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Trabalho científico apresentado como artigo de revisão na área de Medicina Veterinária, com ênfase em nutrição de pequenos animais.
Autores:
Cláudio Amichetti Júnior¹,²
Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025, CREA 060149829-SP Engenheiro Agrônomo Sustentável, Especialista em Nutrição Felina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Com mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
² [Afiliação Institucional Petclube, São Paulo, Brasil]
³ Médico-veterinário CRMV-SP 45.592 VT, Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – [clínica 3RD Vila Zelina SP]
Autor Correspondente: Cláudio Amichetti Júnior, [dr.claudio.amichetti@gmail.com]
Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal
Este artigo científico explora a aplicação e os potenciais benefícios da incorporação de sais integrais, como o sal do Himalaia, na dieta de animais de estimação. Diferentemente do cloreto de sódio refinado, os sais integrais apresentam um perfil mineralógico complexo, contendo uma vasta gama de macrominerais e elementos traço. Serão detalhados os principais componentes minerais encontrados nesses sais e discutida a sua relevância fisiológica para cães e gatos, embasando-se em literatura científica existente. Embora a pesquisa sobre os efeitos específicos dos sais integrais em animais de estimação ainda seja limitada, a presença de nutrientes essenciais e a ausência de aditivos químicos em concentrações elevadas sugere um valor nutricional distinto. Serão abordadas as considerações sobre dosagem, segurança e a necessidade de supervisão veterinária ao modificar dietas animais, com base em diretrizes nutricionais reconhecidas.
A nutrição animal de estimação tem evoluído significativamente, com um crescente interesse em dietas que não apenas fornecem energia e proteínas, mas também uma gama completa de micronutrientes (National Research Council, 2006). O sal, ou cloreto de sódio (NaCl), é um componente essencial na dieta de cães e gatos, desempenhando um papel crucial na regulação do equilíbrio hídrico, na função nervosa e muscular, e na manutenção da pressão osmótica (Hand et al., 2010). Tradicionalmente, o sal adicionado às rações comerciais é o cloreto de sódio refinado, purificado para conter mais de 97,5% de NaCl.
No entanto, em paralelo ao aumento da popularidade de sais integrais para consumo humano, como o sal do Himalaia, o sal marinho não refinado e sais de rocha de diversas origens, tem surgido um questionamento sobre a sua adequação e potenciais vantagens para animais de estimação. Esses sais integrais distinguem-se pela sua composição geoquímica, que inclui, além do NaCl, uma miríade de outros minerais e elementos traço presentes em concentrações variadas (Karkoszka et al., 2019; Zimmermann et al., 2017). Este artigo busca analisar a composição mineral desses sais e discutir as implicações de sua inclusão na dieta de animais de estimação, com foco nos benefícios nutricionais potenciais e nas precauções necessárias, utilizando dados da literatura científica.
Os sais integrais, como o sal do Himalaia, são conhecidos por conterem uma vasta gama de minerais e elementos traço, que podem chegar a dezenas, muitos dos quais são essenciais para a saúde animal (Karkoszka et al., 2019). A lista a seguir detalha alguns dos componentes mais relevantes e suas funções fisiológicas em mamíferos, incluindo cães e gatos. É crucial notar que as concentrações desses elementos em sais integrais são geralmente baixas (Zimmermann et al., 2017), e a ingestão através do sal deve ser considerada como um complemento e não como a principal fonte desses nutrientes.
Sais integrais contêm uma multiplicidade de elementos traço adicionais, como Boro (B), Lítio (Li), Rubídio (Rb), Vanádio (V), Níquel (Ni), Bromo (Br), Estrôncio (Sr), Alumínio (Al), Titânio (Ti), Zircônio (Zr), entre outros. As funções biológicas de muitos desses elementos são menos definidas ou são necessários em quantidades extremamente pequenas (Zimmermann et al., 2017).
É importante ressaltar a questão dos elementos potencialmente tóxicos, como Arsênico (As), Cádmio (Cd), Chumbo (Pb) e Mercúrio (Hg), que também podem ser detectados em concentrações traço em sais integrais (Karkoszka et al., 2019). No entanto, análises rigorosas de produtos comercializados demonstram que suas concentrações estão geralmente muito abaixo dos limites de segurança estabelecidos por órgãos reguladores internacionais para consumo humano e animal (EFSA, 2004; FDA, 2020), não representando risco de toxicidade quando o sal é consumido em quantidades apropriadas (Pohl et al., 2018).
A principal vantagem do uso de sais integrais em animais de estimação reside no seu perfil mineral mais completo em comparação com o NaCl refinado, que é quase 100% NaCl puro.
Apesar dos potenciais benefícios, a incorporação de sais integrais na dieta de animais de estimação requer cautela e supervisão veterinária:
Sais integrais, notadamente o sal do Himalaia, oferecem um perfil mineralógico mais rico e diversificado do que o cloreto de sódio refinado. A presença de macrominerais e uma vasta gama de elementos traço essenciais pode teoricamente contribuir para um suporte nutricional mais completo em animais de estimação. No entanto, é fundamental considerar que as quantidades desses micronutrientes no sal são modestas e que a dieta principal do animal deve ser a fonte primária de todos os nutrientes essenciais. A segurança do consumo é elevada, pois os elementos potencialmente tóxicos estão em concentrações vestigiais e muito abaixo dos limites de toxicidade estabelecidos por agências reguladoras, conforme demonstrado por estudos geoquímicos (Pohl et al., 2018).
A decisão de utilizar sal integral na dieta de animais de estimação deve ser tomada com moderação e sob orientação profissional veterinária, para evitar excessos de sódio e garantir um equilíbrio nutricional adequado. A pesquisa atual ainda carece de estudos dedicados à biodisponibilidade e aos efeitos específicos dos sais integrais em cães e gatos. Portanto, enquanto o uso desses sais pode ser uma opção para proprietários que buscam fontes menos processadas, a cautela e a consulta veterinária são imperativas. Futuras pesquisas são necessárias para quantificar os benefícios específicos e a biodisponibilidade desses elementos no organismo animal, e para estabelecer diretrizes de dosagem mais precisas para a nutrição de animais de estimação.
autores
Dr. Cláudio Amichetti Júnior¹,²
Gabriel Amichetti³
¹ Médico-veterinário Integrativo – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Eng. Agr.). Especialista em Nutrição Felina e Canina, Medicina Canabinóide e Alimentação Natural, Petclube. Mais de 40 anos de experiência prática dedicados aos felinos e cães tipo bull, com foco em transição dietética e desenvolvimento de protocolos de bem-estar.
² Afiliação Institucional Petclube, São Paulo, Brasil.
³ Médico-veterinário – CRMV-SP 45.592 VT. Especialização em Ortopedia e Cirurgia de Pequenos Animais – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brasil.
Autor correspondente: Cláudio Amichetti Júnior. E-mail: dr.claudio.amichetti@gmail.com
Conflito de interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Periódico: Petclube – Ciência, Genética e Bem-Estar Animal.
A doença renal crônica (DRC) é uma das principais causas de morbidade e mortalidade em gatos domésticos, sobretudo em animais geriátricos, caracterizando-se por perda progressiva e irreversível de néfrons funcionais e consequente declínio da taxa de filtração glomerular. As repercussões clínicas incluem azotemia, alterações do metabolismo mineral, distúrbios hidroeletrolíticos e manifestações sistêmicas que comprometem significativamente a qualidade de vida. As intervenções atualmente recomendadas concentram-se em suporte clínico e desaceleração da progressão, com destaque para dieta renal, controle pressórico, manejo de proteinúria e tratamento de complicações. Apesar de essenciais, essas medidas raramente atuam de forma direta sobre mecanismos biológicos centrais associados à progressão, como inflamação persistente e fibrose. Nesse contexto, pesquisas desenvolvidas no Japão vêm investigando a proteína AIM (Apoptosis Inhibitor of Macrophage; também conhecida como CD5L) como alvo terapêutico promissor, devido ao seu papel na depuração de detritos e na modulação de respostas inflamatórias renais. Evidências experimentais demonstram particularidades na ativação da AIM em felinos e sugerem associação com suscetibilidade a doença renal. Além disso, estudos clínicos recentes avaliaram a administração de AIM recombinante em gatos com DRC, apontando potencial benefício clínico, embora a consolidação dessa abordagem dependa de replicação, padronização de protocolos e avaliação de segurança em longo prazo. Este artigo revisa aspectos fisiopatológicos relevantes da DRC felina, sintetiza as estratégias terapêuticas convencionais com base em diretrizes, e discute criticamente a terapia baseada em AIM à luz da literatura científica disponível.
Palavras-chave: doença renal crônica felina; AIM; CD5L; insuficiência renal; terapias inovadoras.
A doença renal crônica (DRC) em felinos é uma síndrome progressiva marcada por alterações estruturais irreversíveis e redução persistente da função renal. Sua alta prevalência em gatos idosos, somada à evolução frequentemente insidiosa, torna a condição um dos maiores desafios da clínica de felinos. Ainda que múltiplas etiologias possam estar envolvidas, a progressão tende a convergir para vias finais comuns de lesão, incluindo inflamação crônica, alterações hemodinâmicas intrarrenais e fibrose túbulo-intersticial.
Do ponto de vista clínico, a DRC pode se manifestar com poliúria/polidipsia, perda de peso, hiporexia, vômitos e letargia, muitas vezes com apresentação tardia, quando a reserva funcional renal já está substancialmente reduzida. Por isso, recomenda-se estadiamento e monitoramento sistemáticos, de modo a direcionar condutas terapêuticas e prever prognóstico. As diretrizes da International Renal Interest Society (IRIS) são amplamente utilizadas como referência para estadiamento e recomendações de manejo, apoiando a tomada de decisão clínica e o acompanhamento longitudinal.
Apesar da efetividade do manejo convencional para estabilização e melhora de qualidade de vida, persiste uma lacuna terapêutica: a ausência de intervenções amplamente disponíveis e comprovadas que modifiquem de modo direto e consistente os mecanismos patológicos subjacentes à progressão. Nesse cenário, pesquisas conduzidas no Japão têm destacado a proteína AIM (Apoptosis Inhibitor of Macrophage/CD5L) como componente potencialmente relevante para a suscetibilidade felina à doença renal e como alvo para desenvolvimento terapêutico, abrindo perspectiva para estratégias além do suporte clínico tradicional.
A DRC decorre de lesões renais cumulativas e/ou persistentes que evoluem para perda de néfrons e remodelamento do parênquima renal. Independentemente do insulto inicial, a progressão tende a envolver mecanismos comuns, como inflamação persistente, hipóxia, lesão tubular e glomerular, com consequente deposição de matriz extracelular e fibrose.
Entre os eventos fisiopatológicos frequentemente associados, destacam-se:
Dentro do campo dos alvos terapêuticos emergentes, evidências experimentais sugerem que gatos apresentam particularidades relacionadas à AIM (CD5L). Em estudo publicado em Scientific Reports, Sugisawa et al. (2016) relataram que a AIM felina permaneceria inativa durante injúria renal aguda, o que poderia comprometer mecanismos de recuperação e aumentar a suscetibilidade à progressão de doença renal. Esse achado oferece plausibilidade biológica para intervenções terapêuticas que busquem restaurar ou suplementar a função efetiva da AIM, especialmente no contexto de depuração de detritos e modulação de inflamação renal.
O manejo da DRC felina é, em geral, de longo prazo e individualizado, orientado por estadiamento e fatores de risco, com foco em reduzir sinais clínicos, prevenir descompensações e retardar progressão.
A dieta terapêutica renal é um dos pilares do manejo. Recomenda-se restrição de fósforo e ajuste de proteínas, mantendo qualidade nutricional e palatabilidade, especialmente em pacientes com perda de peso e apetite reduzido. Diretrizes de consenso reforçam que a intervenção nutricional pode impactar qualidade de vida e evolução clínica, sendo frequentemente indicada a partir de estágios específicos.
Hipertensão sistêmica e proteinúria estão associadas à progressão mais rápida e a complicações. O controle pressórico e o manejo da proteinúria são, portanto, objetivos terapêuticos relevantes, com medicações selecionadas conforme avaliação clínica e monitoramento.
A desidratação é frequente em pacientes com DRC devido à menor capacidade de concentração urinária. A fluidoterapia (incluindo via subcutânea em casos selecionados) e o manejo de náuseas, apetite e distúrbios eletrolíticos são componentes essenciais para estabilidade clínica e adesão ao tratamento.
O acompanhamento de anemia, distúrbios acidobásicos, alterações do fósforo, perdas nutricionais e sinais gastrointestinais é determinante para o bem-estar e para evitar declínio acelerado.
Embora essas medidas tenham benefício clínico bem estabelecido, seu efeito é predominantemente suportivo, com capacidade limitada de interferir diretamente em mecanismos moleculares e celulares centrais relacionados à progressão e fibrose.
A AIM (CD5L) é uma proteína associada a funções de resposta imune e depuração de detritos. A hipótese terapêutica discutida em pesquisas japonesas propõe que a suplementação de AIM funcional poderia favorecer remoção de detritos e modular ambientes inflamatórios renais, com potencial de influenciar progressão de doença renal.
A base experimental para esse racional inclui dados que associam particularidades da AIM felina à maior suscetibilidade à doença renal (SUGISAWA et al., 2016). Além disso, evidência clínica recente avaliou o impacto de AIM recombinante em gatos com DRC. Tezuka et al. (2026) publicaram em The Veterinary Journal um estudo sobre impacto clínico de AIM em DRC felina, sugerindo relevância clínica da intervenção e reforçando o interesse por estudos adicionais.
Apesar do potencial, para caracterizar uma terapia como efetivamente “modificadora de doença” na DRC felina, ainda são necessários:
A DRC felina combina alta prevalência, evolução prolongada e impacto sistêmico, impondo desafios clínicos e econômicos. O manejo convencional permanece indispensável e fundamentado em consensos e diretrizes, com benefício consistente para controle de sinais e estabilidade clínica. Entretanto, o ponto crítico é que grande parte dessas intervenções atua a jusante, mitigando consequências do declínio funcional, enquanto processos como inflamação persistente e fibrose continuam avançando.
A terapia baseada em AIM representa uma mudança de paradigma por propor intervenção em um eixo biológico com plausibilidade mecanística. O estudo de Sugisawa et al. (2016) fornece um suporte importante ao sugerir que a AIM felina pode ser menos efetiva em condições de injúria renal, aumentando risco de progressão. Complementarmente, a publicação clínica em The Veterinary Journal (TEZUKA et al., 2026) indica que a AIM pode ter impacto clínico em contexto de DRC, o que reforça a necessidade de aprofundamento científico.
Ainda assim, a adoção clínica ampla exige cautela. Mesmo resultados promissores podem não se manter quando avaliados em populações maiores, com diferentes comorbidades e variações de estadiamento (IRIS). Além disso, por se tratar de um produto biológico, aspectos como segurança repetida, imunogenicidade, custo e acesso são determinantes para viabilidade no mundo real. Também é essencial que os desfechos escolhidos em pesquisas reflitam ganhos clínicos relevantes, e não apenas alterações pontuais de biomarcadores.
Portanto, a AIM deve ser compreendida como uma linha promissora e em consolidação, com potencial de ampliar o arsenal terapêutico, mas não como substituto do manejo convencional baseado em diretrizes — ao menos até que evidências adicionais definam sua aplicabilidade, janela terapêutica e impacto consistente em desfechos clínicos.
A doença renal crônica felina permanece como importante desafio na medicina veterinária por sua alta frequência em gatos idosos, progressão irreversível e repercussões sistêmicas que afetam diretamente qualidade de vida e sobrevida. Diretrizes e consensos sustentam um manejo clínico efetivo para estabilização e controle de complicações, baseado principalmente em intervenção nutricional, controle de hipertensão e proteinúria, manutenção de hidratação e suporte a alterações metabólicas e gastrointestinais. Contudo, tais estratégias, embora indispensáveis, são predominantemente suportivas e apresentam limitações para interferir diretamente nos mecanismos patogênicos que impulsionam a progressão, como inflamação persistente e fibrose renal.
As pesquisas desenvolvidas no Japão em torno da proteína AIM (CD5L) fornecem uma perspectiva inovadora ao apontar particularidades da AIM felina associadas à suscetibilidade a doença renal e ao sugerir que a suplementação de AIM recombinante pode ter impacto clínico em gatos com DRC. Ainda que os achados disponíveis sustentem plausibilidade e relevância, a consolidação dessa abordagem requer estudos clínicos adicionais, com delineamento robusto, avaliação de segurança em longo prazo, padronização de protocolos e demonstração consistente de desfechos clinicamente significativos. Caso esses requisitos sejam atendidos, a AIM poderá representar um avanço relevante rumo a terapias com maior potencial de modificar a história natural da DRC felina, complementando — e não substituindo — o manejo convencional baseado em diretrizes.
INTERNATIONAL RENAL INTEREST SOCIETY (IRIS). IRIS guidelines. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://www.iris-kidney.com/iris-guidelines-1. Acesso em: 26 fev. 2026.
INTERNATIONAL RENAL INTEREST SOCIETY (IRIS). IRIS staging system. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://www.iris-kidney.com/iris-staging-system. Acesso em: 26 fev. 2026.
SPARKES, Andrew H.; CANEY, Sarah; CHALHOUB, Serge; ELLIOTT, Jonathan; FINCH, Natalie; GAJANAYAKE, Isuru; LANGSTON, Catherine; LEFEBVRE, Hervé P.; WHITE, Joanna; QUIMBY, Jessica. ISFM consensus guidelines on the diagnosis and management of feline chronic kidney disease. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 18, n. 3, p. 219–239, 2016. DOI: 10.1177/1098612X16631234. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26936494/. Acesso em: 26 fev. 2026.
SUGISAWA, Ryoichi; HIRAMOTO, Eri; MATSUMOTO, Akiko; SAKURAI, Toshihito; KUDO, Kai; TAKEHARA, Hideyuki; MORIOKA, Masanobu; IKEDA, Kazutaka; IKEDA, Takashi; ARAI, Shohei. Impact of feline AIM on the susceptibility of cats to renal disease. Scientific Reports, v. 6, art. 35251, 12 out. 2016. DOI: 10.1038/srep35251. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27731392/. Acesso em: 26 fev. 2026.
TEZUKA, Tetsushi; ARAKAWA, Hiroyuki; KUDO, Kai; TAKEHARA, Hideyuki; MORIOKA, Masanobu; IKEDA, Kazutaka; IKEDA, Takashi. A clinical impact of apoptosis inhibitor of macrophage on feline chronic kidney disease. The Veterinary Journal, v. 315, p. 106545, 2026. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41485732/. Acesso em: 26 fev. 2026.
**Cláudio Amichetti Júnior, DVM, MSc-equivalent (Integrative Veterinary Medicine)**¹,²
Gabriel Amichetti, DVM³
¹ Integrative Veterinarian – CRMV-SP 75.404 VT; MAPA 00129461/2025; CREA 060149829-SP (Agronomist Engineer). Specialist in Feline and Canine Nutrition, Cannabinoid Medicine, and Natural Feeding, Petclube. Over 40 years of hands-on experience dedicated to felines and bull-type dogs, focusing on dietary transition and development of well-being protocols.
² Petclube Institutional Affiliation, São Paulo, Brazil.
³ Veterinarian – CRMV-SP 45.592 VT. Specialization in Orthopedics and Small Animal Surgery – Clínica 3RD, Vila Zelina, São Paulo, Brazil.
Corresponding author: Cláudio Amichetti Júnior. E-mail: dr.claudio.amichetti@gmail.com
Conflict of interest: The authors declare no conflict of interest.
Journal: Petclube – Science, Genetics and Animal Welfare.
Chronic kidney disease (CKD) is one of the most relevant conditions in domestic cats, especially in geriatric patients, due to its high prevalence, progressive nature, and systemic consequences. CKD is characterized by gradual and irreversible loss of functional nephrons, resulting in declining glomerular filtration rate, azotemia, mineral and electrolyte imbalances, and clinical signs that significantly impair quality of life. Current therapeutic management is largely conservative and aims to slow progression and control complications, with emphasis on renal diets, blood pressure control, management of proteinuria, hydration support, and treatment of associated clinical syndromes. Although these measures are essential and beneficial, they generally do not directly target key biological drivers of progression such as persistent inflammation and renal fibrosis. In this context, research developed in Japan has investigated Apoptosis Inhibitor of Macrophage (AIM), also known as CD5L, as a promising therapeutic target due to its role in debris clearance and modulation of inflammatory responses. Experimental evidence indicates species-specific features of feline AIM that may contribute to renal vulnerability, and recent clinical data have assessed recombinant AIM administration in cats with CKD, suggesting potential clinical benefit. However, broader adoption requires further validation, protocol standardization, and long-term safety assessment. This article reviews relevant aspects of feline CKD pathophysiology, summarizes guideline-based conventional management, and critically discusses AIM-based therapy in light of the available scientific literature.
Keywords: feline chronic kidney disease; AIM; CD5L; renal failure; innovative therapies.
Chronic kidney disease (CKD) in cats is a progressive and irreversible syndrome marked by structural renal damage and persistent decline in renal excretory, endocrine, and regulatory functions. Its clinical relevance stems from its high frequency in older cats, the often insidious onset of early-stage disease, and the systemic impact associated with renal functional loss, including disturbances in mineral metabolism, acid–base balance, body condition, hydration, and gastrointestinal function.
In clinical practice, diagnosis, staging, and management are commonly guided by widely adopted frameworks, particularly those provided by the International Renal Interest Society (IRIS). These guidelines support longitudinal monitoring and risk stratification, helping clinicians tailor interventions such as nutritional management, blood pressure control, and proteinuria management to improve outcomes.
Despite progress in standardizing care, conventional treatment remains largely supportive, aiming to stabilize clinical status and slow progression rather than to reverse the underlying pathology. For this reason, therapies with potential to target core pathogenic mechanisms—rather than only downstream consequences—are of high scientific and clinical interest. In this setting, Japanese research has highlighted Apoptosis Inhibitor of Macrophage (AIM/CD5L) as a biologically plausible contributor to feline susceptibility to renal disease and as a potential therapeutic avenue beyond traditional supportive measures.
CKD results from cumulative and/or persistent renal injury leading to nephron loss and progressive parenchymal remodeling. While the initiating cause is frequently multifactorial or not identified in routine clinical settings, progression often converges on shared pathways, including persistent inflammation, intrarenal hemodynamic alterations, tubular and glomerular injury, and extracellular matrix deposition culminating in fibrosis.
Commonly involved pathophysiologic processes include:
Within the field of emerging targets, experimental evidence has focused on feline AIM (CD5L). A study in Scientific Reports suggested that feline AIM remains inactive during acute kidney injury, potentially impairing recovery mechanisms and increasing susceptibility to progression toward chronic renal disease (SUGISAWA et al., 2016). This provides biological plausibility for interventions intended to restore or supplement effective AIM activity, particularly regarding debris clearance and modulation of inflammatory renal microenvironments.
Feline CKD management is typically long-term and individualized, guided by staging and risk factors, with the primary goals of improving clinical signs, preventing decompensation, and slowing progression.
Renal therapeutic diets are a cornerstone of CKD care. Phosphorus restriction and appropriate protein adjustment, while maintaining nutritional adequacy and palatability, are commonly recommended, especially as disease advances. Consensus guidelines emphasize nutrition as a key intervention influencing quality of life and clinical stability.
Systemic hypertension and proteinuria are associated with faster progression and target-organ damage. Therefore, blood pressure control and proteinuria management are important therapeutic objectives, with drug selection and monitoring tailored to the individual patient.
Dehydration is common in cats with CKD due to impaired urine concentrating ability. Hydration support (including subcutaneous fluids in selected cases) and management of nausea, appetite, and electrolyte disturbances are essential to maintain clinical stability and treatment adherence.
Ongoing monitoring and treatment of anemia, acid–base disorders, mineral metabolism disturbances, nutritional losses, and gastrointestinal signs are central to preserving well-being and preventing accelerated decline.
Overall, guideline-based care is essential and effective for stabilization; however, it remains largely supportive, with limited ability to directly modify the cellular and molecular drivers of progression and fibrosis.
AIM (CD5L) is a protein linked to immune-related functions and debris clearance. The therapeutic hypothesis explored in Japan proposes that supplementation with functional AIM could enhance clearance of debris and modulate inflammatory renal environments, potentially influencing the course of renal disease.
Experimental data supporting this rationale include findings connecting feline AIM features to renal disease susceptibility (SUGISAWA et al., 2016). In addition, a recent clinical publication evaluated the clinical impact of recombinant AIM in cats with CKD. Tezuka et al. (2026) reported outcomes consistent with clinical relevance of this intervention in advanced feline CKD, further supporting the need for continued investigation.
Nevertheless, to establish this approach as a disease-modifying therapy in feline CKD, further work is needed, including:
Feline CKD combines high prevalence, long disease course, and systemic impact, creating ongoing clinical and economic challenges. Conventional management remains indispensable and is supported by consensus guidelines, providing consistent benefit for symptom control and stability. However, a central limitation is that many interventions act downstream, mitigating consequences of functional decline while processes such as persistent inflammation and fibrosis continue to advance.
AIM-based therapy is of particular interest because it targets a biologically plausible mechanism. The work by Sugisawa et al. (2016) supports the hypothesis that feline AIM behavior may contribute to renal vulnerability. The more recent clinical publication in The Veterinary Journal (TEZUKA et al., 2026) suggests that AIM may have measurable clinical impact in feline CKD, warranting further robust study designs and careful interpretation.
Clinical adoption, however, requires caution. Even promising results may not replicate across larger, diverse populations with different comorbidities and IRIS stages. As a biologic, recombinant AIM also raises practical questions regarding repeated-use safety, immunogenicity, cost, and accessibility. Finally, research should prioritize outcomes that matter clinically—beyond isolated biomarker changes—such as quality of life, functional stability, and meaningful survival benefits.
Therefore, AIM should be considered a promising but still developing therapeutic direction that may eventually expand the treatment arsenal, while guideline-based supportive management remains foundational.
Feline chronic kidney disease remains a major challenge in veterinary medicine due to its high prevalence in older cats, irreversible progression, and systemic consequences that significantly affect quality of life and survival. Guideline- and consensus-based clinical management—including renal nutrition, blood pressure and proteinuria control, hydration support, and complication management—is essential and consistently beneficial for stabilization. However, these strategies are largely supportive and have limited capacity to directly interfere with central pathogenic drivers such as persistent inflammation and renal fibrosis.
Japanese research focusing on AIM (CD5L) offers an innovative perspective by identifying species-specific features of feline AIM associated with renal disease susceptibility and by suggesting that supplementation with recombinant AIM may have clinical impact in cats with CKD. While the available experimental and clinical evidence supports biological plausibility and scientific relevance, wider clinical implementation depends on further robust trials, standardized protocols, and comprehensive long-term safety evaluation. If future studies confirm consistent and clinically meaningful benefits, AIM-based approaches may represent a significant step toward therapies with greater potential to modify the natural history of feline CKD, complementing—rather than replacing—current guideline-based supportive care.
INTERNATIONAL RENAL INTEREST SOCIETY (IRIS). IRIS guidelines. [S. l.], [s. d.]. Available at: https://www.iris-kidney.com/iris-guidelines-1. Access on: 26 Feb. 2026.
INTERNATIONAL RENAL INTEREST SOCIETY (IRIS). IRIS staging system. [S. l.], [s. d.]. Available at: https://www.iris-kidney.com/iris-staging-system. Access on: 26 Feb. 2026.
SPARKES, Andrew H.; CANEY, Sarah; CHALHOUB, Serge; ELLIOTT, Jonathan; FINCH, Natalie; GAJANAYAKE, Isuru; LANGSTON, Catherine; LEFEBVRE, Hervé P.; WHITE, Joanna; QUIMBY, Jessica. ISFM consensus guidelines on the diagnosis and management of feline chronic kidney disease. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 18, n. 3, p. 219–239, 2016. DOI: 10.1177/1098612X16631234. Available at: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26936494/. Access on: 26 Feb. 2026.
SUGISAWA, Ryoichi; HIRAMOTO, Eri; MATSUMOTO, Akiko; SAKURAI, Toshihito; KUDO, Kai; TAKEHARA, Hideyuki; MORIOKA, Masanobu; IKEDA, Kazutaka; IKEDA, Takashi; ARAI, Shohei. Impact of feline AIM on the susceptibility of cats to renal disease. Scientific Reports, v. 6, art. 35251, 12 Oct. 2016. DOI: 10.1038/srep35251. Available at: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27731392/. Access on: 26 Feb. 2026.
TEZUKA, Tetsushi; ARAKAWA, Hiroyuki; KUDO, Kai; TAKEHARA, Hideyuki; MORIOKA, Masanobu; IKEDA, Kazutaka; IKEDA, Takashi. A clinical impact of apoptosis inhibitor of macrophage on feline chronic kidney disease. The Veterinary Journal, v. 315, p. 106545, 2026. Available at: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41485732/. Access on: 26 Feb. 2026.
As doenças da glândula tiroide representam algumas das endocrinopatias mais prevalentes na prática veterinária: o hipertireoidismo felino e o hipotireoidismo canino. Nas últimas décadas, tem surgido interesse clínico e acadêmico sobre a influência da nutrição — particularmente do excesso de carboidratos e seus efeitos metabólicos — no funcionamento da tiroide. Embora a literatura aponte mecanismos biológicos plausíveis que ligam resistência insulínica, obesidade, inflamação crônica de baixo grau e micronutrientes (iodo, selênio, zinco) à função tiroideana, as evidências diretas que associam dietas ricas em carboidratos a doenças tiroideanas em cães e gatos permanecem limitadas. Este artigo analisa criticamente as evidências disponíveis, discute mecanismos fisiopatológicos potenciais e propõe diretrizes práticas para médicos-veterinários, enfatizando a necessidade de uma abordagem nutricional holística e personalizada.
As doenças da tiroide são reconhecidas como condições endócrinas significativas e frequentes na clínica de pequenos animais, com manifestações distintas entre as espécies. Em gatos, o hipertireoidismo se destaca como a endocrinopatia mais comum em animais idosos, tipicamente resultante de hipertrofia e hiperplasia adenomatosa benigna da glândula. Por outro lado, em cães, o hipotireoidismo primário, predominantemente de origem autoimune (tireoidite linfocítica) ou atrofia idiopática da glândula, é a disfunção tiroideana mais diagnosticada (Amichetti, 2024).
Paralelamente à prevalência dessas condições, observa-se que as dietas comerciais para cães e gatos — particularmente as formulações secas, amplamente difundidas — frequentemente contêm altos teores de carboidratos. Este fato tem levantado questionamentos na comunidade veterinária sobre o papel metabólico desses nutrientes e sua possível influência em eixos hormonais complexos, como o IGF-1 (fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1), insulina e o próprio eixo tiroideano. A evolução das dietas para animais de companhia, muitas vezes distanciando-se do perfil nutricional natural de carnívoros estritos e facultativos, sugere uma potencial desconexão com a fisiologia metabólica dessas espécies.
O objetivo deste artigo é realizar uma revisão científica integrativa para avaliar criticamente se existe uma relação científica validada, direta ou indireta, entre o excesso de carboidratos na dieta e a ocorrência ou exacerbação de doenças tiroideanas em felinos e caninos. Será explorada a fisiologia tiroideana, a epidemiologia e etiologia das doenças em cada espécie, e os potenciais mecanismos fisiopatológicos que poderiam mediar essa interação.
A glândula tiroide, sob o controle do eixo hipotálamo-hipófise-tiroide (HHT), é responsável pela síntese e secreção dos hormônios tiroideanos, tiroxina (T4) e triiodotironina (T3). Estes hormônios são essenciais para uma vasta gama de processos fisiológicos, incluindo a regulação do metabolismo basal, termogênese, desenvolvimento e função do sistema nervoso, função cardiovascular e a homeostase lipídica e proteica. A função tiroideana é finamente regulada e sensível a múltiplos fatores, incluindo a disponibilidade de micronutrientes e o estado metabólico geral do organismo.
Elementos-chave para a síntese e ação dos hormônios tiroideanos incluem:
Perturbações na nutrição, seja por deficiências de micronutrientes ou por desequilíbrios de macronutrientes, podem influenciar direta ou indiretamente a produção, conversão e ação hormonal da tiroide, impactando a saúde metabólica geral.
O hipertireoidismo felino é a endocrinopatia mais diagnosticada em gatos idosos, geralmente afetando animais com mais de 8 anos de idade. É caracterizado pela produção excessiva de hormônios tiroideanos, T4 e T3, resultando em um estado de hipermanabolismo. Os sinais clínicos incluem:
A etiologia do hipertireoidismo felino é multifatorial e complexa. Fatores apontados na literatura incluem:
Estudos robustos têm consistentemente demonstrado a forte relação entre a ingestão de iodo e a função tiroideana em gatos.
A natureza carnívora obrigatória do gato implica uma dependência primária de proteínas e gorduras como fontes de energia. Dietas secas hipercarboidratas, que se tornaram comuns no mercado, podem induzir diversas alterações metabólicas em felinos:
Apesar desses efeitos metabólicos sistêmicos, é crucial reiterar que nenhum estudo atual demonstra uma causalidade direta e isolada entre a ingestão de carboidratos e a alteração nos níveis de T4/T3 em gatos, levando ao hipertireoidismo. A complexidade da doença sugere que os carboidratos podem, no máximo, ser um fator contribuinte em um contexto de predisposição e múltiplos estressores ambientais e nutricionais.
O hipotireoidismo canino é a endocrinopatia mais comum em cães, caracterizada pela produção insuficiente de hormônios tiroideanos. As formas mais comuns da doença são:
Os sinais clínicos do hipotireoidismo são amplos e refletem o metabolismo basal reduzido:
O impacto nutricional na função tiroideana de cães tem sido amplamente investigado, focando em diversos aspectos da dieta:
Estudos chave:
Portanto, a literatura atual não oferece evidências diretas e conclusivas de que dietas ricas em carboidratos causem ou precipitem o hipotireoidismo em cães. A etiologia autoimune e genética prevalece como a principal causa da doença.
Apesar da ausência de comprovação causal direta entre o excesso de carboidratos e as doenças tiroideanas primárias em cães e gatos, existem caminhos fisiológicos e metabólicos plausíveis pelos quais uma dieta hipercarboidrata poderia modular indiretamente a função tiroideana, especialmente em indivíduos predispostos ou em estados de doença metabólica.
Dietas crônicas ricas em carboidratos, especialmente aquelas com alto índice glicêmico, podem levar a:
Estudos em humanos e modelos animais sugerem que a hiperinsulinemia e a resistência insulínica podem impactar a tiroide de várias maneiras:
Em cães e gatos, as evidências de uma ligação direta são mais indiretas e especulativas, mas o mecanismo é biologicamente plausível, dado o papel central da insulina no metabolismo.
Dietas hipercarboidratas, frequentemente associadas à obesidade e ao desequilíbrio da microbiota intestinal, podem induzir um estado de inflamação crônica sistêmica de baixo grau, conhecido como "metainflamação". Este estado é caracterizado por:
As citocinas inflamatórias têm um efeito inibitório conhecido sobre a função tiroideana:
Embora não causem a doença primária, a metainflamação pode exacerbar disfunções tiroideanas subclínicas ou modular a progressão de doenças existentes, afetando a eficácia do tratamento ( Amichetti, 2025).
Alimentos industriais ricos em carboidratos, frequentemente formulados com ingredientes vegetais (grãos, leguminosas), podem apresentar desafios nutricionais:
A deficiência subclínica desses micronutrientes, mesmo em dietas que nominalmente contêm quantidades adequadas, pode comprometer a síntese e a função dos hormônios tiroideanos a longo prazo.
Alguns ingredientes comuns em rações ricas em carboidratos, como a soja e certos vegetais crucíferos (p.ex., brócolis, couve-flor em grandes quantidades), contêm compostos goitrogênicos (isoflavonas, tiocianatos) que podem, em teoria, inibir a tiroperoxidase (TPO) ou a captação de iodo pela tiroide.
A análise crítica da literatura veterinária atual nos permite extrair as seguintes considerações sobre a relação entre carboidratos e doenças tiroideanas em cães e gatos:
Existe relação direta comprovada? ❌ Não. A evidência científica atual não suporta a conclusão de que o excesso de carboidratos nas rações comerciais é uma causa direta e primária de hipertireoidismo em gatos ou hipotireoidismo em cães. A etiologia dessas doenças é complexa e multifatorial, com fatores genéticos, autoimunes e ambientais desempenhando papéis mais proeminentes.
Existe relação indireta potencial? ✔️ Sim. Apesar da falta de causalidade direta, existe um corpo crescente de evidências que sugere que dietas ricas em carboidratos podem modular a função tiroideana indiretamente através de uma cascata de eventos metabólicos. Isso inclui:
Esses mecanismos podem criar um ambiente metabólico que predispõe à disfunção tiroideana ou agrava condições subclínicas, mas não são o gatilho inicial isolado da doença primária.
E o Iodo? ✔️ É o fator nutricional mais comprovado. Flutuações na ingestão de iodo – seja por deficiência ou, mais comumente, por excesso ou inconsistência no fornecimento – estão bem estabelecidas como moduladores críticos da função tiroideana em ambas as espécies. Em gatos, a modulação do iodo dietético é uma estratégia terapêutica comprovada para o hipertireoidismo.
Em resumo, enquanto a composição de macronutrientes da dieta pode influenciar o perfil metabólico geral de cães e gatos, o papel dos carboidratos como causa direta de doenças tiroideanas primárias não é sustentado pela ciência atual. A complexidade do sistema endócrino exige uma visão holística, onde a qualidade geral da dieta, o equilíbrio de micronutrientes e a prevenção da obesidade e resistência à insulina são fundamentais para a saúde da tiroide.