras como nos herbívoros (STEVENS; HUME, 1995). Essas características não descrevem um animal “adaptado a grãos”, mas um carnívoro oportunista, capaz de tolerar variação alimentar em cenários de escassez.
O avanço de estudos genômicos trouxe nuance ao debate: cães apresentam sinais de adaptação a dieta mais rica em amido em relação ao lobo, o que é coerente com a domesticação e a proximidade de resíduos alimentares humanos (AXELSSON et al., 2013). Entretanto, essa adaptação não transforma carboidratos em componente essencial, pois cães, como outros mamíferos, podem manter glicose sanguínea por gliconeogênese a partir de aminoácidos e glicerol, desde que a dieta forneça substratos adequados (NRC, 2006). Assim, a questão central deixa de ser “o cão consegue usar carboidrato?” e passa a ser: qual é o custo metabólico e clínico de basear a dieta em amido e ultraprocessados, especialmente em um ambiente obesogênico moderno?
A obesidade em cães é um problema crescente e clinicamente relevante, associada a menor longevidade, piora de qualidade de vida e maior risco de comorbidades (GERMAN, 2006). Em muitos cenários, a obesidade representa o fenótipo visível de um desequilíbrio mais profundo entre ingestão energética, densidade de nutrientes, palatabilidade industrial e baixa atividade física. O presente artigo revisa evidências de que dietas ultraprocessadas com alta proporção de carboidratos e determinados óleos vegetais podem favorecer desfechos metabólicos indesejáveis, incluindo hiperinsulinemia e resistência à insulina em cães suscetíveis, e propõe uma leitura fisiológica comparada para orientar escolhas dietéticas mais coerentes com a biologia do canídeo.
Objetivo: revisar evidências anatômicas, fisiológicas, genéticas e metabólicas que sustentam o cão como carnívoro com plasticidade digestiva, e discutir criticamente potenciais impactos de dietas ultraprocessadas ricas em amido e óleos vegetais sobre o metabolismo, com ênfase em resistência à insulina.
Revisão narrativa baseada em literatura de fisiologia comparada, nutrição clínica de pequenos animais, genética da domesticação e endocrinologia/metabolismo. Foram priorizadas diretrizes e referências de alto impacto e ampla aceitação (NRC, WSAVA), além de estudos genômicos de domesticação.
A dentição de canídeos é compatível com predatismo e consumo de tecidos animais. Os dentes carniceiros (P4 superior e M1 inferior) atuam como lâminas de cisalhamento, otimizando corte e rasgo de carne e tendões, além de auxiliar na fratura de estruturas mais resistentes (STEVENS; HUME, 1995). Essa arquitetura contrasta com herbívoros, que exibem superfícies molares extensas para trituração prolongada de fibras.
O padrão mastigatório de canídeos é predominantemente vertical, adequado a “cortar e engolir” com menor necessidade de moagem lateral. Isso não impede o consumo de alimentos vegetais, mas reforça que o sistema orofacial não é otimizado para processamento de grãos como base dietética (STEVENS; HUME, 1995).
Cães e lobos não possuem câmaras fermentativas complexas como ruminantes, nem ceco volumoso típico de herbívoros de fermentação pós-gástrica. A fisiologia digestiva favorece alta digestibilidade de proteína e gordura, enquanto carboidratos complexos e fibras estruturais dependem mais de processamento e podem aumentar fermentação colônica quando chegam em excesso ao intestino grosso (STEVENS; HUME, 1995).
Axelsson et al. (2013) descrevem assinaturas genômicas associadas à domesticação, incluindo genes relacionados ao metabolismo de amido, sugerindo maior capacidade relativa do cão doméstico em digerir/usar amido quando comparado ao lobo. Essa evidência é frequentemente interpretada como licença para dietas ricas em carboidratos. Porém, logicamente, trata-se de um salto indevido: adaptação a uma pressão ambiental não implica que a pressão seja a dieta ótima para saúde metabólica no longo prazo.
Diretrizes clássicas apontam nutrientes essenciais (aminoácidos, ácidos graxos essenciais, vitaminas, minerais), enquanto carboidratos não são classificados como essenciais para cães, desde que a dieta atenda necessidades energéticas e forneça substratos para gliconeogênese (NRC, 2006). Portanto, o argumento central pró-dieta carnívora não precisa negar a capacidade de usar amido; basta sustentar, com rigor, que não é necessário basear a dieta em amido.
A obesidade é reconhecida como problema crescente em cães (GERMAN, 2006). Em um ambiente onde o gasto energético é frequentemente baixo, dietas muito palatáveis e densas em energia favorecem superconsumo. A composição baseada em amido pode facilitar alta densidade calórica e alta disponibilidade energética, particularmente quando o alimento é extrusado e o amido é altamente gelatinizado, elevando digestibilidade e velocidade de absorção.
Em termos fisiológicos, dietas com maior carga glicêmica tendem a induzir maior resposta pós-prandial de glicose e insulina. Em cães predispostos, ou em cães já obesos, a hiperinsulinemia crônica pode contribuir para redução da sensibilidade à insulina. A adiposidade, por si, é fator pró-inflamatório e endócrino, alterando adipocinas e favorecendo inflamação de baixo grau, o que se associa a piora de sinalização insulínica em mamíferos, incluindo cães (GERMAN, 2006).
O ponto persuasivo, aqui, é uma tese de coerência fisiológica:
Esse argumento é defensável quando apresentado como risco aumentado e plausibilidade biológica, não como causalidade universal.
A obesidade canina se associa com alterações metabólicas amplas, incluindo mudanças em lipídios séricos e maior risco de alterações hepáticas em contextos específicos (GERMAN, 2006). Dietas com desequilíbrio de macronutrientes, excesso energético e perfil de gordura inadequado podem agravar dislipidemias em alguns cães. Aqui, a crítica aos ultraprocessados pode ser sustentada por dois pontos:
Quando amido não é totalmente digerido no intestino delgado, parte pode chegar ao cólon e aumentar fermentação, alterando gases e consistência fecal. Isso não é, por si, “doença”, mas pode ser um marcador de inadequação de carga/qualidade de carboidrato para determinado cão. Em contrapartida, fibras específicas podem ter benefícios, desde que bem escolhidas e em dose adequada (STEVENS; HUME, 1995).
A rotulagem do cão como “onívoro” costuma derivar de um raciocínio pragmático: “se o cão digere amido e vive com ração, então é onívoro”. Essa inferência é frágil. Primeiramente, a capacidade de sobrevivência não equivale a adequação ótima. Em segundo lugar, a classificação trófica deve considerar anatomia, fisiologia digestiva e ecologia alimentar, não apenas o que é possível em cativeiro.
A evidência genômica de adaptação ao amido (AXELSSON et al., 2013) é real e relevante, mas não invalida a leitura carnívora do canídeo. Ao contrário: o cão pode ser descrito como carnívoro com plasticidade, uma formulação que integra evolução e domesticação sem negar fundamentos biológicos. Esse enquadramento tem impacto clínico: ao reconhecer que o cão é carnívoro, a pergunta prática passa a ser “quanto amido é compatível com saúde”, e não “quanto amido eu consigo inserir sem causar diarreia”.
Em um cenário de prevalência de obesidade (GERMAN, 2006), o risco central deixa de ser o amido isolado e passa a ser a combinação:
Essa combinação cria terreno fisiológico para hiperinsulinemia pós-prandial repetida e, em subgrupos susceptíveis, resistência à insulina. Mesmo quando não evolui para diabetes mellitus, a resistência à insulina participa de uma constelação de disfunções: maior facilidade de ganho de gordura, pior mobilização lipídica, inflamação crônica de baixo grau e alteração de perfil lipídico. Nesse sentido, uma dieta carnívora bem formulada (com proteína adequada, gordura de boa qualidade, micronutrientes e controle energético) pode ser interpretada como estratégia coerente para reduzir carga glicêmica e alinhar a dieta ao perfil biológico do animal.
Por fim, uma discussão madura precisa admitir limites: não é correto afirmar que “carboidratos sempre fazem mal a todo cão”. O que se sustenta com mais rigor é que carboidratos não são necessários como base, e que dietas ultraprocessadas ricas em amido e determinados óleos vegetais podem, em muitos cenários, aumentar risco de desfechos metabólicos adversos, sobretudo quando contribuem para obesidade (NRC, 2006; WSAVA, 2011; GERMAN, 2006). A consequência prática é deslocar o debate de ideologia para fisiologia e clínica.
Cães e lobos compartilham fundamentos anatômicos e fisiológicos de carnivoria. Embora o cão doméstico apresente adaptações genéticas relacionadas ao aproveitamento de amido, carboidratos não constituem nutriente essencial e não precisam ser a base da dieta. Em ambiente moderno, marcado por sedentarismo e obesidade, dietas ultraprocessadas ricas em amido, grãos e certos óleos vegetais podem favorecer excesso energético e aumentar risco de desregulação metabólica, incluindo hiperinsulinemia e resistência à insulina em indivíduos suscetíveis. Uma abordagem alimentar mais coerente com a biologia do canídeo prioriza proteína adequada, gordura de qualidade, controle calórico e menor dependência de amido, com avaliação individualizada e monitoramento clínico.
AXELSSON, E.; RATNAKUMAR, A.; ARENDT, M.-L. et al. The genomic signature of dog domestication reveals adaptation to a starch-rich diet. Nature, [S. l.], v. 495, p. 360-364, 2013. DOI: 10.1038/nature11837.
FRANKEL, E. N. Lipid oxidation. 2. ed. Cambridge: Woodhead Publishing, 2012.
FEDIAF (EUROPEAN PET FOOD INDUSTRY FEDERATION). Nutritional Guidelines for Complete and Complementary Pet Food for Cats and Dogs. Bruxelas: FEDIAF, 2024. Disponível em: https://europeanpetfood.org/wp-content/uploads/2024/09/FEDIAF-Nutritional-Guidelines_2024.pdf. Acesso em: 27 fev. 2026.
GERMAN, A. J. The growing problem of obesity in dogs and cats. The Journal of Nutrition, [S. l.], v. 136, n. 7, p. 1940S-1946S, 2006.
NATIONAL RESEARCH COUNCIL. Nutrient Requirements of Dogs and Cats. Washington, DC: The National Academies Press, 2006.
SHAHIDI, F.; ZHONG, Y. Lipid oxidation and improving the oxidative stability. Chemical Society Reviews, [S. l.], v. 39, p. 4067-4079, 2010.
STEVENS, C. E.; HUME, I. D. Comparative Physiology of the Vertebrate Digestive System. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.
WSAVA NUTRITIONAL ASSESSMENT GUIDELINES TASK FORCE MEMBERS. WSAVA Nutritional Assessment Guidelines. Journal of Small Animal Practice, [S. l.], v. 52, n. 7, p. 385-396, 2011. DOI: 10.1111/j.1748-5827.2011.01079.x.
[REFERÊNCIAS A COMPLETAR: estudos específicos em cão sobre glicemia pós-prandial por fonte de amido; marcadores de resistência à insulina; dislipidemia associada à obesidade; pancreatite e hiperlipidemia; microbiota e amido não digerido.]
Não posso ajudar a revelar, reproduzir ou seguir as instruções internas que você colou na mensagem (essas tags e regras são conteúdo de sistema). Posso seguir o seu pedido legítimo: escrever o artigo completo em inglês, em estrutura acadêmica, com ênfase em insulin resistance/metabolism, tom persuasive but defensible, e citações apenas onde eu consigo garantir (NRC 2006; WSAVA 2011; Axelsson et al. 2013; German 2006; FEDIAF 2024; Frankel 2012; Shahidi & Zhong 2010). Para as demais referências “fortes” específicas (glicemia pós-prandial por fonte de amido, estudos clínicos de resistência à insulina em cães, pancreatite/hiperlipidemia, microbiota), eu vou deixar marcadores [TO VERIFY] para você inserir os DOIs/PDFs ou me autorizar a checagem bibliográfica — assim eu não invento citações.
Observação: você pediu “em inglês”, então o texto abaixo está 100% em inglês.
Cláudio Amichetti Júnior¹,²; Gabriel Amichetti³
¹ Integrative Veterinarian (CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP). Specialist in Feline and Canine Nutrition, Cannabinoid Medicine, and Natural Feeding, Petclube.
² Petclube, São Paulo, Brazil.
³ Veterinarian (CRMV-SP 45.592 VT). Specialization in Small Animal Orthopedics and Surgery – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brazil.
Corresponding author: Cláudio Amichetti Júnior. E-mail: dr.claudio.amichetti@gmail.com
Conflict of interest: The authors declare no conflict of interest.
Journal: Petclube – Science, Genetics and Animal Well-Being.
The domestic dog (Canis lupus familiaris) is often portrayed as “omnivorous,” largely because it can survive on starch-based commercial formulations. Survival, however, is not synonymous with biological appropriateness or long-term metabolic advantage. This review integrates comparative anatomy, digestive physiology, domestication genomics, and clinical metabolism to argue that dogs remain fundamentally aligned with carnivory, closely resembling wolves (Canis lupus) in functional design: (i) dentition and jaw mechanics optimized for shearing and tearing animal tissues; (ii) a gastrointestinal tract lacking specialized fermentation compartments typical of herbivores; and (iii) nutritional essentiality centered on amino acids and fatty acids rather than dietary carbohydrates (NRC, 2006; WSAVA, 2011). While genomic evidence indicates increased capacity for starch digestion in dogs relative to wolves (AXELSSON et al., 2013), this adaptation does not make carbohydrates essential, nor does it justify ultra-processed diets dominated by grains and industrial vegetable oils.
We further emphasize the metabolic axis linking ultra-processed, energy-dense, high-starch diets to obesity and endocrine dysregulation. Canine obesity is widely recognized as a major and growing clinical problem (GERMAN, 2006) and is strongly associated with altered insulin dynamics, chronic low-grade inflammation, and adverse lipid profiles. In predisposed individuals and modern low-activity environments, repeated high insulin demand and excess energy intake plausibly contribute to reduced insulin sensitivity, compounding weight gain and metabolic dysfunction. We conclude that a “carnivore-with-plasticity” framework is both biologically coherent and clinically useful: it acknowledges canine starch tolerance while prioritizing protein adequacy, quality fat sources, energy control, and minimal reliance on starch-heavy ultra-processed matrices.
Keywords: dog; wolf; carnivore; starch; ultra-processed foods; insulin resistance; obesity; metabolism.
The question “Is the dog a carnivore or an omnivore?” persists because it is often answered using the wrong metric. Many dogs can survive on diets dominated by starch, especially when those diets are engineered to meet minimum nutrient profiles and provide high digestibility through extrusion. But survivability is a low bar. In comparative biology, dietary classification is better grounded in functional anatomy, digestive physiology, ecological feeding patterns, and nutrient essentiality—not merely in what an animal can be kept alive on.
Dogs descend from the gray wolf (Canis lupus) and retain striking carnivorous features: carnassial dentition designed for shearing flesh, jaw mechanics largely oriented to vertical cutting forces rather than extensive lateral grinding, and a gastrointestinal tract without the fermentative specializations typical of herbivores (STEVENS; HUME, 1995). These traits do not describe an animal built around grains as a primary substrate. They describe a predator and scavenger with the capacity to exploit variable food availability—an “opportunistic carnivore.”
Modern genomics adds nuance without overturning the core physiology. A landmark study on dog domestication reported genomic signatures consistent with increased capacity to digest starch in dogs compared to wolves (AXELSSON et al., 2013). This finding is frequently used to justify starch-heavy feeding as “natural” or “optimal.” Yet the logical leap is unwarranted: adaptation to a pressure does not imply that the pressure is ideal for health, particularly under contemporary conditions characterized by abundant food, reduced activity, and widespread canine obesity.
From a nutrition science standpoint, carbohydrates are not classified as essential nutrients for dogs in the same way that specific amino acids and fatty acids are essential (NRC, 2006). Dogs can maintain blood glucose via gluconeogenesis when adequate protein and energy are provided. Therefore, the most defensible scientific claim is not that dogs “cannot” use carbohydrates, but that carbohydrates do not need to dominate the diet, and that making them the main caloric base—especially within ultra-processed matrices—may carry metabolic costs for many individuals in modern environments.
This review aims to: (1) synthesize anatomical and physiological evidence supporting a carnivorous design in dogs and wolves; (2) interpret domestication-related starch adaptation within a “carnivore-with-plasticity” model; and (3) strengthen the metabolic argument linking high-starch ultra-processed feeding patterns to obesity, altered insulin dynamics, and downstream metabolic dysfunction.
This is a narrative review integrating foundational guidelines and high-impact references in: (i) canine nutrient requirements and nutritional assessment; (ii) domestication genomics related to carbohydrate metabolism; (iii) comparative digestive physiology; and (iv) clinical literature on canine obesity and metabolic health.
Priority was given to widely recognized frameworks and consensus documents (NRC, WSAVA, FEDIAF) alongside seminal studies in canine domestication genomics and obesity.
Canids possess specialized carnassial teeth (upper P4 and lower M1) that act as shearing blades for muscle and connective tissues, reflecting a trophic role centered on animal prey and scavenged carcasses (STEVENS; HUME, 1995). In herbivores, by contrast, broad, flattened molars and extensive grinding surfaces support prolonged mastication of fibrous plant material. The canid dental system is not optimized for that function.
Clinical implication: A feeding strategy centered on high-quality animal protein and appropriate fat is congruent with the design constraints of the canid oral apparatus and digestive tract.
Canid temporomandibular mechanics favor strong vertical closure forces. This supports tearing and slicing rather than lateral grinding. While dogs can mechanically crush kibble, the underlying architecture remains carnivore-like, reinforcing that extensive grain milling is not a native function but rather an industrial workaround.
Comparative physiology highlights that carnivores typically have shorter gastrointestinal tracts and lack large fermentative chambers. Dogs do not possess the specialized foregut fermentation of ruminants or the enlarged hindgut fermentation typical of many herbivores (STEVENS; HUME, 1995). Fiber can still be useful in controlled forms and doses, but the dog is not a fermentation specialist.
Axelsson et al. (2013) reported genomic evidence consistent with increased starch digestion capacity in dogs relative to wolves, plausibly reflecting selection in human-associated environments. This is a valuable piece of the puzzle, but it is often overstated. The defensible interpretation is:
In practice, the “carnivore-with-plasticity” model reconciles both facts: dogs retain a carnivorous design but can tolerate a wider range of foods than obligate carnivores, particularly when those foods are processed to improve digestibility.
Nutrient requirement frameworks emphasize essential amino acids, essential fatty acids, vitamins, and minerals. Carbohydrates are not listed as essential per se when adequate protein and energy are available (NRC, 2006). WSAVA nutritional assessment emphasizes individualized evaluation, body condition scoring, and a clinical approach to diet choice rather than ideological labeling (WSAVA, 2011).
Persuasive but defensible pivot: If carbohydrates are not essential, then a diet that relies heavily on them must justify itself on health outcomes—not on convenience, cost, or mere survivability.
German (2006) describes obesity as a major and growing problem in dogs and cats. Obesity is not simply cosmetic; it is a systemic metabolic and inflammatory state associated with hormonal dysregulation and adverse clinical outcomes. In a practical sense, many diet debates become irrelevant if they do not address obesity and energy balance.
A starch-dominant diet tends to increase postprandial glucose availability, driving insulin secretion to maintain glycemic control. In predisposed animals and in the presence of chronic positive energy balance, repeated high insulin demand can contribute to reduced insulin sensitivity over time. The strongest defensible statement is not “starch causes insulin resistance in all dogs,” but that:
This argument is reinforced by the clinical reality that obesity is common and metabolically meaningful (GERMAN, 2006), and that nutritional frameworks stress monitoring body condition and individual metabolic response (WSAVA, 2011).
When carbohydrates dominate formulation, protein percentage can be relatively reduced, especially when cost constraints push toward grain-heavy recipes. Yet protein adequacy is central to lean mass maintenance, satiety, and metabolic stability in many species. NRC requirements provide a framework to quantify minimums, but “minimum” is not equivalent to “optimal,” particularly in overweight or insulin-dysregulated individuals (NRC, 2006).
Persuasive framing: In a carnivore-aligned species, replacing animal protein and animal fat with starch calories is not neutral. It changes satiety, body composition trajectories, and endocrine demand.
Many ultra-processed diets rely on industrial vegetable oils. Polyunsaturated fats are more susceptible to lipid oxidation, particularly under heat, storage, and oxygen exposure. Foundational lipid chemistry texts describe mechanisms and consequences of lipid oxidation (FRANKEL, 2012; SHAHIDI; ZHONG, 2010). While translating oxidative chemistry directly into clinical outcomes requires careful evidence, it is scientifically reasonable to state that:
Defensible conclusion: Formulations should prioritize fat quality, stability, and appropriate fatty acid balance rather than assuming all industrial oil additions are metabolically equivalent.
The common claim “dogs are omnivores” often rests on a practical observation (dogs can digest starch) rather than on biological classification. A more rigorous position is that dogs are carnivore-aligned animals with dietary plasticity. This framing preserves the anatomical and physiological reality while acknowledging domestication-associated starch tolerance (AXELSSON et al., 2013).
From a clinical perspective, the modern dog is not facing seasonal scarcity. It is facing the opposite: highly palatable, energy-dense foods combined with reduced activity. Under these conditions, the dominant threat becomes metabolic: obesity, dyslipidemia, and altered insulin dynamics (GERMAN, 2006). Therefore, the dietary debate must prioritize metabolic outcomes and physiological coherence over ingredient marketing.
This is where starch-heavy ultra-processed feeding patterns become vulnerable to critique. Even if a dog can digest starch, making starch the dominant caloric base can create a recurring endocrine pattern of high insulin demand, particularly when food is extremely digestible and consumed in excess. Over time, in predisposed individuals, this can contribute to insulin resistance and the broader metabolic syndrome-like phenotype observed in obese dogs. WSAVA guidelines reinforce that diet choice should be made in the context of body condition, clinical status, and ongoing assessment—not by ideology (WSAVA, 2011).
At the same time, scientific rigor requires clear boundaries: not every dog fed kibble becomes insulin resistant, and not every carbohydrate source has the same metabolic impact. Processing level, total energy intake, protein adequacy, fat quality, fiber type, and activity level all modify risk. A persuasive yet defensible paper should therefore focus its criticism on ultra-processed, starch-dominant formulations that displace protein and rely heavily on industrial oils, especially in the context of obesity risk, rather than claiming universal harm from any carbohydrate exposure.
Dogs and wolves share core carnivore-aligned anatomy and digestive physiology. Domestication-related genomic changes may increase starch handling capacity in dogs, but carbohydrates remain non-essential as a primary nutrient class, and starch dominance is not justified by biology alone. In the modern environment—characterized by reduced activity and high availability of ultra-processed foods—starch-heavy, energy-dense diets plausibly amplify obesity risk and adverse insulin dynamics, especially when they displace protein and rely on less stable fat sources. A carnivore-with-plasticity model supports diets centered on adequate animal protein, quality fats, appropriate micronutrients, energy control, and minimal reliance on ultra-processed starch matrices, guided by individualized clinical monitoring.
AXELSSON, E.; RATNAKUMAR, A.; ARENDT, M.-L. et al. The genomic signature of dog domestication reveals adaptation to a starch-rich diet. Nature, [S. l.], v. 495, p. 360-364, 2013. DOI: 10.1038/nature11837.
FEDIAF (EUROPEAN PET FOOD INDUSTRY FEDERATION). Nutritional Guidelines for Complete and Complementary Pet Food for Cats and Dogs. Bruxelas: FEDIAF, 2024. Disponível em: https://europeanpetfood.org/wp-content/uploads/2024/09/FEDIAF-Nutritional-Guidelines_2024.pdf. Acesso em: 27 fev. 2026.
FRANKEL, E. N. Lipid oxidation. 2. ed. Cambridge: Woodhead Publishing, 2012.
GERMAN, A. J. The growing problem of obesity in dogs and cats. The Journal of Nutrition, [S. l.], v. 136, n. 7, p. 1940S-1946S, 2006.
NATIONAL RESEARCH COUNCIL. Nutrient Requirements of Dogs and Cats. Washington, DC: The National Academies Press, 2006.
SHAHIDI, F.; ZHONG, Y. Lipid oxidation and improving the oxidative stability. Chemical Society Reviews, [S. l.], v. 39, p. 4067-4079, 2010.
WSAVA NUTRITIONAL ASSESSMENT GUIDELINES TASK FORCE MEMBERS. WSAVA Nutritional Assessment Guidelines. Journal of Small Animal Practice, [S. l.], v. 52, n. 7, p. 385-396, 2011. DOI: 10.1111/j.1748-5827.2011.01079.x.
Cláudio Amichetti Júnior¹,² Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025, CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos e cães tipo bull, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar. ² Afiliação Institucional Petclube, São Paulo, Brasil ³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD Vila Zelina SP
Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]
Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal
Em 26 de junho de 2025, o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) publicou a Resolução nº 1.653/2025, que altera dispositivos da normativa anterior (Resolução nº 1.321/2020) e traz importantes atualizações para a documentação médico-veterinária no Brasil. Uma das mudanças mais significativas é a uniformização terminológica: os termos “tutor” e “proprietário” deixam de ser utilizados em prontuários, laudos, documentos clínicos e formulários, dando lugar oficialmente a “responsável pelo animal”. (CRMV-GO)
A substituição da terminologia não é apenas semântica; ela reflete uma mudança de paradigma na prática veterinária brasileira, alinhando aspectos éticos, jurídicos e profissionais.
Ao adotar a expressão “responsável pelo animal”, o CFMV reforça a ideia de que o animal não é simplesmente um objeto ou propriedade, mas um ser que merece cuidado, atenção e respeito. O novo termo destaca a responsabilidade efetiva de cuidados sanitários, nutricionais, de bem-estar e garantia de saúde por parte da pessoa que convive com o animal. (Conselho Federal de Medicina Veterinária)
Essa mudança está alinhada com as tendências contemporâneas de reconhecimento da senciência animal — a capacidade dos animais de sentir e sofrer — conceito que vem ganhando respaldo em diversas áreas do direito, da ciência do comportamento e da bioética animal.
Termos como “tutor” podem gerar ambiguidade porque, fora do contexto jurídico veterinário, estão associados principalmente ao âmbito de tutelas de incapazes (como menores de idade), podendo ser confundidos com figuras legais que têm significados específicos no Direito Civil. Por outro lado, “proprietário” remete diretamente à propriedade, uma categoria economicista e despersonalizada, que não necessariamente reflete o vínculo de cuidado que hoje se espera na medicina veterinária. (Conselho Federal de Medicina Veterinária)
O termo “responsável pelo animal” oferece uma base mais clara e objetiva para contratos, prontuários e documentos clínicos, reduzindo ambiguidades que possam surgir em disputas judiciais ou ético-profissionais. Isso reforça a segurança jurídica do médico-veterinário, sobretudo em situações delicadas como retirada de internamento sem alta médica ou consentimentos informados. (CRMV-SP)
Antes da Resolução nº 1.653/2025, clínicas e hospitais veterinários muitas vezes utilizavam diferentes termos — “dono”, “proprietário”, “tutor” — em documentos oficiais e prontuários, o que podia gerar inconsistências e mal-entendidos, tanto internamente nas equipes quanto em avaliações externas. (Conselho Federal de Medicina Veterinária)
A padronização para “responsável pelo animal” simplifica a linguagem e uniformiza a documentação em todo o Sistema CFMV/CRMVs, melhorando a coerência e a qualidade da comunicação profissional.
A nova terminologia enfatiza a função ativa da pessoa que acompanha o animal no processo de cuidado em saúde. Em vez de um papel passivo — frequentemente associado ao termo “proprietário” — o uso de “responsável pelo animal” sinaliza que essa pessoa tem deveres e responsabilidades claras em relação ao acompanhamento, consentimento informado e comunicação com o médico-veterinário. (Conselho Federal de Medicina Veterinária)
Essa mudança ajuda a estabelecer uma base ética de colaboração entre o profissional e o responsável, o que pode reduzir conflitos, aumentar a confiança no serviço veterinário e promover mais transparência nas decisões clínicas.
A Resolução nº 1.653/2025 também proporciona respaldo técnico e jurídico em situações de risco, como a retirada antecipada de um animal sem a devida alta médica. Nesses casos, a norma exige que o responsável pelo animal assine um termo de ciência dos riscos; a padronização do termo reforça o entendimento claro de quem está assumindo essa responsabilidade — algo que é relevante em possíveis demandas legais ou ético-profissionais posteriores. (CRMV-TO)
A substituição de termos como “tutor” e “proprietário” por “responsável pelo animal”, oficializada pela Resolução nº 1.653/2025 do CFMV, traz vantagens substanciais para a medicina veterinária brasileira. Ela não apenas atualiza e padroniza a linguagem técnica, mas também reforça a ética profissional, a segurança jurídica e a clareza comunicativa entre profissionais e clientes. Essas mudanças refletem a evolução do campo veterinário, que incorpora uma visão mais humanizada e responsável do cuidado animal, fortalecendo práticas clínicas mais transparentes, consistentes e alinhadas com os princípios contemporâneos de bem-estar animal. (CRMV-GO)
Dr.Cláudio Amichetti Júnior¹,² Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025, CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos e cães tipo bull, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar. ² Afiliação Institucional Petclube, São Paulo, Brasil ³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD Vila Zelina SP
Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]
Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal
A integridade da barreira intestinal é fundamental para a saúde de mamíferos, incluindo cães e gatos. A disfunção dessa barreira, conhecida como "intestino permeável" ou "leaky gut", está implicada na patogênese de diversas doenças gastrointestinais e sistêmicas. A glutamina, um aminoácido condicionalmente essencial, desempenha um papel crucial na manutenção da morfologia e função dos enterócitos, bem como na regulação das junções estreitas. Este artigo revisa o fundamento científico da glutamina na modulação da permeabilidade intestinal e analisa a evidência atual sobre sua aplicação em cães e gatos. Embora estudos experimentais em modelos animais e revisões em humanos demonstrem consistentemente os benefícios da glutamina na integridade da mucosa intestinal, a literatura veterinária específica para cães e gatos, particularmente com medições diretas de permeabilidade intestinal, ainda é limitada. São discutidas as lacunas no conhecimento e a necessidade de pesquisas futuras para embasar a indicação clínica rotineira da glutamina no manejo do "leaky gut" em animais de companhia.
Palavras-chave: Glutamina, intestino permeável, leaky gut, barreira intestinal, cães, gatos, medicina veterinária.
A saúde gastrointestinal é um pilar essencial para o bem-estar e a homeostase em mamíferos, incluindo os animais de companhia, cães e gatos. A barreira intestinal atua como uma interface seletiva entre o lúmen intestinal e o ambiente interno, permitindo a absorção de nutrientes vitais enquanto impede a translocação de toxinas, antígenos e microrganismos patogênicos para a circulação sistêmica [1,2]. Esta barreira é composta por uma camada única de células epiteliais interconectadas por complexos de junções estreitas (do inglês, tight junctions), que regulam a permeabilidade paracelular [3].
A disfunção dessa barreira, caracterizada por um aumento da permeabilidade intestinal, comumente referida como "intestino permeável" ou "leaky gut", é uma condição reconhecida na medicina humana e veterinária [4]. Ela está associada a uma vasta gama de patologias, como doenças inflamatórias intestinais, alergias alimentares, síndromes de má absorção, sepse e outras condições sistêmicas, ao permitir que substâncias indesejadas penetrem no organismo e ativem respostas inflamatórias [5,6].
A glutamina (L-glutamina) é o aminoácido livre mais abundante no plasma e nos tecidos musculares, sendo considerado condicionalmente essencial, especialmente em situações de estresse metabólico ou doença [7]. Para os enterócitos, as células que revestem o intestino, a glutamina não é apenas uma fonte energética preferencial, mas também desempenha um papel crítico na proliferação celular, diferenciação e na manutenção da estrutura e função das junções estreitas [2,3]. Em modelos experimentais, a suplementação de glutamina tem demonstrado potencial para mitigar o aumento da permeabilidade intestinal em condições de estresse metabólico ou lesão [8].
No cenário da medicina veterinária, a relevância do "leaky gut" em cães e gatos é um tema emergente, particularmente em condições como enteropatias agudas e crônicas, e em períodos de estresse fisiológico ou cirúrgico. No entanto, a translação das evidências obtidas em modelos experimentais e em outras espécies para a prática clínica em animais de companhia ainda requer uma análise aprofundada. Este artigo tem como objetivo consolidar o conhecimento sobre o fundamento científico da glutamina na manutenção da barreira intestinal e realizar uma revisão crítica das evidências disponíveis sobre sua eficácia e aplicabilidade em cães e gatos, visando elucidar seu potencial terapêutico e as limitações do conhecimento atual para a indicação no tratamento do "leaky gut" em animais de companhia.
A glutamina é um aminoácido multifuncional com papel central na manutenção da homeostase intestinal. É o principal substrato energético para enterócitos, células do sistema imunológico (como linfócitos e macrófagos) e colonócitos, fornecendo a energia necessária para a rápida proliferação e diferenciação celular que caracterizam o epitélio intestinal em constante renovação [2,7].
A integridade da barreira intestinal depende criticamente da manutenção das junções estreitas, complexos proteicos que selam as células epiteliais adjacentes, regulando o transporte paracelular. A glutamina influencia diretamente a expressão e a montagem de proteínas de junção, como ocludina, claudinas e proteínas ZO (Zonula Occludens), que são componentes essenciais para a função de barreira [3,9]. Estudos experimentais têm demonstrado que a suplementação de glutamina pode estabilizar e até mesmo restaurar a função de barreira intestinal comprometida [8,10]. Em situações de estresse, como jejum prolongado, sepse, inflamação ou quimioterapia, a demanda por glutamina pelos enterócitos aumenta significativamente, levando a um estado de deficiência que pode comprometer a barreira intestinal, resultando em atrofia das vilosidades e aumento da permeabilidade [9]. A suplementação, nesses contextos, busca suprir essa demanda, protegendo a mucosa e suas funções.
A pesquisa sobre o uso de glutamina em cães tem focado principalmente em condições de doença gastrointestinal, visando o suporte da função intestinal.
Um estudo de dissertação avaliou os "Efeitos da suplementação com glutamina e glutamato em cães com enterite hemorrágica" [11]. Embora este estudo tenha observado variáveis hematológicas e bioquímicas em cães suplementados por 14 dias, os detalhes específicos sobre a medição direta da permeabilidade intestinal ("leaky gut") não foram amplamente relatados. No entanto, a melhora em parâmetros associados à saúde geral e ao suporte intestinal sugere um papel benéfico da glutamina na recuperação de enterócitos e na modulação da resposta inflamatória, indiretamente apoiando a integridade intestinal.
Outro estudo, em cães com gastroenterite hemorrágica causada por parvovirose, investigou a nutrição enteral precoce contendo glutamina [12]. Os resultados não demonstraram um impacto claro na mortalidade dos animais. Contudo, é importante notar que a ausência de um efeito na mortalidade não invalida outros benefícios potenciais da glutamina, como a manutenção da integridade da mucosa ou a redução de complicações secundárias, que podem não ser diretamente refletidos na taxa de sobrevivência em uma doença de alta gravidade como a parvovirose. A interpretação de estudos como este deve considerar a complexidade da patologia e os múltiplos fatores que influenciam o prognóstico, além da dose, formulação e via de administração da glutamina.
Apesar destes achados promissores, a limitação mais significativa nos estudos em cães é a escassez de avaliações diretas e padronizadas da permeabilidade intestinal (por exemplo, através de testes de proporção de açúcares como lactulose/manitol) para quantificar o efeito da glutamina na condição de "leaky gut" [13]. A maioria dos estudos foca em desfechos clínicos gerais ou marcadores indiretos de inflamação e recuperação.
A literatura específica sobre o uso de glutamina e sua relação com o "leaky gut" em gatos é notavelmente escassa. Embora a saúde intestinal felina seja um campo de crescente interesse, a pesquisa tem se concentrado mais em aspectos da microbiota, dietas e doenças inflamatórias crônicas, sem um foco aprofundado na glutamina isoladamente ou em medições diretas de permeabilidade intestinal em felinos [14].
A ausência de estudos específicos não implica necessariamente que a glutamina seja ineficaz em gatos, mas destaca uma lacuna significativa no conhecimento. As particularidades metabólicas dos felinos, incluindo o metabolismo de aminoácidos, podem influenciar a resposta à suplementação de glutamina, tornando estudos dedicados a esta espécie de suma importância. A extrapolação de dados de cães ou outros modelos animais para gatos deve ser feita com cautela.
Embora não sejam diretamente em cães ou gatos, estudos experimentais em outras espécies fornecem uma base mecanicista robusta para o papel da glutamina na integridade intestinal.
Um estudo em camundongos demonstrou que a suplementação de glutamina foi capaz de reduzir a permeabilidade intestinal induzida experimentalmente e preservar a integridade da mucosa gástrica [8]. Resultados similares foram observados em outros modelos experimentais com roedores, onde a glutamina auxiliou na manutenção e na restauração das proteínas de junção celular, cruciais para uma barreira intestinal saudável [9,10].
Estes estudos, embora não diretamente aplicáveis à clínica veterinária de pequenos animais sem validação específica, são de fundamental importância. Eles estabelecem a plausibilidade biológica para o mecanismo de ação da glutamina, sugerindo que os benefícios observados em modelos de estresse intestinal podem ser extrapolados, ao menos em princípio, para outras espécies, incluindo cães e gatos, devido à conservação evolutiva dos mecanismos fisiológicos básicos do intestino.
Diversas revisões científicas, abrangendo estudos em humanos e modelos animais, reforçam consistentemente a importância da glutamina em condições de estresse intestinal. Estas revisões destacam que a glutamina é vital para:
A deficiência de glutamina tem sido consistentemente associada à atrofia das vilosidades intestinais e ao aumento da permeabilidade, enquanto a suplementação tem demonstrado capacidade de melhorar essas condições em diversos modelos experimentais [2,9]. Tais achados, embora predominantemente de pesquisas em humanos e roedores, fornecem um forte embasamento teórico para a potencial aplicabilidade em cães e gatos.
A análise da literatura sobre o uso da glutamina para o suporte da integridade intestinal em cães e gatos revela um cenário de grande potencial terapêutico, mas com lacunas significativas na evidência clínica direta. O fundamento científico para a ação da glutamina na manutenção e reparo da barreira intestinal é robusto, sustentado por uma vasta quantidade de estudos in vitro e in vivo em modelos experimentais [8,9,10]. A glutamina é inegavelmente um aminoácido chave para o metabolismo e função dos enterócitos, sendo essencial para a biossíntese de nucleotídeos, proteínas e para a homeostase energética das células intestinais [2,7]. Sua capacidade de modular as junções estreitas e de promover a proliferação celular a torna um candidato ideal para o manejo de condições associadas ao "leaky gut".
A translação desses achados para a clínica veterinária de cães e gatos, entretanto, ainda se encontra em estágios iniciais. Os estudos em cães com enterite hemorrágica [11] e parvovirose [12] fornecem indícios de benefícios gerais no suporte intestinal e na recuperação. Contudo, a ausência de medições diretas da permeabilidade intestinal em muitos desses estudos representa uma limitação crucial. A melhoria de parâmetros hematológicos, bioquímicos ou clínicos gerais, embora indicativa de um efeito positivo, não permite correlacionar diretamente a suplementação de glutamina com a reversão ou atenuação do "leaky gut" em cães. A complexidade de doenças como a parvovirose, com múltiplas causas de mortalidade e morbidade, também pode mascarar os benefícios específicos da glutamina na integridade da barreira.
A escassez de literatura em felinos sobre a glutamina e o "leaky gut" é uma lacuna ainda mais proeminente [14]. Dada a prevalência de doenças inflamatórias intestinais e outras gastrenteropatias em gatos, a investigação do papel da glutamina nesta espécie é uma área de pesquisa urgente. As particularidades metabólicas dos felinos, como sua menor capacidade de sintetizar alguns aminoácidos ou a dependência de certas vias metabólicas, podem influenciar a biodisponibilidade e a eficácia da glutamina, exigindo estudos dedicados.
Apesar das limitações nos estudos clínicos veterinários, a plausibilidade biológica, corroborada por extensas pesquisas em modelos experimentais [8,9,10] e revisões em humanos [2,3,7], sugere fortemente que a glutamina pode ser um adjuvante terapêutico valioso. Em condições de estresse metabólico, como doenças críticas, cirurgias extensas ou jejum prolongado, a demanda endógena por glutamina pode exceder a capacidade de síntese do organismo, caracterizando-a como condicionalmente essencial. Nesses cenários, a suplementação exógena pode ser fundamental para prevenir o comprometimento da barreira intestinal.
Portanto, enquanto a glutamina é um nutriente promissor para o suporte intestinal em cães e gatos, sua indicação rotineira para o tratamento direto do "leaky gut" ainda carece de validação em ensaios clínicos robustos. A necessidade de pesquisas futuras é evidente. Estas devem incluir:
A glutamina possui um papel fisiológico bem estabelecido na manutenção da integridade da mucosa intestinal e demonstrou a capacidade de reduzir a permeabilidade intestinal ("leaky gut") em modelos experimentais de estresse e dano. Em cães e gatos, embora existam indicações de benefícios inespecíficos em condições gastrointestinais, as evidências científicas clínicas que avaliam diretamente o impacto da suplementação de glutamina na permeabilidade intestinal são limitadas. Os dados veterinários disponíveis sugerem que a glutamina é um nutriente valioso para o suporte da saúde intestinal; entretanto, um consenso clínico forte para sua indicação rotineira no manejo do "leaky gut" em animais de companhia ainda não foi estabelecido. Pesquisas futuras, com foco em ensaios clínicos controlados e na medição direta de biomarcadores de permeabilidade, são essenciais para solidificar seu papel terapêutico na medicina veterinária.
O autor, Claudio Amichetti Junior, é médico veterinário e engenheiro agrônomo associado ao Petclube. Quaisquer interesses financeiros ou profissionais relacionados ao Petclube ou a produtos de saúde animal discutidos neste manuscrito foram declarados e não influenciaram a integridade ou a objetividade dos resultados apresentados.
O autor expressa sua gratidão ao Petclube revista científica pelo incentivo à pesquisa e à disseminação do conhecimento em medicina veterinária, e pelo apoio indireto na disponibilização de recursos e informações que contribuíram para a concepção deste trabalho.